iPsy Tools — R$47/mêsAssinar →
iPsy
Desenvolvimento e TEA

CARS: Escala de Avaliação de Autismo Infantil [2026]

Equipe iPsy
Atualizado em 10 min de leitura
Psicopedagogia e neuropsicopedagogia
Faixa etária
2+ anos
Quem aplica
Multiprofissional
Categoria
Desenvolvimento e TEA

CARS em resumo

O que é
A CARS (Childhood Autism Rating Scale) é uma escala de 15 itens, pontuada pelo profissional a partir da observação. Ela quantifica a intensidade dos comportamentos autistas e não fecha diagnóstico sozinha.
Para que idade
A CARS é indicada a partir dos 2 anos; a validação brasileira (CARS-BR) foi feita com crianças e adolescentes de 3 a 17 anos. Na CARS2, a escala de alto funcionamento vale a partir de 6 anos.
Quem pode aplicar
A CARS é aplicada por psicólogos, psicopedagogos, fonoaudiólogos e outros profissionais com formação em TEA. Para laudo psicológico formal, a aplicação por psicólogo é obrigatória.
Quanto tempo leva
Depois de reunidas as informações (observação da criança e relato da família), pontuar a CARS2 leva de 5 a 10 minutos, segundo a editora (WPS); o tempo de observação varia conforme o caso.

A CARS é o instrumento mais usado no mundo para avaliar a severidade do autismo — e provavelmente o mais incompreendido entre os instrumentos de TEA disponíveis no Brasil. Diferente do M-CHAT-R/F, que é triagem de risco em bebês de 16 a 30 meses, a CARS atende uma necessidade diferente: quantificar quão intensos são os comportamentos autistas em crianças que já têm diagnóstico ou estão sendo investigadas. É a ferramenta que responde “qual o nível de suporte essa criança precisa?” — pergunta central no DSM-5.

Este guia explica o que é a CARS, sua estrutura em 15 itens, como aplicar passo a passo, como pontuar, como classificar a severidade e como integrar os achados ao plano de intervenção em casos de autismo. O artigo é direcionado a psicopedagogos, fonoaudiólogos e profissionais que atuam com crianças no espectro.

1. O que é a CARS

A CARS (Childhood Autism Rating Scale — Escala de Avaliação de Autismo Infantil) foi desenvolvida nos Estados Unidos por Eric Schopler e colaboradores na Universidade da Carolina do Norte, no contexto do programa TEACCH; o manual de referência da versão original é de Schopler, Reichler e Renner (WPS, 1988). A segunda edição, CARS2, foi publicada em 2010 pela WPS (Schopler, Van Bourgondien, Wellman e Love) e tem duas escalas de 15 itens — a padrão (CARS2-ST, equivalente à CARS original) e a de alto funcionamento (CARS2-HF) —, além de um questionário para pais que não é pontuado (CARS2-QPC).

É composta por 15 itens, cada um avaliando uma dimensão comportamental relevante no autismo. Para cada item, o aplicador pontua a criança em uma escala de 1 (comportamento típico para a idade) a 4 (comportamento severamente atípico). A soma dos 15 itens resulta em um escore total que classifica a severidade.

Faixa etária

A CARS é indicada a partir dos 2 anos de idade. Na CARS2, a escala padrão (ST) é para crianças menores de 6 anos e para pessoas com dificuldade de comunicação ou QI estimado abaixo da média; a escala de alto funcionamento (HF) é para pessoas verbalmente fluentes, a partir de 6 anos, com QI acima de 80. A validação brasileira da CARS original (CARS-BR) foi feita com crianças e adolescentes de 3 a 17 anos.

2. Os 15 itens da CARS

A CARS investiga 15 dimensões comportamentais centrais do autismo. Cada item é pontuado com base na observação direta da criança, complementada por relato dos pais/cuidadores quando necessário.

