O TDAH em adultos é o transtorno mais subdiagnosticado da psiquiatria contemporânea. Estima-se que cerca de 65% dos casos de TDAH infantil ainda tenham sintomas na vida adulta, mesmo quando não preenchem mais o quadro completo, e muitos desses adultos chegam à fase adulta sem diagnóstico, arrastando dificuldades atribuídas a “preguiça”, “desorganização” ou “falta de força de vontade”. A ASRS-18 é um dos instrumentos mais usados para mudar isso. Desenvolvida em conjunto com a Organização Mundial da Saúde (OMS), é uma porta de entrada comum para investigação de TDAH adulto.
Este guia explica o que é a ASRS-18, sua estrutura em duas partes, como aplicar passo a passo, como interpretar os resultados e quando usar na avaliação psicopedagógica de adolescentes mais velhos e adultos. O artigo é direcionado a profissionais que atendem essa faixa etária crescente em busca de avaliação.
1. O que é a ASRS-18
A ASRS (Adult ADHD Self-Report Scale, versão 1.1) foi desenvolvida em conjunto com a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Workgroup on Adult ADHD (o formulário traz copyright da OMS de 2003); o estudo de referência é de Ronald Kessler, Lenard Adler e colaboradores, publicado em 2005. Seus itens adaptam os critérios do DSM-IV para Transtorno do Déficit de Atenção/Hiperatividade ao contexto da vida adulta.
O nome “ASRS-18” refere-se aos 18 itens que compõem a escala — exatamente o número de critérios sintomáticos do DSM para TDAH (9 sintomas de desatenção + 9 sintomas de hiperatividade/impulsividade). É um instrumento de autoaplicação: o próprio adulto responde a cada item indicando a frequência com que tem experimentado o sintoma nos últimos 6 meses.
Existe também uma versão curta com apenas 6 itens — chamada ASRS-Screener — que serve como triagem inicial. Os 6 itens foram selecionados estatisticamente por serem os que melhor concordavam com a classificação clínica. Se a triagem for positiva, a investigação deve ser aprofundada. A ASRS-18 tem adaptação transcultural para o português brasileiro (Mattos e colaboradores, 2006).
Faixa etária
A ASRS-18 é destinada a adultos (a partir dos 18 anos). Para crianças e adolescentes, escalas como SNAP-IV ou Conners infantil são mais adequadas.
2. A estrutura da ASRS-18: as duas partes
Na versão brasileira (Mattos e colaboradores, 2006), a ASRS-18 é organizada em duas partes, divididas conforme as duas dimensões do TDAH descritas no DSM:
| Parte | Itens | Dimensão | O que avalia |
|---|---|---|---|
| Parte A | 9 | Desatenção | Dificuldade de concentração, esquecimentos, distratibilidade, perda de objetos, falta de organização, evitar tarefas mentalmente exigentes |
| Parte B | 9 | Hiperatividade/Impulsividade | Inquietação motora, dificuldade de ficar parado, falar em excesso, interromper outros, dificuldade de esperar a vez |
Cada item descreve uma situação cotidiana, e o respondente indica em uma escala de 5 pontos a frequência: nunca, raramente, algumas vezes, frequentemente, muito frequentemente. Na maioria dos itens, só “frequentemente” e “muito frequentemente” contam como sintoma positivo. Na validação feita nos Estados Unidos, em alguns itens (3, 4, 5 e 9 da Parte A; 2, 7 e 9 da Parte B), “algumas vezes” já contava como positivo.
Essa estrutura assimétrica é proposital: para alguns itens, uma frequência menor já é considerada indicativa do sintoma. Os autores da versão brasileira, porém, recomendam cautela em considerar “algumas vezes” como positivo e em usar a pontuação dos itens até que haja dados da população brasileira.
