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Atenção e Funções Executivas

Torre de Londres: teste de planejamento e aplicação

Equipe iPsy
Atualizado em 9 min de leitura
Psicopedagogia e neuropsicopedagogia
Faixa etária
6–15 anos
Quem aplica
Não consta no SATEPSI
Categoria
Atenção e Funções Executivas

Torre de Londres em resumo

O que é
A Torre de Londres, criada por Tim Shallice em 1982, é um teste de planejamento: o examinando move três bolas entre três pinos até reproduzir um modelo, com o menor número de movimentos.
Quem pode aplicar
A Torre de Londres não consta na lista de testes favoráveis do SATEPSI (consulta de 25/09/2026). O psicopedagogo pode usá-la como observação qualitativa, sem laudo normatizado.
Quanto tempo leva
A aplicação da Torre de Londres leva em média de 15 a 25 minutos, com 8 a 12 problemas, e pode chegar a 40 minutos quando há prejuízo executivo.
Onde conseguir
A Torre de Londres tem versões padronizadas vendidas por editoras especializadas, como a TOL-DX, e versões digitais que exigem licenciamento específico.

A Torre de Londres é o teste mais usado no mundo para avaliar planejamento e funções executivas — e também um dos mais sensíveis a alterações no córtex pré-frontal. Crianças com TDAH, autismo, lesões cerebrais e prejuízos executivos costumam apresentar desempenho rebaixado neste instrumento. Mas a aplicação correta exige atenção a detalhes que fazem diferença na interpretação: tempo de planejamento, número de movimentos, regras quebradas e cumprimento das instruções.

Este guia explica o que é a Torre de Londres, sua origem na neuropsicologia, como aplicar passo a passo, como registrar e interpretar os resultados, em que momento da avaliação ela faz sentido e quais são suas limitações. O artigo é direcionado a psicopedagogos e neuropsicopedagogos que precisam compreender esse instrumento em profundidade.

1. O que é a Torre de Londres

A Torre de Londres é um teste neuropsicológico criado em 1982 pelo psicólogo britânico Tim Shallice para avaliar funções executivas, com foco principal em planejamento, organização e resolução de problemas. O instrumento foi desenvolvido como variação simplificada da Torre de Hanói, com regras mais controladas e estímulos mais sensíveis a disfunções pré-frontais.

Estruturalmente, o teste consiste em três pinos verticais e três bolas coloridas (geralmente vermelha, verde e azul) de tamanhos diferentes. As bolas são posicionadas em uma configuração inicial, e o examinando precisa transferi-las até alcançar uma configuração final pré-determinada — usando o menor número possível de movimentos.

O que avalia

A Torre de Londres mede principalmente quatro componentes das funções executivas:

  1. Planejamento prospectivo: a capacidade de antecipar mentalmente uma sequência de ações antes de executar a primeira.
  2. Memória de trabalho visuoespacial: a capacidade de reter e manipular mentalmente as posições das bolas durante a execução.
  3. Controle inibitório: a capacidade de não realizar o movimento mais óbvio quando ele não é o melhor caminho.
  4. Flexibilidade cognitiva: a capacidade de reformular o plano quando a estratégia inicial se mostra insuficiente.

Na neuropsicologia clínica, a Torre de Londres é particularmente sensível ao funcionamento do córtex pré-frontal dorsolateral, área cerebral relacionada às funções executivas superiores.

2. Quem pode aplicar a Torre de Londres

A Torre de Londres existe em diferentes versões e contextos de uso. É importante distinguir:

  1. Versão original e versões padronizadas com norma populacional (como a Drexel Tower of London — TOL-DX, comercializada por editoras especializadas): na consulta de 25/09/2026, nenhuma delas aparece no SATEPSI, o sistema de avaliação de testes psicológicos do Conselho Federal de Psicologia — nem na lista de testes favoráveis, nem na de instrumentos não privativos. Pelo fluxograma público do SATEPSI, teste psicológico só pode ser usado com parecer favorável; o que não é teste psicológico pode servir como recurso complementar, se tiver fundamentação científica. Fora do trabalho do neuropsicólogo, o uso prudente é como recurso complementar com fundamentação científica, de forma qualitativa — não como teste normativo cujo escore classifica.
  2. Versões pedagógicas e adaptações livres podem ser usadas por psicopedagogos, neuropsicopedagogos e outros profissionais como instrumento de observação clínica complementar — sem que o resultado seja apresentado como pontuação normatizada.

