Beery VMI: Integração Visuomotora [2026] | iPsy

Quando uma criança não consegue copiar um quadrado direito aos 5 anos ou um losango aos 7, há uma cadeia de habilidades neurológicas se montando — ou tropeçando — silenciosamente por trás daquele desenho. O Beery VMI separa essa cadeia em três engrenagens distintas: a integração entre olho e mão (VMI), a percepção visual sem componente motor (sub-teste de Percepção Visual) e a execução motora sem componente perceptivo (sub-teste de Coordenação Motora). Se a criança falha em todas, há comprometimento amplo. Se falha só na primeira, o problema é específico de integração — e isso muda completamente o plano. Para psicopedagogos que recebem laudos com Beery VMI, a leitura cruzada dos três subtestes é uma das análises mais finas e subaproveitadas em avaliação infantil.

Este guia explica o que é o Beery VMI, sua história desde 1967, a versão atual (Beery VMI-6) e seus três subtestes, como é aplicado, como classificar resultados, padrões clínicos típicos e como articular esses achados ao plano psicopedagógico em casos de disgrafia, transtornos do desenvolvimento da coordenação e dificuldades grafomotoras.

O que é o Beery VMI

O Beery-Buktenica Developmental Test of Visual-Motor Integration — abreviado Beery VMI — foi desenvolvido pelos psicólogos norte-americanos Keith E. Beery e Norman A. Buktenica em 1967. A versão atual em uso clínico é o Beery VMI-6, sexta edição, lançada em 2010 e distribuída no Brasil pela Pearson Clinical (mediante adaptação para uso em pesquisa e prática neuropsicológica).

O instrumento é um teste de aplicação direta baseado em cópia de figuras geométricas com complexidade crescente. O grande diferencial do Beery VMI em relação a outros instrumentos visomotores (como o Bender) é oferecer três subtestes que permitem dissociar componentes:

  • VMI (Integração Visuomotora): a criança copia 30 formas geométricas com lápis no papel
  • Percepção Visual: a criança identifica, entre múltiplas opções, a forma que combina com o estímulo — sem componente motor
  • Coordenação Motora: a criança traça dentro de trilhas com formas — sem componente perceptivo de complexidade

Aplicar os três subtestes permite responder com precisão: a falha é de percepção (criança não vê direito a forma)? De execução motora (criança vê mas a mão não consegue)? Ou de integração entre os dois (a famosa “ponte” olho-mão)?

Faixa etária

O Beery VMI-6 cobre a faixa mais ampla entre os instrumentos visomotores: 2 a 100 anos. Há duas formas:

  • Forma Curta (Short Form): 2 a 7 anos — focada em pré-escolares e primeiros anos do Fundamental
  • Forma Completa (Full Form): 2 a 100 anos — cobre toda a vida útil

Estrutura — três subtestes em cadernos sequenciais

O Beery VMI-6 organiza seus três subtestes em ordem padronizada, do mais complexo (VMI) ao mais simples (Coordenação Motora):

SubtesteTarefaO que isola
VMI (Integração Visuomotora)Copiar 30 formas geométricas com complexidade crescente (linha vertical → losango → estrela tridimensional)Integração entre o que o olho vê e a mão executa — coordenação visuoespacial integrada
Percepção VisualEm 30 itens, identificar dentre 7 opções a forma idêntica ao estímulo (sem desenhar)Percepção visual pura — sem componente motor
Coordenação MotoraEm 30 itens, traçar pontos dentro de trilhas de formas geométricas (com tempo limite)Coordenação motora fina — sem complexidade perceptiva

Os três subtestes são geralmente aplicados em ordem (VMI → Percepção Visual → Coordenação Motora), no mesmo encontro. Tempo total: 10 a 15 minutos para os três. Cada subteste produz um escore padronizado independente, permitindo análise dissociada.

Quem pode aplicar

O Beery VMI-6 é tradicionalmente aplicado por psicólogos e neuropsicólogos com formação em avaliação visomotora, e também usado em prática clínica de terapeutas ocupacionais com treinamento específico no instrumento. No contexto brasileiro de avaliação psicológica formal, recomenda-se a aplicação por psicólogo com formação adequada, conforme regulamentação CFP. Para uso por outros profissionais com formação em avaliação visomotora, é importante consultar o conselho profissional respectivo.

O psicopedagogo não aplica o Beery VMI padronizado, mas frequentemente recebe laudos com Beery em avaliações de crianças com queixa grafomotora, suspeita de transtorno do desenvolvimento da coordenação, ou em baterias amplas neuropsicológicas. Saber ler a dissociação entre VMI, Percepção Visual e Coordenação Motora é um diferencial técnico importante.

