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Memória e Visuomotor

Bender: Teste Gestáltico Visomotor [2026]

Equipe iPsy
Atualizado em set/20269 min de leitura
Psicopedagogia e neuropsicopedagogia
Faixa etária
6–10 anos
Quem aplica
Privativo psicólogo
Categoria
Memória e Visuomotor

Pedir a uma criança que copie nove figuras geométricas em uma folha de papel parece simples — mas há quase 90 anos esse gesto banal é uma das janelas mais valiosas para o funcionamento neuropsicológico infantil. O Teste Gestáltico Visomotor de Bender, criado em 1938, atravessou gerações porque captura, em poucos minutos, a integração entre o que o olho vê, o cérebro processa e a mão executa. Para psicopedagogos que recebem laudos com Bender, entender o que aquelas distorções, rotações e omissões dizem sobre maturação visomotora é decifrar um dos diagnósticos mais antigos e ainda mais usados no Brasil.

Este guia explica o que é o Teste de Bender, a versão brasileira atual (B-SPG — Sistema de Pontuação Gradual), as 9 figuras-estímulo, como é aplicado, como classificar resultados, padrões clínicos típicos e como articular esses achados ao plano psicopedagógico em casos de transtornos da aprendizagem, TDAH e disgrafias.

1. O que é o Teste de Bender

Ilustração do Bender como mapa: teste de cópia que avalia a integração visomotora em crianças de 6 a 10 anos, aplicado só por psicólogos, sem mostrar as figuras do teste.
  1. 1O que avalia: maturação e integração visomotora
  2. 2Para quem: B-SPG-rev com normas de 6 a 10 anos
  3. 3Quem aplica: exclusivamente psicólogos
  4. 4Formato: cópia de 9 cartões numa folha em branco, individual
Ilustração: o Bender é privativo do psicólogo; o psicopedagogo lê o laudo.

O Teste Gestáltico Visomotor de Bender foi desenvolvido pela neuropsiquiatra norte-americana Lauretta Bender em 1938, publicado pela American Orthopsychiatric Association. Ela tomou nove figuras-estímulo originalmente usadas pelo psicólogo gestaltista Max Wertheimer e organizou-as como tarefa de cópia para investigar maturação visomotora e rastreio neurológico em crianças.

No Brasil, a versão atualmente vigente é o B-SPG (Sistema de Pontuação Gradual), de Ana Paula Porto Noronha, Acácia Aparecida Angeli dos Santos e Fermino Fernandes Sisto, publicado pela Vetor Editora — hoje na versão revisada B-SPG-rev. O B-SPG pontua a distorção de forma em cada figura e tem normas brasileiras; a Vetor informa normas por idade e região, com escalas de quartis e percentis.

O teste mede:

  1. Maturação visomotora — integração entre percepção visual e execução motora
  2. Coordenação motora fina
  3. Percepção de forma e relações espaciais
  4. Capacidade de planejamento — como a criança organiza os desenhos no papel
  5. Indicadores de desorganização neuropsicológica em casos suspeitos

Faixa etária

  1. B-SPG-rev: crianças a partir de 6 anos, em fase de alfabetização (Vetor); o estudo brasileiro de validade do B-SPG trabalhou com crianças de 6 a 10 anos
  2. Bender-II (Brannigan & Decker, 2003, edição norte-americana, sem adaptação brasileira localizada): 4 a 85 anos ou mais, com fase de cópia e fase de evocação (memória)

2. Estrutura — as 9 figuras-estímulo

O teste consiste em 9 cartões, apresentados um a um na ordem padronizada. Cada cartão traz uma figura geométrica com características específicas que avaliam aspectos diferentes da função visomotora:

FiguraEstímuloO que enfatiza
Figura ACírculo + losango contíguoIntegração de formas e ponto de contato
Figura 1Pontos em linha horizontalSequenciamento e ritmo
Figura 2Colunas inclinadas de pequenos círculosOrganização espacial e perseveração
Figura 3Pontos em formato de setaCrescimento gradativo e proporção
Figura 4Quadrado aberto + curva sinusoidalContinuidade entre formas e curvas
Figura 5Arco de pontos com extensãoCurvatura e direção
Figura 6Duas linhas senoidais cruzadasCruzamento e continuidade
Figura 7Dois polígonos sobrepostosSobreposição e percepção 3D
Figura 8Hexágono alongado com losango internoEncaixe e proporção

O B-SPG atribui de 0 a 3 pontos a cada critério de distorção, conforme a gravidade do erro descrita no manual; a soma gera um escore total (quanto maior, pior o desempenho), convertido em percentil por idade.

