IPSY NEWS -ABRIL DE 2026

Este mês, uma pesquisa mostrou que o cérebro de quem tem TDAH literalmente adormece em partes durante tarefas exigentes. Outra demonstrou que a intervenção psicopedagógica intensiva constrói uma área cerebral que faltava no cérebro disléxico. E a PeNSE/IBGE nos entregou números que tiram o sono: 3 em cada 10 adolescentes brasileiros se sentem tristes sempre ou quase sempre, e 18,5% acham que a vida não vale a pena.

Preparei este resumo para que você tenha, em um só lugar, tudo o que precisa saber para atualizar sua prática, conversar com a equipe multidisciplinar e fundamentar seu trabalho com famílias e escolas. Boa leitura.

PESQUISAS SOBRE TDAH

O cérebro com TDAH não “desliga por preguiça” — ele entra em micro-sono

Em 16 de março de 2026, o Journal of Neuroscience publicou um estudo da Monash University (Austrália) e do Paris Brain Institute que muda a forma como entendemos os lapsos de atenção no TDAH. A equipe liderada por Elaine Pinggal e Thomas Andrillon comparou 32 adultos com TDAH e 31 controles neurotípicos durante uma tarefa de atenção sustentada, monitorados por EEG de alta densidade.

O achado central: adultos com TDAH apresentaram uma densidade significativamente maior de ondas lentas delta — ondas que normalmente só aparecem durante o sono profundo — sobre regiões parieto-temporais do cérebro, enquanto estavam acordados e realizando a tarefa. Quanto maior essa densidade, mais erros de omissão, maior variabilidade no tempo de reação e mais sonolência subjetiva os participantes relataram.

Os pesquisadores chamam esse fenômeno de “sono local”: partes do cérebro literalmente adormecem por frações de segundo enquanto o restante continua acordado. A análise de mediação confirmou que essa atividade de sono explica estatisticamente as dificuldades atencionais associadas ao TDAH.

O que muda na prática: Quando aquele aluno “desliga” no meio da explicação, não é má vontade nem falta de educação. É um evento neurológico mensurável. Isso fundamenta o uso de micro-pausas planejadas, alternância de estímulos sensoriais e feedback mais frequente — estratégias que nós já usamos, mas que agora têm base fisiológica sólida.

TDAH não é só “déficit de inibição” — novo modelo integra recompensa e dinâmica cerebral

Publicada em 23 de março de 2026 na Translational Psychiatry (Nature Portfolio), a revisão de Weidong Cai e Yoshifumi Mizuno propõe que o TDAH infantil deve ser compreendido como uma interação entre três sistemas: controle inibitório, motivação/recompensa e dinâmica de estados cerebrais ao longo da tarefa. A implicação é clara: intervenções que trabalham apenas inibição (“para, pensa, age”) são insuficientes. Precisamos combinar manejo de recompensa, regulação de estado e suporte executivo em uma abordagem integrada.

Risco genético prediz assinatura neural do TDAH

Também na Translational Psychiatry (31 de março), Ümit Aydin e colegas mostraram que o risco poligênico para TDAH prediz alterações em midfrontal theta (4–8 Hz) — um marcador neural de controle cognitivo. Em termos práticos: a dificuldade de autorregulação tem base neurobiológica mensurável, não é apenas comportamental.

Glutamato pode explicar por que o TDAH persiste em uns e remite em outros

O trabalho de Bouyssi-Kobar e Philip Shaw (Translational Psychiatry, version of record em 20 de março) investiga o papel do glutamato nas trajetórias heterogêneas do TDAH. Isso reforça a importância da reavaliação periódica e do acompanhamento longitudinal — o TDAH da criança de 7 anos pode não ser o mesmo aos 14.

PESQUISAS SOBRE TEA / AUTISMO

TEA + TDAH: um fenótipo próprio, não a soma de dois quadros

Publicado em 3 de março de 2026 na Frontiers in Psychiatry, o estudo de Antonio Narzisi e colegas demonstrou que crianças com a comorbidade ASD+ADHD apresentam um perfil cognitivo e emocional distinto de cada condição isolada, com pior desempenho cognitivo e maior desregulação emocional-comportamental. Para a nossa avaliação, isso significa que não podemos simplesmente replicar protocolos pensados para um diagnóstico único quando há dupla condição — precisamos de hipóteses funcionais específicas.

