A Torre de Londres é o teste mais usado no mundo para avaliar planejamento e funções executivas — e também um dos mais sensíveis a alterações no córtex pré-frontal. Crianças com TDAH, autismo, lesões cerebrais e prejuízos executivos costumam apresentar desempenho rebaixado neste instrumento. Mas a aplicação correta exige atenção a detalhes que fazem diferença na interpretação: tempo de planejamento, número de movimentos, regras quebradas e cumprimento das instruções.
Este guia explica o que é a Torre de Londres, sua origem na neuropsicologia, como aplicar passo a passo, como registrar e interpretar os resultados, em que momento da avaliação ela faz sentido e quais são suas limitações. O artigo é direcionado a psicopedagogos e neuropsicopedagogos que precisam compreender esse instrumento em profundidade.
1. O que é a Torre de Londres
A Torre de Londres é um teste neuropsicológico criado em 1982 pelo psicólogo britânico Tim Shallice para avaliar funções executivas, com foco principal em planejamento, organização e resolução de problemas. O instrumento foi desenvolvido como variação simplificada da Torre de Hanói, com regras mais controladas e estímulos mais sensíveis a disfunções pré-frontais.
Estruturalmente, o teste consiste em três pinos verticais e três bolas coloridas (geralmente vermelha, verde e azul) de tamanhos diferentes. As bolas são posicionadas em uma configuração inicial, e o examinando precisa transferi-las até alcançar uma configuração final pré-determinada — usando o menor número possível de movimentos.
O que avalia
A Torre de Londres mede principalmente quatro componentes das funções executivas:
- Planejamento prospectivo: a capacidade de antecipar mentalmente uma sequência de ações antes de executar a primeira.
- Memória de trabalho visuoespacial: a capacidade de reter e manipular mentalmente as posições das bolas durante a execução.
- Controle inibitório: a capacidade de não realizar o movimento mais óbvio quando ele não é o melhor caminho.
- Flexibilidade cognitiva: a capacidade de reformular o plano quando a estratégia inicial se mostra insuficiente.
Na neuropsicologia clínica, a Torre de Londres é particularmente sensível ao funcionamento do córtex pré-frontal dorsolateral, área cerebral relacionada às funções executivas superiores.
2. Quem pode aplicar a Torre de Londres
A Torre de Londres existe em diferentes versões e contextos de uso. É importante distinguir:
- Versão original e versões padronizadas com norma populacional (como a Drexel Tower of London — TOL-DX, comercializada por editoras especializadas): não constam no SATEPSI, o sistema de avaliação de testes psicológicos do Conselho Federal de Psicologia. Ou seja, o CFP não avaliou esses instrumentos, que por isso não são reconhecidos como teste psicológico no Brasil e não têm status de privativos do psicólogo. Isso não é liberação: é ausência de avaliação. O uso possível é como recurso complementar com fundamentação científica, de forma qualitativa — não como teste normativo cujo escore classifica.
- Versões pedagógicas e adaptações livres podem ser usadas por psicopedagogos, neuropsicopedagogos e outros profissionais como instrumento de observação clínica complementar — sem que o resultado seja apresentado como pontuação normatizada.
Para o psicopedagogo, isso significa o seguinte: você pode usar a Torre de Londres como atividade de observação durante a avaliação psicopedagógica, registrando comportamentos qualitativos (planejamento, autorregulação, persistência), mas sem fechar laudo neuropsicológico. Para diagnóstico formal de disfunção executiva, o encaminhamento adequado é para neuropsicólogo.
3. Como aplicar a Torre de Londres passo a passo
Material necessário
- Base com 3 pinos verticais de alturas diferentes (o mais alto comporta 3 bolas, o médio 2 bolas, o menor 1 bola)
- 3 bolas coloridas (vermelha, verde, azul)
- Folhas com configurações de problemas (modelos prontos com posição inicial e meta)
- Cronômetro
- Folha de registro de movimentos
Setting e instruções
- 1Sente-se em frente ao examinando , de forma que ele possa ver claramente seu modelo de configuração-meta.
- 2Apresente o material: “Vamos brincar com este jogo. Tem três pinos e três bolas. Você precisa mover as bolas para que fiquem exatamente assim” (mostrando o modelo da configuração-final).
- 3Explique as três regras fundamentais: (a) só pode mover uma bola por vez; (b) só pode segurar uma bola por vez; (c) só pode encaixar a bola em um pino se houver espaço — não pode equilibrar uma bola sobre outra fora do pino.
- 4Demonstre uma vez com um problema simples (1-2 movimentos) para garantir compreensão.
- 5Inicie o cronômetro quando o examinando colocar a mão sobre a primeira bola.
- 6Não dê pistas durante a execução Se o examinando perguntar “está certo?”, responda neutramente: “Continue tentando do jeito que você acha melhor.”
- 7Pare o cronômetro quando a configuração-meta for alcançada (ou no tempo máximo definido pela versão usada — geralmente 60 segundos por problema).
