IPSY NEWS — JUNHO DE 2026

Maio deixou uma lição que vale repetir: aprender não depende só de esforço. Depende de cérebro disponível, corpo regulado, ambiente que inclui, adulto preparado e oportunidade real de acesso. Foi um mês com ciência nova de peso, movimento forte na alfabetização brasileira e a profissão crescendo de norte a sul.

Separei o que mais importa pra quem atende criança todos os dias — sempre com a parte que interessa: o que fazer com isso na segunda-feira. Bora.

A ciência do mês

Atenção: a falha vem antes do comportamento Sabe aquele aluno que “viaja” no meio da atividade e a gente logo pensa “não tá nem aí”? Pois é — a ciência de maio sugere que o problema começa antes disso, e dentro do cérebro. Em 13 de maio, a Nature Neuroscience publicou um estudo que observou a atividade cerebral de crianças nos instantes antes de elas perderem o foco. Os pesquisadores viram que o cérebro dá “sinais” de que a atenção vai cair — ou seja, atenção não é uma chave de liga/desliga que a criança controla pela vontade. Ela sobe e desce sozinha, em ondas. E algumas crianças travam num ponto específico: mudar o foco quando a tarefa muda de repente. Isso tem nome — funções executivas, o “gerente” do cérebro que organiza os passos, segura a informação na memória enquanto a criança trabalha e troca de uma atividade pra outra sem emperrar. É esse gerente que costuma estar sobrecarregado no TDAH.

👉 Na prática: antes de brigar com a desatenção, investigue o que veio nos segundos anteriores. Houve troca brusca de tarefa? Foi instrução demais de uma vez? Tinha barulho? A criança estava cansada ou sentada há tempo demais? Quase sempre dá pra ajustar o ambiente — uma instrução por vez, avisar antes de trocar de atividade, pausas curtas — em vez de cobrar só a criança.

Autismo: não é “um perfil”, são perfis Todo mundo que atende sabe: dois autistas podem ser completamente diferentes um do outro. Maio trouxe uma base científica forte pra isso. Em 15 de maio, a Nature Neuroscience comparou o cérebro de quase mil pessoas autistas com mais de mil não autistas. O time não olhou pro comportamento, e sim pra como as áreas do cérebro “conversam” entre si — o que os cientistas chamam de conectividade (o quanto as regiões trocam informação). E acharam pelo menos dois grupos dentro do autismo: um em que essas áreas “conversam de menos” (conexão mais fraca) e outro em que “conversam demais” (conexão mais intensa) — cada um ligado a caminhos biológicos diferentes. Traduzindo: o autismo não tem um único “motor” por baixo. São motores distintos.

👉 Na prática: cuidado com receita de bolo. O que funcionou lindamente com um aluno autista pode não servir pro outro, mesmo com o mesmo laudo. O diagnóstico é a porta de entrada; quem desenha o caminho é a sua avaliação — funcional, sensorial, de comunicação e pedagógica. Olhe a criança, não só a sigla.

Os sentidos também aprendem (ou travam) Aquele aluno que tampa o ouvido no recreio, não suporta a etiqueta da roupa ou “surta” quando a sala fica barulhenta costuma ser rotulado como “manha”. Quase nunca é. Ainda em maio, um estudo na revista Biological Psychiatry: Cognitive Neuroscience and Neuroimaging investigou os perfis sensoriais no autismo — o jeito particular de cada pessoa receber e processar os estímulos do mundo (som, luz, toque, movimento) — e como isso se conecta ao funcionamento do cérebro. Tem criança que busca estímulo o tempo todo (precisa se mexer, fazer barulho) e tem criança que foge do estímulo (som e toque incomodam demais). Quando o ambiente passa do ponto, vem a sobrecarga — e aí não tem atenção, linguagem nem comportamento que se sustente. E não ficou só na teoria: no dia 21, professores do AEE de Paulista (PE) passaram por uma formação justamente sobre processamento sensorial no TEA.

👉 Na prática: leia o comportamento “difícil” como possível sobrecarga sensorial. Antes de cobrar, ajuste o ambiente: abafador de ruído, um canto mais calmo, aviso antes de atividades agitadas, deixar a criança se mover um pouco. Sentidos regulados primeiro; aprendizagem depois.

Brasil no radar

Alfabetização voltou pro centro das metas A alfabetização é o chão de tudo no nosso trabalho — quando ela falha, a dificuldade vira bola de neve nas outras matérias. Por isso vale acompanhar o que o país está fazendo. Em maio, vários estados e municípios se mexeram dentro do Compromisso Nacional Criança Alfabetizada — o programa federal que mira garantir, até 2030, que toda criança esteja alfabetizada até o fim do 2º ano, e recuperar quem ficou pra trás no 3º, 4º e 5º. São Paulo montou um grupo de trabalho só de alfabetização (dia 8); o Piauí comemorou os 5 anos do PPAIC, seu programa estadual de alfabetização (dia 24) ; e Goiânia firmou uma meta de leitura pro 2º ano (dia 25). Esse movimento todo aperta (no bom sentido) a forma como a escola ensina a ler — e isso bate direto na nossa mesa.