3. Quem pode aplicar

Segundo a Vetor, o B-SPG-rev é aprovado pelo CFP, é produto de venda restrita e pode ser utilizado exclusivamente por psicólogos. Apenas profissionais com inscrição ativa no CRP estão habilitados a aplicar, corrigir e elaborar laudo formal com base no Bender. Na consulta ao SATEPSI de 25/09/2026, o B-SPG-rev consta como teste psicológico favorável (amostra de normatização de 6 a 10 anos; aprovado em 03/12/2022, com prazo até 03/12/2042). A versão anterior, o B-SPG de 2005, consta como desfavorável desde 31/12/2022, por normatização vencida, assim como o Bender Infantil de Aileen Clawson.

O psicopedagogo não aplica o B-SPG, mas frequentemente recebe laudos psicológicos com resultados Bender — comum em avaliações de pré-alfabetização, transtornos da aprendizagem, dificuldades em escrita (disgrafia) e rastreio de maturação neuropsicológica.

4. Como o Bender é aplicado

Material necessário

  1. Coleção B-SPG-rev da Vetor Editora (livro de instruções, livro de avaliação e guia rápido de correção)
  2. 9 cartões de estímulo para aplicação individual (a aplicação coletiva usa projeção pela plataforma on-line da Vetor)
  3. Folha em branco e lápis
  4. Mesa em ambiente silencioso e bem iluminado

Setting e procedimento

  1. 1Acolhimento e instrução. O avaliador apresenta o material e explica brevemente: “Vou mostrar uma figura, e você vai copiar essa figura nesta folha. Use o lápis. Faça do seu jeito.” A instrução deve ser breve e neutra.
  2. 2Apresentação sequencial dos cartões. Os 9 cartões são apresentados um a um, na ordem padronizada (A, 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8). Não se mostra mais de um cartão por vez.
  3. 3Cópia livre. A criança copia cada figura. O avaliador não dá feedback, não corrige, não instrui sobre tamanho ou posição. Pode dizer apenas “está bom assim” se a criança perguntar.
  4. 4Tempo livre, sem cronometragem. A Vetor informa tempo médio de aplicação de 15 minutos, sem limite fixo.
  5. 5Observação qualitativa. Anotar postura, lateralidade, pressão do lápis, autocorreções, comentários espontâneos da criança — esses dados qualitativos enriquecem a interpretação.
  6. 6Recolhimento e numeração das produções. Cada folha é numerada e armazenada para correção posterior.
  7. 7Correção pelo B-SPG. Cada critério de distorção é pontuado de 0 a 3 conforme o manual; soma-se o escore total e converte-se em percentil por idade.

5. Como classificar e interpretar resultados

Os escores brutos do B-SPG são convertidos em percentis e quartis por idade, com normas por região, segundo a Vetor. Quanto maior o escore bruto, maior o número de erros. As faixas de classificação são as do manual e devem vir descritas no laudo; não reproduzimos pontos de corte aqui porque não encontramos fonte aberta que os confirme.

Análise por padrão de erros

  1. Distorções de forma com ângulos preservados: imaturidade visomotora típica em crianças menores; no estudo brasileiro de validade, as distorções diminuíram com a idade. Se persistem em crianças mais velhas, sugerem atraso de maturação.
  2. Rotações sistemáticas (figura inteira girada): indicador clássico de dificuldades visuoespaciais. Quando associadas a outras distorções, sugerem maturação atrasada com impacto sobre escrita e leitura. Veja o guia sobre dislexia.
  3. Perseveração (continuação além do necessário): repetir pontos, traços ou figuras além do estímulo. Sugere dificuldade de inibição e atenção sustentada — comum em TDAH. Veja o guia sobre TDAH.
  4. Desorganização espacial no papel: figuras espalhadas sem critério, sobrepostas, fora da folha. Indicador de planejamento prejudicado e/ou impulsividade.
  5. Distorções graves com fragmentação de formas: em crianças mais velhas, podem indicar comprometimento neuropsicológico mais amplo, exigindo avaliação complementar com instrumentos como WISC e NEUPSILIN-Inf.

Para articular o laudo Bender com instrumentos psicopedagógicos próprios — sondagens de escrita, provas operatórias — use o Seletor de Testes iPsy.

6. Quando usar na avaliação psicopedagógica

Ilustração do uso do laudo de Bender pelo psicopedagogo: ler o resultado, observar a cópia e a escrita em sala e planejar atividades grafomotoras para a criança.
  1. 1Ler o laudo do psicólogo
  2. 2Observar a cópia e a escrita nas tarefas escolares
  3. 3Planejar atividades grafomotoras e de organização no papel
Ilustração: o laudo orienta o olhar sobre a escrita e o trabalho grafomotor.