Para o psicopedagogo, isso significa o seguinte: você pode usar a Torre de Londres como atividade de observação durante a avaliação psicopedagógica, registrando comportamentos qualitativos (planejamento, autorregulação, persistência), mas sem fechar laudo neuropsicológico. Para diagnóstico formal de disfunção executiva, o encaminhamento adequado é para neuropsicólogo.

3. Como aplicar a Torre de Londres passo a passo

Material necessário

  1. Base com 3 pinos verticais de alturas diferentes (o mais alto comporta 3 bolas, o médio 2 bolas, o menor 1 bola)
  2. 3 bolas coloridas (vermelha, verde, azul)
  3. Folhas com configurações de problemas (modelos prontos com posição inicial e meta)
  4. Cronômetro
  5. Folha de registro de movimentos

Setting e instruções

  1. 1Sente-se em frente ao examinando , de forma que ele possa ver claramente seu modelo de configuração-meta.
  2. 2Apresente o material: “Vamos brincar com este jogo. Tem três pinos e três bolas. Você precisa mover as bolas para que fiquem exatamente assim” (mostrando o modelo da configuração-final).
  3. 3Explique as três regras fundamentais: (a) só pode mover uma bola por vez; (b) só pode segurar uma bola por vez; (c) só pode encaixar a bola em um pino se houver espaço — não pode equilibrar uma bola sobre outra fora do pino.
  4. 4Demonstre uma vez com um problema simples (1-2 movimentos) para garantir compreensão.
  5. 5Inicie o cronômetro quando o examinando colocar a mão sobre a primeira bola.
  6. 6Não dê pistas durante a execução Se o examinando perguntar “está certo?”, responda neutramente: “Continue tentando do jeito que você acha melhor.”
  7. 7Pare o cronômetro quando a configuração-meta for alcançada (ou no tempo máximo definido pela versão usada — geralmente 60 segundos por problema).

Configurações de problemas

Os problemas são apresentados em ordem crescente de complexidade, geralmente começando com 2 movimentos mínimos e chegando a 5 movimentos. A escolha das configurações deve seguir o protocolo da versão utilizada — variar problemas pessoalmente compromete a comparabilidade entre avaliações.

Em populações pediátricas, recomenda-se aplicar entre 8 e 12 problemas. Em adultos, podem ser usados protocolos com 12 a 18 problemas para maior sensibilidade.

4. Como registrar e pontuar a Torre de Londres

A pontuação da Torre de Londres é multidimensional. Ao contrário de testes onde só interessa “acertou ou errou”, aqui você registra vários parâmetros de cada problema:

ParâmetroO que mede
Tempo de planejamentoTempo entre a apresentação do problema e o primeiro movimento. Indica o uso de planejamento prospectivo.
Tempo total de execuçãoTempo total para completar o problema. Indica eficiência cognitiva.
Número de movimentos realizadosComparado ao número mínimo possível. Excesso indica dificuldade de planejamento.
Regras quebradasQuantas vezes o examinando violou as três regras (mover duas bolas, segurar duas, posicionar fora do pino). Indica controle inibitório e atenção às instruções.
Solução correta na primeira tentativaResolveu o problema sem precisar refazer movimentos. Indica acurácia executiva.

Interpretação qualitativa

Mais importante que a pontuação numérica, a interpretação qualitativa traz informações valiosas para o relatório psicopedagógico:

  1. Tempo de planejamento muito curto + muitos movimentos: sugere impulsividade. Padrão comum em TDAH e em prejuízos pré-frontais.
  2. Tempo de planejamento longo + execução correta: indica boa autorregulação e planejamento eficiente.
  3. Tempo de planejamento longo + execução incorreta: sugere dificuldade em traduzir o plano mental em ação — pode estar relacionado a problemas de memória de trabalho ou de monitoramento da execução.
  4. Quebra repetida de regras: mesmo após relembradas, sugere baixo controle inibitório ou dificuldade em reter instruções.
  5. Frustração ou desistência precoce: indicador comportamental relevante — pode refletir baixa tolerância à frustração, desregulação emocional ou ansiedade de desempenho.

Para escolher os instrumentos adequados à avaliação de funções executivas conforme a faixa etária e a queixa, use o Seletor de Testes iPsy.

5. Quando usar a Torre de Londres na avaliação psicopedagógica

A Torre de Londres se encaixa em três contextos típicos:

1. Queixa de desorganização e dificuldade em finalizar tarefas. Crianças que começam atividades mas não terminam, que esquecem materiais, que precisam ser orientadas passo a passo — frequentemente apresentam déficit em planejamento. A Torre de Londres ajuda a observar esse padrão de forma estruturada.

