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Comportamento e Personalidade

ASRS-18: Triagem de TDAH em Adultos [2026]

Equipe iPsy
Atualizado em set/202610 min de leitura
Psicopedagogia e neuropsicopedagogia
Faixa etária
18+ anos
Quem aplica
Aplicação livre
Categoria
Comportamento e Personalidade

O TDAH em adultos é o transtorno mais subdiagnosticado da psiquiatria contemporânea. Estima-se que cerca de 65% dos casos de TDAH infantil ainda tenham sintomas na vida adulta, mesmo quando não preenchem mais o quadro completo, e muitos desses adultos chegam à fase adulta sem diagnóstico, arrastando dificuldades atribuídas a “preguiça”, “desorganização” ou “falta de força de vontade”. A ASRS-18 é um dos instrumentos mais usados para mudar isso. Desenvolvida em conjunto com a Organização Mundial da Saúde (OMS), é uma porta de entrada comum para investigação de TDAH adulto.

Este guia explica o que é a ASRS-18, sua estrutura em duas partes, como aplicar passo a passo, como interpretar os resultados e quando usar na avaliação psicopedagógica de adolescentes mais velhos e adultos. O artigo é direcionado a profissionais que atendem essa faixa etária crescente em busca de avaliação.

1. O que é a ASRS-18

A ASRS (Adult ADHD Self-Report Scale, versão 1.1) foi desenvolvida em conjunto com a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Workgroup on Adult ADHD (o formulário traz copyright da OMS de 2003); o estudo de referência é de Ronald Kessler, Lenard Adler e colaboradores, publicado em 2005. Seus itens adaptam os critérios do DSM-IV para Transtorno do Déficit de Atenção/Hiperatividade ao contexto da vida adulta.

O nome “ASRS-18” refere-se aos 18 itens que compõem a escala — exatamente o número de critérios sintomáticos do DSM para TDAH (9 sintomas de desatenção + 9 sintomas de hiperatividade/impulsividade). É um instrumento de autoaplicação: o próprio adulto responde a cada item indicando a frequência com que tem experimentado o sintoma nos últimos 6 meses.

Existe também uma versão curta com apenas 6 itens — chamada ASRS-Screener — que serve como triagem inicial. Os 6 itens foram selecionados estatisticamente por serem os que melhor concordavam com a classificação clínica. Se a triagem for positiva, a investigação deve ser aprofundada. A ASRS-18 tem adaptação transcultural para o português brasileiro (Mattos e colaboradores, 2006).

Faixa etária

A ASRS-18 é destinada a adultos (a partir dos 18 anos). Para crianças e adolescentes, escalas como SNAP-IV ou Conners infantil são mais adequadas.

2. A estrutura da ASRS-18: as duas partes

Na versão brasileira (Mattos e colaboradores, 2006), a ASRS-18 é organizada em duas partes, divididas conforme as duas dimensões do TDAH descritas no DSM:

ParteItensDimensãoO que avalia
Parte A9DesatençãoDificuldade de concentração, esquecimentos, distratibilidade, perda de objetos, falta de organização, evitar tarefas mentalmente exigentes
Parte B9Hiperatividade/ImpulsividadeInquietação motora, dificuldade de ficar parado, falar em excesso, interromper outros, dificuldade de esperar a vez

Cada item descreve uma situação cotidiana, e o respondente indica em uma escala de 5 pontos a frequência: nunca, raramente, algumas vezes, frequentemente, muito frequentemente. Na maioria dos itens, só “frequentemente” e “muito frequentemente” contam como sintoma positivo. Na validação feita nos Estados Unidos, em alguns itens (3, 4, 5 e 9 da Parte A; 2, 7 e 9 da Parte B), “algumas vezes” já contava como positivo.

Essa estrutura assimétrica é proposital: para alguns itens, uma frequência menor já é considerada indicativa do sintoma. Os autores da versão brasileira, porém, recomendam cautela em considerar “algumas vezes” como positivo e em usar a pontuação dos itens até que haja dados da população brasileira.

3. Quem pode aplicar a ASRS-18

A ASRS-18 é um instrumento de uso gratuito: os termos de uso do formulário (ASRS v1.1) informam que ele pode ser usado sem custo e sem necessidade de permissão ou aprovação formal. Na consulta ao SATEPSI de 25/09/2026, a ASRS-18 não aparece na lista de testes psicológicos favoráveis nem na de instrumentos não privativos do psicólogo.

A simplicidade da ASRS é uma das suas grandes vantagens como instrumento de triagem em consultório, ambulatório ou pesquisa. No entanto, a interpretação dos resultados em contexto clínico exige formação em saúde mental e familiaridade com critérios diagnósticos do TDAH.