1. Recebimento de laudo de pré-alfabetização ou maturidade escolar. O Bender é frequentemente solicitado para crianças avaliadas quanto à prontidão escolar (ingresso no 1º ano) ou suspeita de imaturidade. Resultado rebaixado sugere que a criança ainda não completou a maturação visomotora necessária para escrita formal.

2. Articulação com queixa de disgrafia. Crianças com escrita disfuncional frequentemente apresentam Bender rebaixado. O psicopedagogo cruza o laudo Bender com sondagens de escrita próprias e avaliação de escrita observacional para confirmar hipótese de disgrafia.

3. Investigação de transtornos da aprendizagem. Em casos de queixa difusa de baixo desempenho, o Bender funciona como triagem inicial. Resultado preservado afasta hipótese de imaturidade visomotora; rebaixado direciona para avaliação neuropsicológica completa. Modelos de devolutiva escolar com integração de laudos no Kit de Documentos iPsy.

4. Acompanhamento de evolução. Reaplicações, em intervalo definido pelo psicólogo, permitem documentar evolução da maturação. Particularmente útil quando há intervenção pedagógica focada em motricidade fina e habilidades grafomotoras. Para escolha de instrumentos psicopedagógicos paralelos, use o Seletor de Testes iPsy.

7. Limitações importantes

  1. Mede uma área específica, não cognição global. O Bender avalia maturação visomotora — não inteligência, não atenção (apenas indireta), não linguagem. Resultado rebaixado em Bender com cognição preservada não significa “atraso global”. Para cognição ampla, use o WISC.
  2. Sensível a fatores motores não-cognitivos. Crianças com prejuízo motor (paralisia cerebral, alterações neuromusculares) podem ter Bender rebaixado por dificuldade motora pura, não por imaturidade visomotora cognitiva.
  3. Aplicação aparentemente simples, interpretação complexa. A facilidade de aplicar engana — a interpretação correta exige treino específico e domínio do sistema de pontuação. Aplicações superficiais geram laudos imprecisos.
  4. Não fecha diagnóstico isoladamente. Mesmo Bender muito rebaixado não fecha diagnóstico de transtorno específico. Diagnóstico exige avaliação multidisciplinar e critérios DSM-5/CID-11.
  5. Influenciado por experiência prévia com lápis e papel. Crianças com pouca experiência grafomotora podem ter desempenho rebaixado por motivo cultural, não cognitivo. Contexto socioeducacional é parte da interpretação.

Fontes

Dúvidas comuns sobre o Bender

O psicopedagogo pode aplicar o Teste de Bender?
Não. Segundo a Vetor, o B-SPG-rev (Sistema de Pontuação Gradual do Bender) é aprovado pelo CFP e pode ser utilizado exclusivamente por psicólogos. O psicopedagogo recebe e interpreta laudos com resultados Bender, mas não aplica nem corrige. Para avaliação grafomotora pelo psicopedagogo, são adequadas observações de escrita e sondagens psicopedagógicas livres.
O Bender fecha diagnóstico de disgrafia ou TDAH?
Não isoladamente. O Bender é uma peça da avaliação — fornece evidência de maturação visomotora, indicadores de planejamento e perseveração. Diagnóstico de disgrafia, TDAH ou outro transtorno exige avaliação multidisciplinar com critérios DSM-5/CID-11 e exclusão de outras causas.
Quanto tempo demora a aplicação do Bender?
A Vetor informa tempo médio de 15 minutos para o B-SPG-rev, sem limite fixo. A correção é feita depois, pelo psicólogo, com o livro de avaliação e o guia rápido de correção.
Qual a diferença entre Bender original, B-SPG e Bender-II?
O Bender original é de 1938; por décadas, a pontuação mais usada foi o sistema de Koppitz, cujas limitações são discutidas na literatura. O B-SPG (Noronha, Santos e Sisto; Vetor Editora), hoje na versão revisada B-SPG-rev, é o sistema brasileiro com normas nacionais — a Vetor informa que é aprovado pelo CFP. O Bender-II (Brannigan & Decker, 2003) é a edição norte-americana, com fase de cópia e fase de evocação, de 4 a 85 anos ou mais; não localizamos adaptação brasileira dele.
O Bender serve para crianças menores de 6 anos?
A Vetor indica o B-SPG-rev para crianças a partir de 6 anos, e o estudo brasileiro de validade do B-SPG foi feito com crianças de 6 a 10 anos. Para crianças menores, a tarefa de cópia exige maturação grafomotora ainda não consolidada. Para faixas pré-escolares, instrumentos como Teste de Denver são mais adequados.