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Atenção e Funções Executivas

TENA-Inf: Avaliação da Atenção Infantil [2026]

Equipe iPsy
Atualizado em abr/20269 min de leitura
Psicopedagogia e neuropsicopedagogia
Faixa etária
6–12 anos
Quem aplica
Restrito — não consta no SATEPSI
Categoria
Atenção e Funções Executivas

Atenção não é uma coisa só. Na neuropsicologia contemporânea, fala-se em “atenções” — no plural — porque pesquisas das últimas décadas mostraram que diferentes redes cerebrais são responsáveis por diferentes tipos de atenção: sustentar foco em uma tarefa longa é uma rede; alternar entre duas tarefas é outra; selecionar um estímulo entre vários é outra; dividir atenção entre duas coisas simultaneamente é mais uma. O TENA-Inf é o instrumento brasileiro construído justamente para mapear essa pluralidade.

Este guia explica o que é o TENA-Inf, sua estrutura em diferentes modalidades atencionais, em que casos ele faz mais sentido na avaliação, como o psicopedagogo deve ler um laudo TENA-Inf e como articular esses achados ao plano de intervenção em casos de TDAH e dificuldades atencionais persistentes.

1. O que é o TENA-Inf

O TENA-Inf (Tarefas de Avaliação Neuropsicológica da Atenção Infantil) é um instrumento brasileiro, desenvolvido por pesquisadores da neuropsicologia clínica nacional para preencher uma lacuna importante no contexto da avaliação infantil: a falta de instrumentos abrangentes que permitam investigar diferentes tipos de atenção em uma única bateria estruturada e padronizada.

Antes do TENA-Inf, profissionais brasileiros precisavam combinar múltiplos instrumentos isolados (testes de cancelamento, Stroop, Trail Making, dígitos do WISC) para tentar compor um perfil atencional. O TENA-Inf reúne tarefas equivalentes em uma única estrutura, com normatização brasileira específica, facilitando a aplicação clínica e a comparação entre crianças.

Por que diferentes “tipos de atenção” importam

A neuropsicologia atual identifica pelo menos quatro modalidades distintas de atenção, cada uma associada a circuitos cerebrais específicos:

  1. Atenção sustentada — manter foco numa tarefa por tempo prolongado. Falha quando a criança “começa bem mas não termina”.
  2. Atenção seletiva — focar em um estímulo entre vários distratores. Falha quando “qualquer barulhinho desconcentra”.
  3. Atenção alternada — mudar foco de uma tarefa para outra de forma flexível. Falha quando “trava ao trocar de matéria/atividade”.
  4. Atenção dividida — manter duas ou mais tarefas simultaneamente. Falha quando “não consegue ouvir e escrever ao mesmo tempo”.

Crianças com TDAH frequentemente têm prejuízo em várias dessas modalidades, mas com perfis específicos. Identificar QUAL atenção está mais comprometida orienta intervenção pedagógica precisa: estratégias para sustentação são diferentes de estratégias para alternância. Veja o guia completo sobre TDAH.

Faixa etária

O TENA-Inf é normatizado para crianças do ensino fundamental — aproximadamente 6 a 12 anos. Para adolescentes mais velhos, instrumentos como o TAC ou subtestes de atenção da NEPSY-II são mais adequados.

2. A estrutura do TENA-Inf

O TENA-Inf reúne tarefas que mapeiam as principais modalidades atencionais. As tarefas tipicamente incluem:

ModalidadeTipo de tarefaO que captura
Atenção sustentadaTarefas longas com estímulos repetitivos onde a criança deve manter resposta consistenteCapacidade de manter desempenho ao longo do tempo, fadiga cognitiva
Atenção seletivaTarefas de cancelamento com distratores visuais; busca de estímulos-alvoCapacidade de filtrar informação relevante
Atenção alternadaTarefas onde a regra muda ao longo da execução, exigindo flexibilidadeCapacidade de mudar foco e regra rapidamente
Atenção divididaTarefas duplas — fazer duas coisas simultaneamenteCapacidade de gerenciar recursos atencionais

Cada tarefa é cronometrada e gera múltiplos índices: total de acertos, omissões (alvos não detectados), comissões (resposta a não-alvos, sugerindo impulsividade), velocidade de processamento e curva de desempenho ao longo do tempo.