Rigidez cognitiva no autismo: evidência experimental direta

Em 20 de março (Communications Psychology), Lu, Zhang e Yi mostraram que crianças autistas exibem “inflexible updating” — coletam informação com maior variabilidade e têm dificuldade de atualizar estratégias. Isso dialoga diretamente com o que vemos no consultório: dificuldade de transição entre tarefas, tolerância à incerteza e generalização. A intervenção precisa explicitar pistas, graduar mudanças e reduzir o custo cognitivo de cada transição.

Funções executivas desde o primeiro ano de vida predizem desfechos no TEA

Estudo longitudinal de Tanya St. John e rede IBIS (Journal of Neurodevelopmental Disorders, 12 de março) acompanhou crianças de alto risco familiar para autismo desde bebês até a idade escolar. O grupo autista acumulou mais dificuldades executivas ao longo do desenvolvimento. Mensagem para nós: monitorar funções executivas desde a primeira infância em famílias com histórico de TEA, sem esperar a idade escolar para agir.

FE no jardim de infância prediz matemática e interação social

Divulgado pela UNC em 3 de março (JCPP), estudo com 67 crianças autistas no kindergarten encontrou associação entre medidas informatizadas de função executiva e desempenho em matemática, além de relação entre dificuldades executivas e problemas de interação com pares. Avaliar FE cedo pode antecipar risco acadêmico e social.

Biomarcador de ondas cerebrais para Síndrome do X-Frágil

Pesquisadores do MIT publicaram em fevereiro de 2026 (Nature Communications) a identificação de um biomarcador de ondas de baixa frequência compartilhado entre humanos e camundongos com Síndrome do X-Frágil — a forma hereditária mais comum de autismo. O biomarcador respondeu a doses únicas de arbaclofen (que potencializa a atividade inibitória GABA), abrindo caminho para avaliações não invasivas de eficácia de tratamento em TEA.

Sinal molecular (óxido nítrico) como gatilho em formas de autismo

Publicado na Molecular Psychiatry (março de 2026), o estudo mostrou que excesso de óxido nítrico modifica quimicamente a proteína TSC2, desencadeando uma cascata de disfunções sinápticas. Essa descoberta reforça o modelo de neurodiversidade: o autismo tem base molecular dinâmica, e as intervenções devem ajudar o indivíduo a prosperar em sua configuração neurológica, não buscar “normalização”.

PESQUISAS SOBRE DISLEXIA

A prova biológica de que nosso trabalho muda o cérebro

Se eu tivesse que escolher um único achado de março para compartilhar com as famílias dos meus pacientes, seria este. O estudo de Jason Yeatman (Stanford), publicado na Nature Communications, mostrou que a Área de Forma Visual das Palavras (VWFA) — a região cerebral que se especializa no reconhecimento de palavras escritas — é menor ou está ausente em crianças com dislexia.

Mas aqui vem o dado que muda tudo: após um ano de tutoria especializada e intensiva, exames de ressonância magnética funcional mostraram que essa área tornou-se detectável onde antes era ausente, e seu volume aumentou significativamente. Em nível biológico, o trabalho do psicopedagogo literalmente constrói estrutura cerebral.

Dislexia como vulnerabilidade de rede, não “gene defeituoso”

A revisão de Elena Grigorenko (University of Houston), publicada no Journal of Speech, Language, and Hearing Research, catalogou 175 genes associados a dificuldades de leitura, dividindo-os em dois grupos: os que atuam na construção estrutural do cérebro durante a gestação (grupo arquitetônico) e os que operam durante o processamento da leitura após o nascimento (grupo funcional). Para nós, isso reforça que a avaliação de dislexia precisa ser multimodal — linguagem, processamento fonológico, atenção, memória de trabalho e contexto escolar.

Funções executivas voltam ao centro da avaliação de dislexia

Publicação de Guerra e colegas na revista Dyslexia (2026) avaliou crianças com dislexia e encontrou déficits significativos em inibição, memória de trabalho e flexibilidade cognitiva — especialmente quando há comorbidade com TDAH. Avaliação de dislexia não pode se restringir à leitura e escrita.

