Ligar 25 números em ordem crescente em uma folha — depois alternar entre números e letras na mesma tarefa — pode parecer brincadeira de criança, mas é um dos testes neuropsicológicos mais usados no mundo para medir flexibilidade cognitiva. O Trail Making Test, desenvolvido em 1944 e ainda hoje peça obrigatória em quase toda bateria de funções executivas, separa duas funções aparentemente próximas mas neurologicamente distintas: a velocidade de varredura visual com sequenciamento simples (parte A) e a capacidade de alternar entre dois conjuntos mentais (parte B). Essa diferença é tudo. Para psicopedagogos que recebem laudos com TMT, ler o que dizem os tempos de A e B — e a relação B/A — é entender se a criança consegue manter ritmo cognitivo ou se trava ao alternar tarefas.
Este guia explica o que é o Trail Making Test, sua história, as duas partes (TMT-A e TMT-B), as versões brasileiras, como interpretar resultados, padrões clínicos típicos e como articular esses achados ao plano psicopedagógico em casos de TDAH e disfunções executivas.
1. O que é o Trail Making Test
O Trail Making Test (TMT) — em português Teste de Trilhas — surgiu como parte da Army Individual Test Battery em 1944, durante a Segunda Guerra Mundial, para avaliar funções cognitivas em recrutas militares. Foi posteriormente refinado e padronizado por Ralph Reitan e Deborah Wolfson nas décadas seguintes, e tornou-se peça central da Bateria Halstead-Reitan e da maioria das baterias neuropsicológicas modernas.
O TMT é classificado como teste neuropsicológico de aplicação direta. Mede:
- Velocidade de varredura visual (TMT-A) — quão rápido o cérebro localiza e processa estímulos no espaço
- Velocidade de processamento e atenção sustentada (TMT-A)
- Coordenação visuomotora (uso do lápis para conectar estímulos)
- Flexibilidade cognitiva (TMT-B) — alternar entre dois conjuntos mentais (números e letras)
- Memória de trabalho (TMT-B) — manter as duas sequências ativas simultaneamente
- Sequenciamento — ordem crescente de números e ordem alfabética de letras
No Brasil, há versão com normas para crianças — o Teste de Trilhas: Partes A e B (Montiel e Seabra, 2012), publicado pela Memnon — e dados normativos para adultos publicados em periódico (Campanholo e cols., 2014, com 1.447 adultos a partir de 18 anos). O Compêndio de testes neuropsicológicos (Hogrefe) também traz um capítulo sobre o Teste de Trilhas. Entre as versões internacionais ampliadas está o Trail Making Test do D-KEFS (Pearson), com cinco condições.
Faixa etária
- Teste de Trilhas: Partes A e B (Memnon): crianças de 6 a 14 anos
- Teste de Trilhas para Pré-escolares (Memnon): crianças de 4 a 6 anos
- Adultos: dados normativos brasileiros a partir de 18 anos (Campanholo e cols., 2014); no exterior, as normas de Tombaugh (2004) vão de 18 a 89 anos, por idade e escolaridade
O formato clássico exige conhecimento consolidado de números e do alfabeto; por isso, para pré-escolares usa-se a versão específica para essa faixa, e não o TMT clássico.
2. Estrutura — duas partes, duas funções
O TMT clássico tem duas partes, aplicadas sequencialmente:
| Parte | Tarefa | O que mede principalmente |
|---|---|---|
| TMT-A | Conectar 25 círculos numerados de 1 a 25 em ordem crescente, com lápis, sem tirar a mão do papel, o mais rápido possível | Velocidade de varredura visual, atenção sustentada, sequenciamento numérico, coordenação visuomotora |
| TMT-B | Conectar alternadamente 25 círculos com números (1-13) e letras (A-L), na sequência 1-A-2-B-3-C… até 13 | Tudo da parte A + flexibilidade cognitiva (alternar entre números e letras), memória de trabalho |
O comparativo entre as duas partes é central. A diferença entre TMT-B e TMT-A (ou a razão B/A) é uma medida sensível de flexibilidade cognitiva — quanto custa para o cérebro alternar entre dois conjuntos mentais. Em pessoas saudáveis, B é mais lento que A, mas dentro de um intervalo previsível. Em pessoas com disfunção executiva, B fica desproporcionalmente lento.