👉 Na prática: o lembrete de ouro — nem toda dificuldade de leitura é transtorno. Antes de pensar em dislexia, olhe primeiro a instrução que a criança recebeu: teve um ensino sistemático de leitura? Trabalharam a consciência fonológica (perceber e brincar com os sons das palavras)? Como está a linguagem oral, a frequência na escola, o contexto de casa? Muita “dificuldade” some quando o ensino melhora. Nosso papel é separar o que é falta de oportunidade do que é transtorno de verdade.

Brincar não é o intervalo da aprendizagem De vez em quando ainda escutamos que brincar é “perda de tempo” ou “coisa pra depois da lição”. É o contrário. De 25 a 29 de maio aconteceu a Semana Mundial do Brincar, um movimento anual que defende o direito de brincar como parte do desenvolvimento — neste ano com o tema “A potência dos Encontros”. Redes de todo o país reforçaram que brincar é, sim, aprender. E pra gente o brincar tem um bônus: é uma das janelas mais ricas pra enxergar como a criança funciona por dentro.

👉 Na prática: use o brincar como instrumento de observação. Brincando, a criança mostra como planeja, como usa a linguagem, se cria faz-de-conta (símbolo), se aceita mudar as regras (flexibilidade), como se relaciona (vínculo), como está a coordenação motora e o quanto consegue se autorregular — tudo sem perceber que está sendo avaliada. Uma sessão de brincadeira bem observada entrega o que nenhum teste isolado entrega.

Inclusão: sair do discurso e mapear barreiras “Inclusão” virou palavra de ordem — mas, na correria, muita gente ainda confunde inclusão com “ter o laudo na pasta”. No dia 12, o MEC (pela secretaria de inclusão, a Secadi) divulgou o “Caderno de Gestão: Educação Especial Inclusiva”, com orientações práticas pra incluir estudantes com deficiência, TEA e altas habilidades. A ideia do material é tirar a inclusão do papel e levar pra rotina da escola. E o coração dele é uma virada de chave que tem tudo a ver com a nossa forma de pensar.

👉 Na prática: muda a pergunta. Em vez de “o que falta nessa criança?”, pergunte “que barreiras estão impedindo a participação, a comunicação, a autonomia e a aprendizagem dela?” — e vá atrás de derrubar essas barreiras (no material, no tempo, na linguagem, no ambiente). O laudo ajuda a entender, mas não é ele que define o plano: é o mapa de barreiras e potências.

A profissão crescendo de ponta a ponta Pra fechar, uma boa notícia: maio mostrou a psicopedagogia e a neuropsicopedagogia ganhando espaço de verdade — não só no consultório, mas como política pública. O Espírito Santo realizou seu 1º Seminário Capixaba de Neuropsicopedagogia, em Vitória, reunindo profissionais em torno da ciência da aprendizagem. E pipocaram reconhecimentos pelo país: o Piauí instituiu o Dia Estadual do Psicopedagogo, municípios passaram a incluir a psicopedagogia na rede e outros criaram programas itinerantes, em que o psicopedagogo vai até as escolas e creches fazer prevenção e apoiar professores e famílias.

👉 Na prática: fique de olho no que se move no seu estado e no seu município. Onde a psicopedagogia entra como política pública, abrem-se concursos, parcerias e convênios — e vale estar pronto (e visível) pra ocupar esse espaço..

Agenda

  • III Encontro Estadual de Psicopedagogia do Maranhão — São Luís (MA), 26 e 27 de junho.
  • XII Congresso de Psicopedagogia Popular do Brasil — São Luís (MA), 24 a 26 de julho.
  • 11º Congresso Aprender Criança — São Paulo, 16 a 18 de julho. O maior da América Latina em transtornos do neurodesenvolvimento.
  • VII Simpósio Nacional de Psicopedagogia (ABPp) — São Paulo, 13 e 14 de novembro. Tema: “Psicopedagogia: buscando sentidos do aprender na cultura digital”.

Novidade gratuita na Biblioteca iPsy

Bateria de Rastreio Neuropsicopedagógico Rápido

O material mais votado pela nossa comunidade acaba de ser lançado — e é 100% gratuito. Um kit completo de triagem para crianças de 6 a 12 anos, que permite mapear, em apenas 1 ou 2 sessões, os domínios que pedem uma avaliação mais aprofundada.

São 7 materiais prontos para usar: o Guia do Aplicador (com scripts de consigna, cortes por faixa etária e fluxograma de decisão), o Caderno de Estímulos, as folhas preenchíveis de registro, o questionário dos responsáveis, o checklist do professor, uma planilha que calcula os alertas automaticamente e a folha-síntese para o prontuário.

Tudo dentro dos padrões éticos da prática: é um instrumento de triagem — não de diagnóstico — pensado para dar estrutura e segurança à sua primeira escuta.

Faça seu cadastro gratuito, entre na biblioteca e baixe agora:

👉 https://biblioteca.ipsybr.com.br/cadastro

A gente se vê em julho. Um abraço — e continue fazendo a diferença na vida dessas crianças. 🌱

— Equipe iPsy

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