NEUROCIÊNCIA DA APRENDIZAGEM

O cérebro aprende neurônio a neurônio — como a IA

Pesquisa do MIT publicada na Nature (fevereiro de 2026, divulgada em março pelo McGovern Institute) descobriu que o cérebro pode enviar feedback personalizado a neurônios individuais durante a aprendizagem — de forma semelhante aos sinais de erro que impulsionam o aprendizado de máquina na inteligência artificial. Usando uma interface cérebro-computador, camundongos aprenderam em uma semana a ativar neurônios específicos enquanto inibiam outros. A aprendizagem é um processo de ajuste fino, célula a célula.

Impacto prolongado da pandemia sobre funções executivas

Publicado no Child Development (divulgado em 4 de março pela University of East Anglia), o estudo “Tracking the trajectory of executive function from 2.5 to 6.5 years” mostrou que crianças tiveram crescimento de função executiva abaixo do esperado durante e após a pandemia, com prejuízo em autorregulação, foco e adaptação a novas situações. Isso conversa diretamente com a percepção clínica que todos nós temos: mais queixas de imaturidade executiva e dificuldade de adaptação escolar no pós-pandemia.

Atlas mais completo do neocórtex humano em desenvolvimento

Colaboração internacional liderada por Johns Hopkins integrou dados de quase 200 estudos publicados e mais de 30 milhões de células individuais, criando o mapeamento mais abrangente do neocórtex humano em desenvolvimento — desde estágios fetais até a maturidade. Publicação na Nature Neuroscience em março de 2026. Um marco para a compreensão do neurodesenvolvimento.

O QUE ACONTECEU NAS ESCOLAS DO BRASIL

PeNSE/IBGE: o retrato mais preocupante da saúde mental dos nossos adolescentes

Em 25 de março de 2026, o IBGE divulgou a 5ª edição da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), com dados coletados em 2024 junto a 118.099 adolescentes de 4.167 escolas públicas e privadas. Os números são de tirar o sono:

3 em cada 10 estudantes de 13 a 17 anos se sentem tristes sempre ou na maioria das vezes. Uma proporção semelhante já teve vontade de se machucar de propósito.

42,9% se sentem irritados, nervosos ou mal-humorados por qualquer coisa.

18,5% pensam sempre, ou na maioria das vezes, que a vida não vale a pena ser vivida.

Apenas 34,1% dos estudantes tinham profissional de saúde mental disponível na escola.

26,1% sentem constantemente que “ninguém se preocupa” com eles.

20% foram agredidos fisicamente pelo pai, mãe ou responsável no último ano.

Cerca de 100 mil estudantes tiveram lesões autoprovocadas no período analisado.

Em todos os indicadores, os resultados entre as meninas são mais alarmantes.

Esses dados afetam diretamente a aprendizagem. Aluno em sofrimento emocional não aprende. E nós, psicopedagogos institucionais, somos muitas vezes os primeiros a perceber os sinais — antes mesmo da família. Esses números dão base concreta para justificar junto à gestão escolar a necessidade de suporte especializado.

Bullying: persistência e intensidade aumentaram

Na mesma PeNSE: 39,8% dos estudantes já sofreram bullying, com aumento de mais de 4 pontos percentuais na proporção dos que vivenciaram episódios repetidos. As meninas são as mais atacadas (43,3% contra 37,3% dos meninos). Um dado preocupante: 7,6% dos autores admitiram que a motivação foi a deficiência da vítima, mas apenas 2,6% das vítimas reconheceram esse motivo — sugerindo que muitas silenciam por medo de estigma. Menos da metade das escolas realizou ações de prevenção ao bullying.

Agressões a crianças autistas: dois casos que nos dizem muito

Em 24 de março, em Manaus, a avó de uma criança autista e não verbal presenciou a professora da sala de recursos — justamente o espaço que deveria ser de acolhimento — agredindo o menino de 10 anos com tapas no rosto. A mãe gravou um vídeo-denúncia que viralizou nas redes.

Também em março, ganhou repercussão o caso de Maceió: uma criança autista de 7 anos agredida por uma terapeuta ocupacional durante sessão em clínica. A agressão, confirmada por câmeras de segurança, levou ao afastamento da profissional por 12 meses pelo Conselho Regional. A criança passou a ter pesadelos, regressão de comportamentos já superados, perda de interesse escolar e recusa de retornar à clínica.

O que isso nos diz: Esses casos não são exceções isoladas. Eles revelam falhas na formação, na supervisão e na cultura de cuidado. Para nós, psicopedagogos e neuropsicopedagogos, eles reforçam a importância da observação atenta de sinais de regressão comportamental em crianças atendidas por equipes multidisciplinares — e a coragem de agir quando algo não está certo.