3. Quem pode aplicar a ASRS-18
A ASRS-18 é um instrumento de uso gratuito: os termos de uso do formulário (ASRS v1.1) informam que ele pode ser usado sem custo e sem necessidade de permissão ou aprovação formal. Na consulta ao SATEPSI de 25/09/2026, a ASRS-18 não aparece na lista de testes psicológicos favoráveis nem na de instrumentos não privativos do psicólogo.
A simplicidade da ASRS é uma das suas grandes vantagens como instrumento de triagem em consultório, ambulatório ou pesquisa. No entanto, a interpretação dos resultados em contexto clínico exige formação em saúde mental e familiaridade com critérios diagnósticos do TDAH.
4. Como aplicar a ASRS-18 passo a passo
Material necessário
- Folha da ASRS-18 na versão brasileira (reproduzida no artigo de adaptação de Mattos e colaboradores, 2006, de acesso aberto na SciELO)
- Caneta ou lápis para o respondente
- Folha de cálculo do escore para o aplicador
Setting e procedimento
- 1Apresentação do instrumento: “Vou pedir para você responder algumas perguntas sobre como você tem se sentido nos últimos 6 meses. Não há respostas certas ou erradas, é só sobre o que você percebe em si mesmo.”
- 2Tempo para responder: garantir tempo suficiente sem pressão. O preenchimento leva cerca de 5 minutos, segundo o formulário original — mas não apresse o respondente.
- 3Esclarecimento de dúvidas: permitir que o respondente pergunte sobre itens que não entendeu. A clareza da resposta é mais importante que a velocidade.
- 4Auto-aplicação ou aplicação assistida: a ASRS é desenhada para auto-aplicação, mas adultos com baixa escolaridade ou prejuízos cognitivos podem precisar que o aplicador leia os itens e registre as respostas.
- 5Pontuação após preenchimento: na maioria dos itens, contam como sintoma positivo apenas “frequentemente” e “muito frequentemente”; em alguns itens, a validação estadunidense também contava “algumas vezes” (veja a cautela da versão brasileira acima).
- 6Cálculo dos escores: contar o número de sintomas positivos na Parte A (desatenção) e na Parte B (hiperatividade/impulsividade).
5. Como interpretar os resultados
Os pontos de corte descritos no artigo da versão brasileira (Mattos e colaboradores, 2006) são:
| Versão | Critério | Significado |
|---|---|---|
| ASRS-18 — Desatenção | 6 ou mais sintomas positivos na Parte A | Diagnóstico possível — mesmo ponto de corte do DSM-IV; investigar |
| ASRS-18 — Hiperatividade/Impulsividade | 6 ou mais sintomas positivos na Parte B | Diagnóstico possível — mesmo ponto de corte do DSM-IV; investigar |
| ASRS-18 — Combinada | 6 ou mais sintomas positivos em ambas as partes | Sintomas em ambas as dimensões — perfil mais complexo |
| Rastreio de 6 itens (Screener) | Pelo menos 4 itens positivos | Indivíduo “suspeito” — aprofundar a investigação |
No estudo de calibração nos Estados Unidos, pontuação total acima de 24 pontos (itens pontuados de 0 = “nunca” a 4 = “muito frequentemente”) foi considerada fortemente sugestiva de TDAH. Não há dados brasileiros para essa pontuação — por isso, os autores da versão brasileira recomendam cautela em usá-la.
Resultado positivo na ASRS indica que vale a pena aprofundar a investigação diagnóstica. Não significa que a pessoa tem TDAH — significa que os sintomas referidos são compatíveis com o quadro e merecem avaliação detalhada.
Análise por padrão
Mais informativo que o escore total isolado é o perfil entre as duas dimensões:
- Parte A (desatenção) positiva + Parte B (hiperatividade) negativa: sugere TDAH predominantemente desatento. Manifestações típicas: esquecimentos, desorganização, perda de objetos, dificuldade de manter foco em conversas longas.
