Quando uma criança não consegue copiar um quadrado direito aos 5 anos ou um losango aos 7, há uma cadeia de habilidades neurológicas se montando — ou tropeçando — silenciosamente por trás daquele desenho. O Beery VMI separa essa cadeia em três engrenagens distintas: a integração entre olho e mão (VMI), a percepção visual sem componente motor (sub-teste de Percepção Visual) e a execução motora sem componente perceptivo (sub-teste de Coordenação Motora). Se a criança falha em todas, há comprometimento amplo. Se falha só na primeira, o problema é específico de integração — e isso muda completamente o plano. Para psicopedagogos que recebem laudos com Beery VMI, a leitura cruzada dos três subtestes é uma das análises mais finas e subaproveitadas em avaliação infantil.
Este guia explica o que é o Beery VMI, a edição atual (Beery VMI-6) e seus três subtestes, como é aplicado, como classificar resultados, padrões clínicos típicos e como articular esses achados ao plano psicopedagógico em casos de disgrafia, transtornos do desenvolvimento da coordenação e dificuldades grafomotoras.
1. O que é o Beery VMI

- 1O que avalia: integração visomotora, percepção visual e coordenação motora
- 2Para quem: normas dos EUA de 2 a 99 anos
- 3Quem aplica: profissionais qualificados; não restrito a psicólogos na origem
- 4Formato: três cadernos aplicados no mesmo encontro
O Beery-Buktenica Developmental Test of Visual-Motor Integration — abreviado Beery VMI — foi desenvolvido nos Estados Unidos por Keith E. Beery e Norman A. Buktenica. A edição atual é o Beery VMI-6, sexta edição, de 2010 (autores Keith E. Beery, Norman A. Buktenica e Natasha A. Beery), vendida nos EUA pela Pearson e pela PRO-ED. Não localizamos adaptação brasileira publicada nem venda por editora brasileira.
O instrumento é um teste de aplicação direta baseado em cópia de figuras geométricas com complexidade crescente. O grande diferencial do Beery VMI em relação a outros instrumentos visomotores (como o Bender) é oferecer três subtestes que permitem dissociar componentes:
- VMI (Integração Visuomotora): a criança copia formas geométricas de complexidade crescente com lápis no papel
- Percepção Visual: a criança identifica, entre múltiplas opções, a forma que combina com o estímulo — sem componente motor
- Coordenação Motora: a criança traça dentro de trilhas com formas — sem componente perceptivo de complexidade
Aplicar os três subtestes permite responder com precisão: a falha é de percepção (criança não vê direito a forma)? De execução motora (criança vê mas a mão não consegue)? Ou de integração entre os dois (a famosa “ponte” olho-mão)?
Faixa etária
O Beery VMI-6 tem normas norte-americanas de 2 a 99 anos e 11 meses (a PRO-ED escreve “2 a 100”). Há duas formas:
- Forma Curta (Short Form): 2 a 7 anos — focada em pré-escolares e primeiros anos do Fundamental
- Forma Completa (Full Form): 2 a 99 anos — cobre toda a vida útil
2. Estrutura — três subtestes em cadernos sequenciais

- 1VMI: integração entre o que o olho vê e a mão executa
- 2Percepção visual: sem componente motor
- 3Coordenação motora: traçado fino sem complexidade perceptiva
O Beery VMI-6 organiza seus três subtestes em ordem padronizada, do mais complexo (VMI) ao mais simples (Coordenação Motora):
| Subteste | Tarefa | O que isola |
|---|---|---|
| VMI (Integração Visuomotora) | Copiar formas geométricas de complexidade crescente | Integração entre o que o olho vê e a mão executa — coordenação visuoespacial integrada |
| Percepção Visual | Identificar, entre alternativas, a forma idêntica ao estímulo (sem desenhar), com tempo limite | Percepção visual pura — sem componente motor |
| Coordenação Motora | Traçar dentro de trilhas com formas geométricas (com tempo limite) | Coordenação motora fina — sem complexidade perceptiva |
Os três subtestes são geralmente aplicados em ordem (VMI → Percepção Visual → Coordenação Motora), no mesmo encontro. Tempo, segundo a Pearson: 10 a 15 minutos para o VMI e cerca de 5 minutos para cada teste suplementar. Cada subteste produz um escore padronizado independente, permitindo análise dissociada.