3. Quem pode aplicar o TENA-Inf

O TENA-Inf não consta no SATEPSI — nem na lista completa, nem na lista de instrumentos não privativos do psicólogo. Na prática, isso quer dizer que o Conselho Federal de Psicologia não avaliou o instrumento: ele não é reconhecido como teste psicológico no Brasil e, portanto, não tem status de privativo do psicólogo. Ausência de cadastro não é liberação — é ausência de avaliação. Pelo fluxograma da própria página do SATEPSI, o que não é teste psicológico pode ser utilizado como recurso complementar desde que haja fundamentação científica.

Para o psicopedagogo, isso não converte o TENA-Inf em teste normativo à sua disposição. Sem reconhecimento como teste psicológico, o uso possível é como recurso complementar com fundamentação científica, em leitura qualitativa das tarefas — não como bateria cujo escore classifica a criança. Na prática, o psicopedagogo encontra o TENA-Inf sobretudo já aplicado, em laudos de equipes multidisciplinares de neuropsicologia — especialmente em casos de TDAH, dificuldades persistentes de aprendizagem com componente atencional e investigação de prejuízos cognitivos múltiplos. Saber ler esse laudo é uma competência essencial para o psicopedagogo que atua em contextos clínicos especializados.

4. Como o TENA-Inf é aplicado (estrutura geral)

Material necessário

  1. Caderno de aplicação TENA-Inf com as tarefas estruturadas
  2. Folhas de respostas individuais
  3. Cronômetro
  4. Manual com tabelas normativas por idade e ano escolar

Setting e procedimento

  1. 1Ambiente: sala silenciosa, sem distrações visuais ou auditivas. Como o teste mede atenção, qualquer ruído ambiental pode comprometer a validade.
  2. 2Aplicação individual. Tarefas atencionais não funcionam em grupo — exige observação atenta de cada resposta, registro de tempo e marcação qualitativa de erros e estratégias.
  3. 3Itens de demonstração. Cada tarefa começa com itens-exemplo. Importante garantir que a criança entendeu a regra antes de começar a aplicação efetiva.
  4. 4Sequência das tarefas. Geralmente segue a ordem do manual: sustentada primeiro, seguida de seletiva, alternada e dividida. Algumas adaptações alternam tarefas mais e menos cansativas.
  5. 5Cronometragem rigorosa. Tempo é variável crítica em todas as tarefas atencionais. Atrasos ou variações de cronometragem comprometem a comparabilidade com a norma.
  6. 6Tempo total: em média 30 a 45 minutos para a aplicação completa, podendo chegar a 60 minutos em crianças mais lentas ou com fadiga.
  7. 7Conversão para escores padronizados. Os resultados brutos são convertidos em escores padrão por idade e ano escolar. Tabelas normativas brasileiras estão disponíveis no manual.

5. Como interpretar os resultados do TENA-Inf

O TENA-Inf gera múltiplos escores. Vale a ressalva de enquadramento: esses índices são referência do próprio instrumento e dos estudos que o descrevem, não norma chancelada pelo CFP — leia-os como descrição do desempenho da criança nas tarefas, não como classificação oficial. Para o psicopedagogo, os mais relevantes são:

ÍndiceO que indica
Acertos por modalidadeCapacidade global em cada tipo de atenção
OmissõesFalha em sustentação ou seleção; sugere desatenção
ComissõesFalha de inibição; sugere impulsividade
Velocidade de processamentoEficiência atencional
Curva de desempenho ao longo do tempoResistência à fadiga atencional

Análise por padrão clínico

O grande valor do TENA-Inf está na análise diferencial entre as modalidades:

  1. Sustentada rebaixada + outras modalidades preservadas: sugere prejuízo específico em sustentar foco. Padrão típico de TDAH desatento. A criança consegue alternar e selecionar, mas não mantém. Intervenção: tarefas curtas com pausas frequentes; reforço imediato e frequente.
  2. Seletiva rebaixada + outras modalidades preservadas: sugere prejuízo em filtrar distratores. A criança “se distrai com qualquer coisa”. Intervenção: ambiente com poucos estímulos visuais e auditivos; sala silenciosa; uso de fones de ouvido em tarefas escolares.
  3. Alternada e dividida rebaixadas + sustentada e seletiva preservadas: sugere prejuízo em flexibilidade cognitiva. Padrão associado a perfis com componente executivo. Intervenção: rotinas estruturadas; transições explícitas entre atividades; uma tarefa por vez.
  4. Múltiplas omissões + altas comissões em todas as modalidades: perfil de TDAH combinado, com componentes desatento e impulsivo. Padrão mais clássico. Veja guia sobre SNAP-IV.
  5. Velocidade reduzida + poucas omissões + poucas comissões: perfil de “lento mas correto”. Pode indicar lentidão de processamento, ansiedade de desempenho ou perfeccionismo. Não necessariamente patológico — exige análise contextualizada.

Para escolher os instrumentos psicopedagógicos complementares conforme o perfil identificado, use o Seletor de Testes iPsy. Para investigação ampla das funções executivas, ver Torre de Londres e Teste de Atenção por Cancelamento.

6. Quando usar o TENA-Inf na prática psicopedagógica

O TENA-Inf faz sentido em três contextos clínicos:

1. Investigação aprofundada de queixas atencionais. Quando a queixa “ela não presta atenção” é central na avaliação, o TENA-Inf permite identificar exatamente em qual tipo de atenção está a falha. Esse diferencial é crucial para escolher estratégias de intervenção.

2. Em casos suspeitos de TDAH. O TENA-Inf complementa escalas comportamentais (SNAP-IV, ASRS-18) com medida objetiva e diferenciada das modalidades atencionais. O perfil entre as quatro modalidades fornece informação que escalas não capturam. Veja SNAP-IV e ASRS-18.

3. Para acompanhar evolução de intervenção em TDAH. Reaplicações com intervalo mínimo de 6 meses permitem documentar ganhos atencionais resultantes da intervenção pedagógica e/ou medicação. Especialmente útil para mostrar progresso por modalidade — pode ser que sustentada melhore antes que alternada, por exemplo.

Modelos de relatório que articulam laudos neuropsicológicos com plano de intervenção psicopedagógica estão disponíveis no Kit de Documentos iPsy.

7. Limitações importantes do TENA-Inf

  1. Cobertura etária restrita ao ensino fundamental. Para adolescentes ou crianças muito pequenas, instrumentos complementares são necessários. Há lacuna no Brasil para avaliação de atenção em pré-escolares com instrumentos padronizados.
  2. Sensível a fatores não-atencionais. Lentidão de processamento, prejuízos visuoespaciais, ansiedade, motivação e fadiga podem afetar o desempenho sem que haja déficit atencional propriamente dito. Análise contextualizada é fundamental.
  3. Não diagnostica TDAH isoladamente. Mesmo um resultado claramente rebaixado em múltiplas modalidades não é, por si só, suficiente para diagnóstico. O DSM-5 exige sintomas em múltiplos contextos (casa e escola), iniciados na infância, persistentes, com prejuízo funcional. Veja guia sobre TDAH.
  4. Sensível ao estado da criança no dia da avaliação. Sono insuficiente, fome, ansiedade ou desmotivação podem rebaixar artificialmente o desempenho. Resultados muito discrepantes do desempenho cotidiano relatado por pais e escola merecem reaplicação.
  5. Não substitui observação clínica. O perfil objetivo do TENA-Inf precisa ser articulado com observação direta da criança em diferentes contextos, escalas comportamentais e história clínica completa para diagnóstico e plano de intervenção.

Dúvidas comuns sobre o TENA-Inf