- Parte A negativa + Parte B (hiperatividade) positiva: sugere TDAH predominantemente hiperativo/impulsivo no adulto. Em adultos, a hiperatividade pode aparecer como inquietação interna ou impulsividade verbal (por exemplo, terminar as frases dos outros ou interromper).
- Parte A e Parte B ambas positivas: sugere TDAH combinado. Perfil mais clássico, com sintomas em ambas dimensões. Geralmente associado a maior prejuízo funcional e maior necessidade de intervenção integrada.
- Pontuações próximas aos pontos de corte: “zona cinzenta”. Pode indicar TDAH em fase compensada ou outros quadros (ansiedade, depressão, distúrbios de sono) que mimetizam sintomas de TDAH. Investigação clínica complementar é essencial.
- Triagem negativa apesar de queixa subjetiva forte: hipóteses incluem viés de auto-relato (subestima sintomas), TDAH muito leve, ou outros quadros. Considerar entrevista clínica detalhada e instrumentos complementares.
Para escolher os instrumentos complementares ideais conforme o perfil identificado, use o Seletor de Testes iPsy. Veja o guia completo sobre TDAH para aprofundar critérios diagnósticos.
6. Quando usar a ASRS-18 na avaliação psicopedagógica
A ASRS-18 faz mais sentido em três contextos clínicos da prática psicopedagógica adulta:
1. Triagem inicial em adultos com queixa de dificuldade de aprendizagem. Universitários, profissionais em formação continuada, pessoas em concurso público — adultos chegam à psicopedagogia com queixas de “não conseguir estudar”. A ASRS é o primeiro passo para identificar se há base atencional para essas dificuldades.
2. Investigação tardia de TDAH em adultos não diagnosticados na infância. Muitos adultos chegam à avaliação psicopedagógica suspeitando de TDAH não diagnosticado, especialmente após filhos receberem o diagnóstico. A ASRS estrutura essa investigação inicial. Veja o guia sobre SNAP-IV para comparação com instrumentos infantis.
3. Acompanhamento de adultos em tratamento. Reaplicações periódicas permitem documentar a evolução dos sintomas com intervenção pedagógica, psicoterapia e/ou medicação. Como a escala pergunta sobre os últimos 6 meses, leve esse período em conta ao escolher o intervalo entre aplicações.
Modelos de relatório psicopedagógico para adultos que apresentam os resultados da ASRS de forma estruturada estão disponíveis no Kit de Documentos iPsy.
7. Limitações importantes da ASRS-18
- É instrumento de triagem, não de diagnóstico. Resultado positivo indica probabilidade aumentada, não confirmação. Diagnóstico de TDAH adulto exige entrevista clínica detalhada, história de sintomas desde a infância, prejuízo funcional em múltiplas áreas e exclusão de diagnósticos diferenciais.
- Depende fortemente do auto-relato. Adultos com baixo insight sobre os próprios comportamentos podem subestimar sintomas. Adultos ansiosos podem superestimar. Idealmente, complementar com relato de pessoa próxima (cônjuge, familiar) que conviva diariamente.
- Não diferencia TDAH de comorbidades comuns. Ansiedade, depressão, distúrbios do sono, abuso de substâncias e quadros bipolares podem mimetizar sintomas de TDAH. A ASRS positiva não exclui essas hipóteses — pelo contrário, sinaliza necessidade de investigar diagnósticos diferenciais.
- Foca em sintomas atuais (últimos 6 meses). Para fechar diagnóstico de TDAH, é necessário documentar que os sintomas existem desde a infância. A ASRS não captura essa dimensão — é necessário complementar com anamnese retrospectiva ou aplicar a Wender Utah Rating Scale (WURS), que avalia retrospectivamente sintomas infantis.
- Sensível a contexto temporal. Adultos podem responder de forma diferente em períodos de alta exigência (concurso, mudança de emprego, separação) versus períodos estáveis. Ideal aplicar em momento de relativa estabilidade da rotina.