3. Quem pode aplicar
Nos EUA, a Pearson vende o Beery VMI-6 no nível de qualificação B: exige mestrado em psicologia, educação, fonoaudiologia, terapia ocupacional ou área afim, com formação em aplicação e interpretação de testes, ou certificação profissional equivalente. Ou seja, não é restrito a psicólogos na origem. No Brasil, não localizamos adaptação nem venda por editora brasileira, e o Beery VMI não aparece na lista de testes psicológicos favoráveis nem na de instrumentos não privativos do SATEPSI (consulta de 25/09/2026). Consulte também o seu conselho profissional.
Sem normas brasileiras, a aplicação padronizada fica com quem tem formação específica no instrumento; o psicopedagogo frequentemente recebe laudos com Beery em avaliações de crianças com queixa grafomotora, suspeita de transtorno do desenvolvimento da coordenação, ou em baterias amplas neuropsicológicas. Saber ler a dissociação entre VMI, Percepção Visual e Coordenação Motora é um diferencial técnico importante.
4. Como o Beery VMI é aplicado
Material necessário
- Manual do Beery VMI-6 (edição norte-americana, Pearson)
- Cadernos de aplicação dos três subtestes (VMI, Percepção Visual, Coordenação Motora)
- Folhas de respostas e correção
- Lápis
- Cronômetro (os testes suplementares têm tempo limite)
- Mesa adequada à idade, em ambiente silencioso e bem iluminado
Setting e procedimento
- 1Acolhimento e instruções iniciais. Antes de aplicar, breve conversa para reduzir ansiedade. Explicar que serão três tarefas curtas, todas com lápis e papel.
- 2Subteste VMI (Integração). Apresenta-se o caderno com as formas em ordem crescente de complexidade. A criança copia cada forma no espaço abaixo do estímulo, com a instrução padronizada do manual. O manual define quando interromper.
- 3Subteste Percepção Visual. Apresenta-se cada item com uma forma-estímulo e alternativas. A criança marca a alternativa idêntica ao estímulo. Não há desenho — apenas marcação, com tempo limite definido no manual.
- 4Subteste Coordenação Motora. A criança traça com lápis dentro de trilhas de formas, sem tocar nas linhas externas, com tempo limite definido no manual.
- 5Sem feedback de acerto/erro. Em todos os subtestes, o aplicador mantém postura neutra. Não corrige, não comenta, não enfatiza acertos.
- 6Observação qualitativa contínua. Postura, lateralidade, pegada do lápis, pressão, autocorreções, planejamento prévio antes de desenhar — tudo entra no laudo.
- 7Pontuação por critérios objetivos. Cada item de cada subteste é pontuado conforme critérios específicos do manual, gerando escores brutos.
- 8Conversão em escores padronizados. Escores brutos são convertidos em escores padronizados, percentis e idade equivalente, separadamente para cada teste.
5. Como classificar e interpretar resultados

- 1Percepção visual rebaixada: trabalho perceptivo
- 2Coordenação motora rebaixada: trabalho grafomotor
- 3Só o VMI rebaixado: trabalho de integração olho-mão
O Beery VMI informa escores padronizados, percentis e idade equivalente. As faixas de classificação são as do manual norte-americano e devem vir descritas no laudo; não reproduzimos pontos de corte aqui porque não encontramos fonte aberta que os confirme.
Análise por padrão dissociado
O grande poder analítico do Beery VMI vem da análise cruzada dos três subtestes:
- VMI rebaixado + Percepção Visual normal + Coordenação Motora normal: dificuldade específica de integração — a criança vê bem, executa bem, mas não consegue articular o que vê com o que a mão faz. Padrão clássico em transtorno do desenvolvimento da coordenação (TDC) e em algumas formas de disgrafia.