Atenção: aplicar testes psicológicos/neuropsicológicos padronizados sem formação adequada pode configurar problemas éticos e profissionais. A Resolução CFP nº 31/2022 e a Lei nº 4.119/1962 são claras sobre o caráter privativo da avaliação psicológica. Avaliações pedagógicas grafomotoras via observação de escrita, sondagens e atividades dirigidas são técnicas psicopedagógicas livres e legítimas — desde que sem pretensão de medida psicométrica.

Como o Beery VMI é aplicado

Material necessário

  • Manual técnico do Beery VMI-6 (Pearson Clinical / distribuidor brasileiro)
  • Cadernos de aplicação dos três subtestes (VMI, Percepção Visual, Coordenação Motora)
  • Folhas de respostas e correção
  • Lápis preto número 2 (sem borracha disponível para a criança)
  • Cronômetro silencioso (para o subteste de Coordenação Motora)
  • Mesa adequada à idade, em ambiente silencioso e bem iluminado

Setting e procedimento

  1. Acolhimento e instruções iniciais. Antes de aplicar, breve conversa para reduzir ansiedade. Explicar que serão três tarefas curtas, todas com lápis e papel.
  2. Subteste VMI (Integração). Apresenta-se o caderno com 30 formas em ordem crescente de complexidade. A criança copia cada forma no espaço abaixo do estímulo. Sem instruções específicas além de “copie a figura assim como você vê”. Aplicação interrompida após 3 erros consecutivos.
  3. Subteste Percepção Visual. Apresenta-se cada item com uma forma-estímulo e 7 alternativas. A criança aponta ou marca a alternativa idêntica ao estímulo. Não há desenho — apenas marcação. Tempo limite por item.
  4. Subteste Coordenação Motora. A criança traça com lápis dentro de trilhas de formas, sem tocar nas linhas externas. Tempo cronometrado de 5 minutos para todo o subteste.
  5. Sem feedback de acerto/erro. Em todos os subtestes, o aplicador mantém postura neutra. Não corrige, não comenta, não enfatiza acertos.
  6. Observação qualitativa contínua. Postura, lateralidade, pegada do lápis, pressão, autocorreções, planejamento prévio antes de desenhar — tudo entra no laudo.
  7. Pontuação por critérios objetivos. Cada item de cada subteste é pontuado conforme critérios específicos do manual, gerando escores brutos.
  8. Conversão em escores padronizados. Escores brutos são convertidos em escores padronizados (média 100, DP 15), percentis e idade-equivalente por subteste e separadamente.

Como classificar e interpretar resultados

O Beery VMI usa escores padronizados com média 100 e desvio-padrão 15 — mesma escala da WAIS e WISC. A classificação é a seguinte:

Escore padronizadoClassificaçãoPercentil
≥ 130Muito alto≥ 98
110 a 129Alto / Acima da média75 a 97
90 a 109Médio25 a 74
80 a 89Abaixo da média9 a 24
≤ 79Muito abaixo da média≤ 8

Análise por padrão dissociado

O grande poder analítico do Beery VMI vem da análise cruzada dos três subtestes:

  • VMI rebaixado + Percepção Visual normal + Coordenação Motora normal: dificuldade específica de integração — a criança vê bem, executa bem, mas não consegue articular o que vê com o que a mão faz. Padrão clássico em transtorno do desenvolvimento da coordenação (TDC) e em algumas formas de disgrafia.
  • VMI rebaixado + Percepção Visual rebaixada + Coordenação Motora normal: problema central é perceptivo. A criança não está processando bem a forma do estímulo. Pode coincidir com prejuízos visuoespaciais e tem implicações para leitura (especialmente reconhecimento de letras). Veja o guia sobre dislexia.
  • VMI rebaixado + Percepção Visual normal + Coordenação Motora rebaixada: problema central é motor. A criança vê e processa bem, mas a execução motora fina é prejudicada. Compatível com transtorno do desenvolvimento da coordenação puro ou com prejuízos motores de outras etiologias.
  • Os três rebaixados: prejuízo amplo, possivelmente com base neurológica mais geral. Investigação complementar com WISC e NEUPSILIN-Inf é essencial para diferenciar deficiência intelectual de prejuízo específico amplo.
  • Os três preservados em criança com queixa grafomotora franca: dissociação importante. Sugere que a dificuldade observada na escrita não tem base visomotora pura — investigar fatores motivacionais, experiência prévia com lápis, postura ergonômica em sala. Articular com sondagem de escrita.

Para articular o laudo Beery VMI com sondagens psicopedagógicas próprias, use o Seletor de Testes iPsy.

Quando usar na avaliação psicopedagógica

1. Recebimento de laudo em queixa grafomotora persistente. Crianças com escrita ilegível, lentidão extrema, recusa em escrever — frequentemente têm Beery VMI no laudo. A dissociação entre os três subtestes orienta intervenção precisa: se VMI é o rebaixado, o trabalho é de integração; se Coordenação Motora é, é grafomotor puro. Para escolha de instrumentos psicopedagógicos complementares, consulte o Seletor de Testes iPsy.