4. Como aplicar a ASRS-18 passo a passo

Material necessário

  1. Folha da ASRS-18 na versão brasileira (reproduzida no artigo de adaptação de Mattos e colaboradores, 2006, de acesso aberto na SciELO)
  2. Caneta ou lápis para o respondente
  3. Folha de cálculo do escore para o aplicador

Setting e procedimento

  1. 1Apresentação do instrumento: “Vou pedir para você responder algumas perguntas sobre como você tem se sentido nos últimos 6 meses. Não há respostas certas ou erradas, é só sobre o que você percebe em si mesmo.”
  2. 2Tempo para responder: garantir tempo suficiente sem pressão. O preenchimento leva cerca de 5 minutos, segundo o formulário original — mas não apresse o respondente.
  3. 3Esclarecimento de dúvidas: permitir que o respondente pergunte sobre itens que não entendeu. A clareza da resposta é mais importante que a velocidade.
  4. 4Auto-aplicação ou aplicação assistida: a ASRS é desenhada para auto-aplicação, mas adultos com baixa escolaridade ou prejuízos cognitivos podem precisar que o aplicador leia os itens e registre as respostas.
  5. 5Pontuação após preenchimento: na maioria dos itens, contam como sintoma positivo apenas “frequentemente” e “muito frequentemente”; em alguns itens, a validação estadunidense também contava “algumas vezes” (veja a cautela da versão brasileira acima).
  6. 6Cálculo dos escores: contar o número de sintomas positivos na Parte A (desatenção) e na Parte B (hiperatividade/impulsividade).

5. Como interpretar os resultados

Os pontos de corte descritos no artigo da versão brasileira (Mattos e colaboradores, 2006) são:

VersãoCritérioSignificado
ASRS-18 — Desatenção6 ou mais sintomas positivos na Parte ADiagnóstico possível — mesmo ponto de corte do DSM-IV; investigar
ASRS-18 — Hiperatividade/Impulsividade6 ou mais sintomas positivos na Parte BDiagnóstico possível — mesmo ponto de corte do DSM-IV; investigar
ASRS-18 — Combinada6 ou mais sintomas positivos em ambas as partesSintomas em ambas as dimensões — perfil mais complexo
Rastreio de 6 itens (Screener)Pelo menos 4 itens positivosIndivíduo “suspeito” — aprofundar a investigação

No estudo de calibração nos Estados Unidos, pontuação total acima de 24 pontos (itens pontuados de 0 = “nunca” a 4 = “muito frequentemente”) foi considerada fortemente sugestiva de TDAH. Não há dados brasileiros para essa pontuação — por isso, os autores da versão brasileira recomendam cautela em usá-la.

Resultado positivo na ASRS indica que vale a pena aprofundar a investigação diagnóstica. Não significa que a pessoa tem TDAH — significa que os sintomas referidos são compatíveis com o quadro e merecem avaliação detalhada.

Análise por padrão

Mais informativo que o escore total isolado é o perfil entre as duas dimensões:

  1. Parte A (desatenção) positiva + Parte B (hiperatividade) negativa: sugere TDAH predominantemente desatento. Manifestações típicas: esquecimentos, desorganização, perda de objetos, dificuldade de manter foco em conversas longas.
  2. Parte A negativa + Parte B (hiperatividade) positiva: sugere TDAH predominantemente hiperativo/impulsivo no adulto. Em adultos, a hiperatividade pode aparecer como inquietação interna ou impulsividade verbal (por exemplo, terminar as frases dos outros ou interromper).
  3. Parte A e Parte B ambas positivas: sugere TDAH combinado. Perfil mais clássico, com sintomas em ambas dimensões. Geralmente associado a maior prejuízo funcional e maior necessidade de intervenção integrada.
  4. Pontuações próximas aos pontos de corte: “zona cinzenta”. Pode indicar TDAH em fase compensada ou outros quadros (ansiedade, depressão, distúrbios de sono) que mimetizam sintomas de TDAH. Investigação clínica complementar é essencial.
  5. Triagem negativa apesar de queixa subjetiva forte: hipóteses incluem viés de auto-relato (subestima sintomas), TDAH muito leve, ou outros quadros. Considerar entrevista clínica detalhada e instrumentos complementares.

Para escolher os instrumentos complementares ideais conforme o perfil identificado, use o Seletor de Testes iPsy. Veja o guia completo sobre TDAH para aprofundar critérios diagnósticos.