- VMI rebaixado + Percepção Visual rebaixada + Coordenação Motora normal: problema central é perceptivo. A criança não está processando bem a forma do estímulo. Pode coincidir com prejuízos visuoespaciais e tem implicações para leitura (especialmente reconhecimento de letras). Veja o guia sobre dislexia.
- VMI rebaixado + Percepção Visual normal + Coordenação Motora rebaixada: problema central é motor. A criança vê e processa bem, mas a execução motora fina é prejudicada. Compatível com transtorno do desenvolvimento da coordenação puro ou com prejuízos motores de outras etiologias.
- Os três rebaixados: prejuízo amplo, possivelmente com base neurológica mais geral. Investigação complementar com WISC e NEUPSILIN-Inf é essencial para diferenciar deficiência intelectual de prejuízo específico amplo.
- Os três preservados em criança com queixa grafomotora franca: dissociação importante. Sugere que a dificuldade observada na escrita não tem base visomotora pura — investigar fatores motivacionais, experiência prévia com lápis, postura ergonômica em sala. Articular com sondagem de escrita.
Para articular o laudo Beery VMI com sondagens psicopedagógicas próprias, use o Seletor de Testes iPsy.
6. Quando usar na avaliação psicopedagógica
1. Recebimento de laudo em queixa grafomotora persistente. Crianças com escrita ilegível, lentidão extrema, recusa em escrever — frequentemente têm Beery VMI no laudo. A dissociação entre os três subtestes orienta intervenção precisa: se VMI é o rebaixado, o trabalho é de integração; se Coordenação Motora é, é grafomotor puro. Para escolha de instrumentos psicopedagógicos complementares, consulte o Seletor de Testes iPsy.
2. Articulação com hipótese de transtorno do desenvolvimento da coordenação (TDC). O TDC, conhecido como dispraxia, exige avaliação neuropsicológica e o Beery VMI é instrumento central. O psicopedagogo articula achados Beery com observação em sala (escrita, atividades motoras finas) e com ajustes pedagógicos: tempo extra para escrita, prova oral quando possível, uso de lápis ergonômico.
3. Avaliação de prontidão grafomotora para alfabetização. Em pré-escolares com queixa de “ainda não escreve”, o Beery VMI Forma Curta (2-7 anos) ajuda a dimensionar maturação visomotora. Articular com Bender e sondagem psicopedagógica de escrita inicial.
4. Trabalho conjunto com terapia ocupacional. Quando há dificuldade grafomotora franca, o trabalho psicopedagógico é mais eficaz quando articulado com terapia ocupacional. O laudo Beery VMI dá ao TO um mapa preciso para intervenção, e o psicopedagogo trabalha em paralelo na compensação pedagógica. O Kit de Documentos iPsy traz modelos de relatório para essa articulação multidisciplinar.
7. Limitações importantes
- Escopo restrito ao visomotor. O Beery VMI mede integração visuomotora — não inteligência geral, não atenção, não linguagem. Resultado rebaixado em Beery não significa “atraso global”. Para perfil amplo, é parte de uma bateria, junto com WISC e instrumentos específicos.
- Sensível a fatores motores não-cognitivos. Crianças com prejuízos motores específicos (paralisia cerebral, hipotonia, lesões neuromusculares) podem ter Beery rebaixado por motivo motor puro. Avaliação médica complementar é fundamental.
- Não fecha diagnóstico isoladamente. Mesmo Beery muito rebaixado não fecha diagnóstico de transtorno do desenvolvimento da coordenação ou de disgrafia. Diagnóstico exige avaliação multidisciplinar com critérios DSM-5/CID-11.
- Influenciado por experiência grafomotora prévia. Crianças com pouca exposição a lápis e papel (raro hoje, mas presente em alguns contextos) podem ter Beery rebaixado por motivo de inexperiência, não de prejuízo cognitivo-motor. Análise contextual é parte da interpretação.
- Sem normas brasileiras localizadas. Não localizamos adaptação brasileira publicada: as normas são norte-americanas. O ideal é cruzar com observação direta e com instrumentos visomotores normatizados no Brasil, como o Bender (B-SPG).