3. Quem pode aplicar
Na consulta ao SATEPSI de 25/09/2026, nenhuma versão do TMT aparece na lista de testes psicológicos favoráveis nem na de instrumentos não privativos do psicólogo. Um instrumento parecido, o Teste de Trilhas Coloridas (Leme e colaboradores, Casa do Psicólogo), consta na lista de desfavoráveis. Pelo fluxograma publicado na própria página do SATEPSI, o que é teste psicológico só pode ser utilizado se tiver parecer favorável da comissão do CFP; o que não é teste psicológico pode ser utilizado como recurso complementar, desde que haja fundamentação científica. Quem pode aplicar cada versão também deve ser conferido no manual da versão adotada.
Na prática, o psicopedagogo frequentemente recebe laudos neuropsicológicos com TMT em avaliações de TDAH, transtornos da aprendizagem, disfunção executiva e em baterias amplas. Decifrar os tempos de A, B e a razão B/A é parte essencial da leitura do laudo.
4. Como o TMT é aplicado
Material necessário
- Manual ou capítulo de referência da versão adotada (por exemplo, o volume 1 da coleção Avaliação Neuropsicológica Cognitiva, da Memnon, ou o Compêndio de testes neuropsicológicos, da Hogrefe)
- Folhas de teste com os círculos impressos (TMT-A e TMT-B, mais folha de exemplo de cada)
- Lápis preto (sem borracha visível)
- Cronômetro silencioso
- Folha de registro de tempo, erros e autocorreções
- Mesa em ambiente silencioso, com boa iluminação
Setting e procedimento
- 1Verificação de pré-requisitos. Antes do TMT, verificar acuidade visual, capacidade motora fina (segurar e usar lápis) e conhecimento adequado de números e alfabeto.
- 2Apresentação do exemplo TMT-A. O aplicador mostra a folha de exemplo, explica a tarefa e pede que o examinando faça o exemplo. Corrige erros e esclarece dúvidas.
- 3Aplicação TMT-A cronometrada. Apresenta a folha completa com 25 círculos. Instrução: “Conecte os números em ordem crescente, do 1 ao 25, sem levantar o lápis do papel, o mais rápido que conseguir.” Cronômetro inicia ao primeiro toque do lápis.
- 4Correção em tempo real. Se o examinando comete erro (pula um número, conecta na ordem errada), o aplicador interrompe imediatamente e pede que retorne ao último círculo correto. O cronômetro continua correndo.
- 5Apresentação do exemplo TMT-B. Após o TMT-A, mostra a folha de exemplo do TMT-B, explica a alternância entre números e letras, e pede que o examinando faça.
- 6Aplicação TMT-B cronometrada. Apresenta a folha completa com 25 círculos misturando números (1-13) e letras (A-L). Instrução: “Conecte alternando: 1-A-2-B-3-C… e assim por diante até o final, o mais rápido possível, sem levantar o lápis do papel.”
- 7Registro completo. Para cada parte: tempo total em segundos, número de erros, número de autocorreções, observações qualitativas (hesitações, perdas de sequência).
- 8Conversão em escores normativos. Os tempos brutos são convertidos em percentis ou escores Z conforme tabela normativa por idade e escolaridade.
5. Como interpretar os resultados
O TMT produz três medidas centrais: tempo TMT-A, tempo TMT-B e a razão B/A (ou diferença B−A). A interpretação combina as três:
| Medida | O que avalia | Padrão típico |
|---|---|---|
| TMT-A em segundos | Velocidade de varredura e processamento | Comparar com a tabela por idade e escolaridade da versão aplicada |
| TMT-B em segundos | Velocidade + flexibilidade cognitiva | Comparar com a tabela por idade e escolaridade da versão aplicada |
| Razão B/A | Custo da alternância — flexibilidade pura | Quanto maior, maior o custo de alternar |
| Diferença B−A | Tempo “extra” da alternância | Quanto maior, mais difícil é alternar |
| Erros e autocorreções | Monitoramento e impulsividade | Erros sem correção = falha de monitoramento |
Análise por padrão clínico
- TMT-A rebaixado isoladamente: sugere lentidão de processamento ou problema visuomotor. Pode aparecer em quadros depressivos, ansiedade severa, ou em prejuízo motor. Razão B/A pode estar normal — não há falha específica de alternância.