6. Quando usar a ASRS-18 na avaliação psicopedagógica

A ASRS-18 faz mais sentido em três contextos clínicos da prática psicopedagógica adulta:

1. Triagem inicial em adultos com queixa de dificuldade de aprendizagem. Universitários, profissionais em formação continuada, pessoas em concurso público — adultos chegam à psicopedagogia com queixas de “não conseguir estudar”. A ASRS é o primeiro passo para identificar se há base atencional para essas dificuldades.

2. Investigação tardia de TDAH em adultos não diagnosticados na infância. Muitos adultos chegam à avaliação psicopedagógica suspeitando de TDAH não diagnosticado, especialmente após filhos receberem o diagnóstico. A ASRS estrutura essa investigação inicial. Veja o guia sobre SNAP-IV para comparação com instrumentos infantis.

3. Acompanhamento de adultos em tratamento. Reaplicações periódicas permitem documentar a evolução dos sintomas com intervenção pedagógica, psicoterapia e/ou medicação. Como a escala pergunta sobre os últimos 6 meses, leve esse período em conta ao escolher o intervalo entre aplicações.

Modelos de relatório psicopedagógico para adultos que apresentam os resultados da ASRS de forma estruturada estão disponíveis no Kit de Documentos iPsy.

7. Limitações importantes da ASRS-18

  1. É instrumento de triagem, não de diagnóstico. Resultado positivo indica probabilidade aumentada, não confirmação. Diagnóstico de TDAH adulto exige entrevista clínica detalhada, história de sintomas desde a infância, prejuízo funcional em múltiplas áreas e exclusão de diagnósticos diferenciais.
  2. Depende fortemente do auto-relato. Adultos com baixo insight sobre os próprios comportamentos podem subestimar sintomas. Adultos ansiosos podem superestimar. Idealmente, complementar com relato de pessoa próxima (cônjuge, familiar) que conviva diariamente.
  3. Não diferencia TDAH de comorbidades comuns. Ansiedade, depressão, distúrbios do sono, abuso de substâncias e quadros bipolares podem mimetizar sintomas de TDAH. A ASRS positiva não exclui essas hipóteses — pelo contrário, sinaliza necessidade de investigar diagnósticos diferenciais.
  4. Foca em sintomas atuais (últimos 6 meses). Para fechar diagnóstico de TDAH, é necessário documentar que os sintomas existem desde a infância. A ASRS não captura essa dimensão — é necessário complementar com anamnese retrospectiva ou aplicar a Wender Utah Rating Scale (WURS), que avalia retrospectivamente sintomas infantis.
  5. Sensível a contexto temporal. Adultos podem responder de forma diferente em períodos de alta exigência (concurso, mudança de emprego, separação) versus períodos estáveis. Ideal aplicar em momento de relativa estabilidade da rotina.

Fontes

Dúvidas comuns sobre o ASRS-18

A ASRS-18 fecha diagnóstico de TDAH?
Não. A ASRS é instrumento de triagem. Resultado positivo indica probabilidade aumentada de TDAH e justifica aprofundamento diagnóstico, mas o diagnóstico formal exige avaliação clínica completa, incluindo história de sintomas desde a infância, prejuízo funcional em múltiplas áreas e exclusão de diagnósticos diferenciais.
Qual a diferença entre ASRS-18 e ASRS-6?
A ASRS-18 é a escala completa, com 18 itens cobrindo todos os sintomas do DSM. A ASRS-6 (também chamada ASRS-Screener) é uma versão curta com apenas 6 itens da mesma escala, selecionados estatisticamente. É usada para triagem rápida (pelo menos 4 itens positivos = “suspeito”); se positiva, a investigação deve ser aprofundada.
O psicopedagogo pode aplicar a ASRS-18?
A ASRS-18 é de uso gratuito: os termos de uso do formulário dizem que ela pode ser usada sem custo e sem permissão formal. Na consulta ao SATEPSI de 25/09/2026, a ASRS-18 não aparece na lista de testes psicológicos favoráveis nem na de instrumentos não privativos do psicólogo. Como triagem, ela não fecha diagnóstico, e a interpretação adequada exige familiaridade com os critérios diagnósticos do TDAH.
Quanto tempo demora a aplicação da ASRS-18?
Segundo o formulário original (ASRS v1.1), o preenchimento leva cerca de 5 minutos. Some a esse tempo a pontuação e a conversa sobre as respostas com o avaliado.
Onde encontrar a ASRS-18 em português?
A versão final em português brasileiro está reproduzida no artigo de adaptação transcultural de Mattos e colaboradores (Revista de Psiquiatria Clínica, 2006), de acesso aberto na SciELO. Para uso clínico, prefira essa versão adaptada, que mantém a estrutura original com ajustes para a língua portuguesa.