Configurações de problemas
Os problemas são apresentados em ordem crescente de complexidade, geralmente começando com 2 movimentos mínimos e chegando a 5 movimentos. A escolha das configurações deve seguir o protocolo da versão utilizada — variar problemas pessoalmente compromete a comparabilidade entre avaliações.
Em populações pediátricas, recomenda-se aplicar entre 8 e 12 problemas. Em adultos, podem ser usados protocolos com 12 a 18 problemas para maior sensibilidade.
4. Como registrar e pontuar a Torre de Londres
A pontuação da Torre de Londres é multidimensional. Ao contrário de testes onde só interessa “acertou ou errou”, aqui você registra vários parâmetros de cada problema:
| Parâmetro | O que mede |
|---|---|
| Tempo de planejamento | Tempo entre a apresentação do problema e o primeiro movimento. Indica o uso de planejamento prospectivo. |
| Tempo total de execução | Tempo total para completar o problema. Indica eficiência cognitiva. |
| Número de movimentos realizados | Comparado ao número mínimo possível. Excesso indica dificuldade de planejamento. |
| Regras quebradas | Quantas vezes o examinando violou as três regras (mover duas bolas, segurar duas, posicionar fora do pino). Indica controle inibitório e atenção às instruções. |
| Solução correta na primeira tentativa | Resolveu o problema sem precisar refazer movimentos. Indica acurácia executiva. |
Interpretação qualitativa
Mais importante que a pontuação numérica, a interpretação qualitativa traz informações valiosas para o relatório psicopedagógico:
- Tempo de planejamento muito curto + muitos movimentos: sugere impulsividade. Padrão comum em TDAH e em prejuízos pré-frontais.
- Tempo de planejamento longo + execução correta: indica boa autorregulação e planejamento eficiente.
- Tempo de planejamento longo + execução incorreta: sugere dificuldade em traduzir o plano mental em ação — pode estar relacionado a problemas de memória de trabalho ou de monitoramento da execução.
- Quebra repetida de regras: mesmo após relembradas, sugere baixo controle inibitório ou dificuldade em reter instruções.
- Frustração ou desistência precoce: indicador comportamental relevante — pode refletir baixa tolerância à frustração, desregulação emocional ou ansiedade de desempenho.
Para escolher os instrumentos adequados à avaliação de funções executivas conforme a faixa etária e a queixa, use o Seletor de Testes iPsy.
5. Quando usar a Torre de Londres na avaliação psicopedagógica
A Torre de Londres se encaixa em três contextos típicos:
1. Queixa de desorganização e dificuldade em finalizar tarefas. Crianças que começam atividades mas não terminam, que esquecem materiais, que precisam ser orientadas passo a passo — frequentemente apresentam déficit em planejamento. A Torre de Londres ajuda a observar esse padrão de forma estruturada.
2. Suspeita de TDAH com predomínio de desatenção. Em conjunto com instrumentos como o SNAP-IV, a Torre de Londres traz dados objetivos sobre como a criança se comporta diante de tarefas que exigem planejamento. É um complemento valioso para fundamentar hipóteses sobre disfunção executiva.
3. Acompanhamento de evolução em intervenção psicopedagógica. Aplicar a Torre de Londres no início do processo e ao final permite documentar ganhos em planejamento e organização — especialmente em casos de TDAH, autismo e síndromes neurológicas onde funções executivas são alvo de intervenção.
Para casos que envolvam crianças com TDAH, o guia completo sobre TDAH aprofunda critérios diagnósticos e estratégias de intervenção. Para autismo, veja o guia completo sobre TEA, onde funções executivas são frequentemente alvo de avaliação.
6. Limitações importantes que você precisa conhecer
Como todo instrumento, a Torre de Londres tem limitações que precisam ser consideradas:
- Não é diagnóstica isoladamente. Desempenho rebaixado pode indicar disfunção executiva, mas também pode refletir ansiedade, fadiga, desinteresse ou simplesmente pouca exposição prévia a tarefas similares.
- Sofre efeito de aprendizagem. Reaplicações próximas no tempo melhoram artificialmente o desempenho. Recomenda-se intervalo mínimo de 6 meses entre aplicações.
- Sensibilidade limitada em casos leves. Crianças com perfil executivo levemente comprometido podem apresentar desempenho dentro da norma — falsos negativos são comuns.
- Cultura e escolaridade interferem. Familiaridade com jogos de tabuleiro e com raciocínio lógico-matemático impacta o desempenho. Considere o contexto socioeducacional do examinando.
- Versões disponíveis no Brasil são limitadas. Existem poucas versões padronizadas com normas brasileiras. A maior parte do uso clínico se baseia em adaptações ou em normas internacionais — o que limita a comparação populacional rigorosa.
Para registrar adequadamente os resultados em relatório psicopedagógico, modelos prontos de relatórios de avaliação executiva estão disponíveis no Kit de Documentos iPsy.