Crise de saúde mental dos adultos impacta a criança

O Brasil registrou em 2025 mais de 546 mil afastamentos do trabalho por transtornos mentais — crescimento de 15% em relação a 2024 e novo recorde histórico. Ansiedade e depressão lideram. Para quem trabalha com orientação parental e consultoria escolar, esse dado é fundamental: quando pais e professores adoecem, a criança perde rede de suporte. O adulto cuidador em crise não consegue regular emocionalmente a criança que depende dele.

LEGISLAÇÃO E POLÍTICAS PÚBLICAS

Atualização legislativa de março

PL 1.675/2023 — Regulamentação da Psicopedagogia: Aprovado em primeiro turno (18/03) e em segundo turno (25/03) pela CAS do Senado. Segue para a Câmara dos Deputados. Profissionais formados em Psicologia, Pedagogia, Fonoaudiologia ou Licenciatura poderão atuar como psicopedagogos mediante especialização de 600 horas em até 60 meses após a promulgação da lei. Sigilo profissional obrigatório.

Educação Especial: CDH do Senado aprovou em 11/03 projeto que determina atendimento individualizado periódico para alunos com deficiência, TEA e altas habilidades, extensível à EJA e ao ensino remoto.

TDAH: Parecer legislativo (PL 4225/2023) reforça acomodações educacionais, incluindo acréscimo mínimo de uma hora no prazo de provas.

Altas Habilidades: PL 1049/2026, surgido em 18/03, propõe Política Nacional para Estudantes com Altas Habilidades/Superdotação, com identificação precoce e centros de referência.

IA na Educação: CNE agendou para 16 de março a votação de diretrizes que definem regras para uso de IA na educação básica e superior, incluindo proibição de automação pedagógica plena e exigência de supervisão humana.

EVENTOS E ECOSSISTEMA PROFISSIONAL EM MARÇO

O que aconteceu no ecossistema

1º Congresso Brasileiro de TDAH — 13 e 14 de março, Vitória-ES. Foco em psicofarmacologia, educação inclusiva e funções executivas.

Congresso Internacional Autismo Sem Fronteira — 14 e 15 de março, Ponta Porã-MS. Inscrições esgotadas.

Fórum da Educação Especial e Inclusiva 2026 — 26 de março, São Paulo. Prática pedagógica, segurança jurídica e inclusão.

Jornada do Autismo 2026 — 28 e 29 de março, Rio de Janeiro. Formação, integração sensorial, linguagem, nutrição e neuropsicologia.

Edtechs e as Escolas Públicas 2026 — 24 de março, Brasília. Debate sobre IA como copiloto na aprendizagem.

ABPp-RS — Café Psicopedagógico sobre Jogos Boole (14/03) e ABPp Portas Abertas (20/03).

Fechamento: o que levar para abril

Março nos entregou ciência e dados que fundamentam o que fazemos. Abril chega com o Abril Azul — mês de conscientização sobre o autismo — e com a responsabilidade de transformar esses achados em prática.

Algumas recomendações para este mês:

1. Atualize sua leitura sobre TDAH. O modelo “falta de inibição” está sendo superado. O novo paradigma integra recompensa, dinâmica cerebral e sono local. Isso muda a forma como planejamos sessões e orientamos professores.

2. Use o achado da VWFA com famílias. Quando uma mãe perguntar “mas esse trabalho de verdade funciona?”, você pode dizer: “Pesquisa de Stanford mostrou que a intervenção psicopedagógica intensiva literalmente constrói a área cerebral da leitura.” Isso não é força de expressão. É ressonância magnética.

3. Fique atento aos sinais de regressão. Os casos de Manaus e Maceió nos lembram que crianças neurodivergentes dependem de nós para perceber quando algo não está certo — mesmo quando elas não conseguem verbalizar.

4. Converse sobre saúde mental com sua equipe. Os dados da PeNSE e os 546 mil afastamentos mostram que tanto os adolescentes quanto os adultos cuidadores estão adoecendo. Isso é uma crise sistêmica que impacta diretamente a aprendizagem.

5. Acompanhe a regulamentação. O PL 1.675/2023 segue para a Câmara. Certifique-se de que sua formação atende às 600 horas de especialização que serão exigidas.

Nos vemos na edição de abril. Cuide-se — e continue fazendo a diferença.

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