2. Suspeita de TDAH com predomínio de desatenção. Em conjunto com instrumentos como o SNAP-IV, a Torre de Londres traz dados objetivos sobre como a criança se comporta diante de tarefas que exigem planejamento. É um complemento valioso para fundamentar hipóteses sobre disfunção executiva.

3. Acompanhamento de evolução em intervenção psicopedagógica. Aplicar a Torre de Londres no início do processo e ao final permite documentar ganhos em planejamento e organização — especialmente em casos de TDAH, autismo e síndromes neurológicas onde funções executivas são alvo de intervenção.

Para esse trabalho, a Biblioteca do iPsy tem o Pacote Funções Executivas, com 30 atividades de planejamento e organização, e a Bateria de Rastreio de Funções Executivas, com tarefas práticas e ficha de registro — os dois para baixar com conta gratuita.

Para casos que envolvam crianças com TDAH, o guia completo sobre TDAH aprofunda critérios diagnósticos e estratégias de intervenção. Para autismo, veja o guia completo sobre TEA, onde funções executivas são frequentemente alvo de avaliação.

6. Limitações importantes que você precisa conhecer

Como todo instrumento, a Torre de Londres tem limitações que precisam ser consideradas:

  1. Não é diagnóstica isoladamente. Desempenho rebaixado pode indicar disfunção executiva, mas também pode refletir ansiedade, fadiga, desinteresse ou simplesmente pouca exposição prévia a tarefas similares.
  2. Sofre efeito de aprendizagem. Reaplicações próximas no tempo melhoram artificialmente o desempenho. Recomenda-se intervalo mínimo de 6 meses entre aplicações.
  3. Sensibilidade limitada em casos leves. Crianças com perfil executivo levemente comprometido podem apresentar desempenho dentro da norma — falsos negativos são comuns.
  4. Cultura e escolaridade interferem. Familiaridade com jogos de tabuleiro e com raciocínio lógico-matemático impacta o desempenho. Considere o contexto socioeducacional do examinando.
  5. Versões disponíveis no Brasil são limitadas. Existem poucas versões padronizadas com normas brasileiras. A maior parte do uso clínico se baseia em adaptações ou em normas internacionais — o que limita a comparação populacional rigorosa.

Para registrar adequadamente os resultados em relatório psicopedagógico, modelos prontos de relatórios de avaliação executiva estão disponíveis no Kit de Documentos iPsy.

Fontes

Dúvidas comuns sobre a Torre de Londres

Qual a diferença entre Torre de Londres e Torre de Hanói?
Embora visualmente parecidas, são instrumentos diferentes. A Torre de Hanói é uma tarefa clássica de quebra-cabeça com regras matemáticas mais complexas (todas as bolas têm tamanhos diferentes e não podem ser colocadas sobre menores). A Torre de Londres tem regras simplificadas e foi desenhada especificamente para sensibilidade clínica a disfunções pré-frontais. Para fins neuropsicológicos, prefira a Torre de Londres.
A partir de que idade pode-se aplicar a Torre de Londres?
A maioria dos protocolos é validada a partir dos 6 anos. Em crianças mais novas, o entendimento das regras pode ser comprometido, gerando interpretação confusa. Para faixas pré-escolares, instrumentos alternativos como a Bateria Psicológica para Avaliação da Atenção (BPA) ou observações qualitativas estruturadas são mais adequados.
O psicopedagogo pode aplicar a Torre de Londres?
O psicopedagogo pode usar a Torre de Londres como atividade de observação durante a avaliação psicopedagógica, registrando aspectos qualitativos do desempenho. Não pode emitir laudo neuropsicológico baseado em pontuação normatizada — essa é função do neuropsicólogo. Na consulta ao SATEPSI de 25/09/2026, nenhuma versão da Torre de Londres consta na lista de testes favoráveis nem na de não privativos. Fora do laudo neuropsicológico, o enquadramento correto é o de recurso complementar com fundamentação científica, lido qualitativamente.
Existe versão digital da Torre de Londres?
Sim. Existem versões digitais validadas (CANTAB, NIH Toolbox, plataformas de neuropsicologia computadorizada). As versões digitais permitem registro automático de tempo de planejamento, tempo de execução, número de movimentos e padrões de erro — facilitando enormemente a análise. Mas exigem licenciamento específico e treinamento.
Quanto tempo demora a aplicação completa?
Em média, 15 a 25 minutos para protocolos com 8 a 12 problemas. Em populações com prejuízo executivo significativo, o tempo pode chegar a 40 minutos. Não vale a pena pular problemas para acelerar — a comparação entre os diferentes níveis de complexidade é essencial para a interpretação.