- TMT-A normal + TMT-B rebaixado + razão B/A elevada: padrão clássico de disfunção executiva — falha específica de flexibilidade cognitiva. Compatível com TDAH e com lesões pré-frontais. Veja o guia sobre TDAH.
- Ambos rebaixados com razão preservada: sugere lentidão geral, não falha específica de alternância. Investigar lentidão de processamento, fadiga ou estado emocional comprometido.
- Erros frequentes sem autocorreção (especialmente em B): falha de monitoramento e impulsividade. Compatível com TDAH com componente impulsivo dominante. Articular com Stroop para confirmar perfil de inibição.
- Aumento progressivo de tempo ao longo da tarefa (lentidão crescente): sugere fadiga cognitiva precoce — atenção sustentada comprometida. Comum em TDAH e em quadros de baixo arousal cortical.
Para articular o laudo TMT com instrumentos psicopedagógicos próprios, use o Seletor de Testes iPsy e organize a triagem antes da reunião com a família.
6. Quando usar na avaliação psicopedagógica
1. Recebimento de laudo neuropsicológico em casos de TDAH. O TMT é peça central de qualquer bateria executiva. Razão B/A elevada confirma falha de flexibilidade — informação útil para estratégias pedagógicas que minimizem alternância de tarefas em pico de fadiga.
2. Articulação com queixa de “trava ao mudar de tarefa”. Crianças com queixa do tipo “demora muito para sair de uma atividade e começar outra” ou “esquece o que estava fazendo no meio do caminho” frequentemente têm TMT-B rebaixado. Plano pedagógico precisa prever transições explícitas, sinalizadas, com tempo. O Kit de Documentos iPsy traz modelos de plano com gestão de transições.
Para trabalhar flexibilidade nas sessões, o Pacote Funções Executivas reúne 30 atividades de planejamento, organização, flexibilidade cognitiva e controle inibitório, e a Bateria de Rastreio de Funções Executivas traz tarefas práticas com ficha de registro — ambos gratuitos na Biblioteca do iPsy, com conta.
3. Avaliação multidisciplinar de funções executivas. TMT, Stroop, Wisconsin e BRIEF formam o “núcleo duro” da avaliação executiva. O psicopedagogo usa o laudo neuropsicológico como mapa amplo e aplica instrumentos psicopedagógicos próprios para complementar — provas operatórias, sondagens, observação. Para escolher os instrumentos psicopedagógicos, use o Seletor de Testes iPsy.
4. Monitoramento de evolução em casos com tratamento. O TMT-B é sensível a efeito de medicação estimulante em TDAH e a efeito de intervenção pedagógica focada em flexibilidade cognitiva. Reaplicações documentam ganhos objetivos.
7. Limitações importantes
- Mede aspectos específicos das funções executivas. O TMT foca em velocidade, flexibilidade e (em B) memória de trabalho — não avalia inibição (melhor pelo Stroop), planejamento (Torre de Londres) ou raciocínio abstrato. É parte de uma bateria, nunca substituto.
- Sensível a problemas motores e visuais. Crianças com prejuízo de coordenação motora fina ou problemas visuais (mesmo subclínicos) podem ter TMT rebaixado por motivo não-cognitivo. Verificação prévia é essencial.
- Dependente de conhecimento prévio. Exige sequência de números até 25 e alfabeto até L automatizados. Crianças menores ou com prejuízo na aprendizagem desses conteúdos terão TMT rebaixado por motivo de conhecimento, não de função executiva.
- Não fecha diagnóstico isoladamente. Razão B/A elevada é forte indício de disfunção executiva, mas não fecha diagnóstico de TDAH ou outro transtorno. Diagnóstico exige sintomas em múltiplos contextos e critérios clínicos DSM-5/CID-11.
- Variabilidade entre versões e normas. As versões em uso no Brasil (infantil, pré-escolar, adulta) têm estímulos e normas distintos. É importante saber qual versão foi aplicada para interpretar adequadamente — informação que sempre consta no laudo.
Fontes
- Conselho Federal de Psicologia. SATEPSI — Testes Psicológicos Favoráveis (consulta em 25/09/2026).
- Conselho Federal de Psicologia. SATEPSI — Instrumentos Não Privativos do Psicólogo (consulta em 25/09/2026).
- Conselho Federal de Psicologia. SATEPSI — Testes Psicológicos Desfavoráveis (consulta em 25/09/2026).