2. Articulação com hipótese de transtorno do desenvolvimento da coordenação (TDC). O TDC, conhecido como dispraxia, exige avaliação neuropsicológica e o Beery VMI é instrumento central. O psicopedagogo articula achados Beery com observação em sala (escrita, atividades motoras finas) e com ajustes pedagógicos: tempo extra para escrita, prova oral quando possível, uso de lápis ergonômico.

3. Avaliação de prontidão grafomotora para alfabetização. Em pré-escolares com queixa de “ainda não escreve”, o Beery VMI Forma Curta (2-7 anos) ajuda a dimensionar maturação visomotora. Articular com Bender e sondagem psicopedagógica de escrita inicial.

4. Trabalho conjunto com terapia ocupacional. Quando há dificuldade grafomotora franca, o trabalho psicopedagógico é mais eficaz quando articulado com terapia ocupacional. O laudo Beery VMI dá ao TO um mapa preciso para intervenção, e o psicopedagogo trabalha em paralelo na compensação pedagógica. O Kit de Documentos iPsy traz modelos de relatório para essa articulação multidisciplinar.

Limitações importantes

  • Escopo restrito ao visomotor. O Beery VMI mede integração visuomotora — não inteligência geral, não atenção, não linguagem. Resultado rebaixado em Beery não significa “atraso global”. Para perfil amplo, é parte de uma bateria, junto com WISC e instrumentos específicos.
  • Sensível a fatores motores não-cognitivos. Crianças com prejuízos motores específicos (paralisia cerebral, hipotonia, lesões neuromusculares) podem ter Beery rebaixado por motivo motor puro. Avaliação médica complementar é fundamental.
  • Não fecha diagnóstico isoladamente. Mesmo Beery muito rebaixado não fecha diagnóstico de transtorno do desenvolvimento da coordenação ou de disgrafia. Diagnóstico exige avaliação multidisciplinar com critérios DSM-5/CID-11.
  • Influenciado por experiência grafomotora prévia. Crianças com pouca exposição a lápis e papel (raro hoje, mas presente em alguns contextos) podem ter Beery rebaixado por motivo de inexperiência, não de prejuízo cognitivo-motor. Análise contextual é parte da interpretação.
  • Adaptação brasileira ainda em consolidação. A versão brasileira tem normas adaptadas em uso clínico, mas o ideal é cruzar com observação direta e outros instrumentos visomotores como o Bender (B-SPG).

Perguntas frequentes sobre Beery VMI

O psicopedagogo pode aplicar o Beery VMI?

Em geral, não — a aplicação padronizada é tradicionalmente atribuição de psicólogos e neuropsicólogos com formação adequada. Em alguns contextos, terapeutas ocupacionais também aplicam, conforme regulamentação do conselho profissional. O psicopedagogo recebe laudos com Beery e os interpreta no plano pedagógico. Avaliações grafomotoras via observação e sondagem psicopedagógica são técnicas livres e legítimas.

O Beery VMI fecha diagnóstico de transtorno do desenvolvimento da coordenação?

Não isoladamente. O Beery VMI é uma das peças mais relevantes para investigar TDC (dispraxia), mas o diagnóstico exige sintomas presentes desde a infância, prejuízo funcional persistente em atividades motoras coordenadas e exclusão de outras causas — conforme critérios DSM-5. O laudo é peça importante, não única.

Quanto tempo demora a aplicação completa?

A aplicação dos três subtestes leva entre 10 e 15 minutos no total, podendo chegar a 20 minutos em crianças com extrema lentidão. A correção e elaboração do laudo, feitas pelo psicólogo, levam mais 30-45 minutos. É um instrumento relativamente rápido em comparação com outras baterias visomotoras.

Qual a diferença entre Beery VMI e Bender?

O Bender avalia maturação visomotora com 9 figuras geométricas em uma única tarefa de cópia. O Beery VMI tem 30 formas em ordem crescente de complexidade no subteste de cópia, e adiciona dois subtestes (Percepção Visual e Coordenação Motora) que permitem dissociar componentes. Beery oferece análise mais fina; Bender é mais rápido. Em prática clínica brasileira, o Bender (B-SPG) é mais usado por estar oficialmente cadastrado no SATEPSI.

Crianças menores de 4 anos podem fazer o Beery?

Sim. O Beery VMI tem normas a partir dos 2 anos, com a Forma Curta especialmente desenvolvida para pré-escolares (2-7 anos). É um dos poucos instrumentos visomotores com cobertura nessa faixa etária mais precoce. Em crianças muito pequenas, a aplicação exige aplicador experiente e adaptação no setting (mesa baixa, ambiente lúdico).

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