#ItemO que avalia
1Relacionamento com pessoasComo a criança interage com o aplicador e os pais
2ImitaçãoCapacidade de imitar gestos, sons e ações
3Resposta emocionalAdequação das reações emocionais ao contexto
4Uso do corpoCoordenação motora e movimentos atípicos
5Uso de objetosComo a criança brinca e manipula objetos
6Adaptação à mudançaTolerância a alterações de rotina ou ambiente
7Resposta visualPadrão de contato visual e atenção visual
8Resposta auditivaComo a criança reage a sons e à voz humana
9Resposta gustativa, olfativa e tátilPadrões sensoriais incomuns
10Medo ou nervosismoPadrão de ansiedade ou medos atípicos
11Comunicação verbalLinguagem expressiva, ecolalia, prosódia
12Comunicação não-verbalUso de gestos, expressões faciais, contato visual comunicativo
13Nível de atividadeHiperatividade ou hipoatividade atípica
14Nível e consistência da resposta intelectualPadrão de funcionamento cognitivo
15Impressão geralAvaliação clínica geral do aplicador

Para cada item, o aplicador atribui pontuação de 1 a 4, com possibilidade de pontuações intermediárias (1,5 / 2,5 / 3,5) quando o comportamento está entre dois níveis. A soma dos 15 itens resulta em um escore total que varia de 15 a 60.

3. Quem pode aplicar a CARS

No Brasil, a versão validada é a CARS-BR — tradução e validação da CARS original feita por Pereira, Riesgo e Wagner (2008). A CARS2 não tem versão brasileira publicada: sua adaptação ainda estava em estudo em 2024 (dissertação de mestrado na UFSJ, sob contrato entre a WPS, a Hogrefe e os autores brasileiros), e a WPS lista traduções publicadas só em búlgaro e italiano. A mesma dissertação cita revisão que não encontrou instrumento específico para TEA no SATEPSI. Na consulta ao SATEPSI de 25/09/2026, a CARS também não aparece na lista de testes psicológicos favoráveis nem na de instrumentos não privativos; o único instrumento de rastreio de TEA nessas listas é o M-CHAT, entre os não privativos. De modo geral, a aplicação adequada exige formação em avaliação clínica do desenvolvimento e em transtornos do espectro autista.

Na prática, é aplicada por psicólogos, neuropsicólogos, psicopedagogos, neuropsicopedagogos, fonoaudiólogos e terapeutas ocupacionais com formação específica em TEA. Para fins de laudo psicológico formal, a aplicação por psicólogo é obrigatória. Para uso clínico em equipes multidisciplinares, outros profissionais podem aplicar com responsabilidade compartilhada da equipe.

4. Como aplicar a CARS passo a passo

Material necessário

  1. Manual da escala com os critérios de cada item: a CARS-BR (Pereira, Riesgo e Wagner, 2008) ou a CARS2, em inglês (WPS)
  2. Folha de pontuação individual
  3. Brinquedos diversos para observação durante interação com a criança
  4. Folha de registro do aplicador para anotações qualitativas

Setting e procedimento

  1. 1Anamnese prévia com pais ou cuidadores. Antes de observar a criança, levantar histórico do desenvolvimento, marcos atingidos, queixas familiares, contexto escolar. Essa informação ajuda a interpretar comportamentos observados.
  2. 2Observação semi-estruturada da criança. A CARS não tem itens fixos a aplicar como teste — você observa a criança em situação natural ou em interação dirigida (brincadeira livre, atividades estruturadas, interação social). Cada minuto de observação informa a pontuação dos 15 itens.
  3. 3Tempo de observação: não há tempo fixo — observe o suficiente para pontuar os 15 itens com segurança, estendendo em casos complexos. A editora informa só o tempo de pontuação da CARS2: 5 a 10 minutos, depois de reunidas as informações.
  4. 4Pontuação após a observação. Não pontue durante a interação — concentre-se na criança. Pontuação é feita ao final, com base nas anotações qualitativas e na lembrança da observação.
  5. 5Use o relato dos pais como fonte complementar. Alguns itens (como adaptação à mudança ou medos atípicos) são melhor avaliados por relato familiar do que por observação pontual.
  6. 6Pontue cada item conforme manual. O manual descreve detalhadamente o que caracteriza cada nível (1, 2, 3, 4) em cada item — siga rigorosamente para garantir consistência.

5. Como classificar a severidade na CARS

A soma dos 15 itens (escore total, de 15 a 60) é convertida em uma classificação de severidade. Na CARS original e na CARS-BR, o ponto de corte para autismo é 30, e as faixas usadas são:

Escore totalClassificaçãoSignificado
15 a 29,5Sem autismoComportamentos típicos para a idade. Não compatível com TEA pelo critério da CARS.
30 a 36,5Autismo leve a moderadoComportamentos compatíveis com TEA, em intensidade leve a moderada.
37 a 60Autismo graveComportamentos compatíveis com TEA em intensidade significativa.

A CARS2-HF (alto funcionamento) tem pontos de corte próprios, descritos no manual da CARS2 — ela foi feita para pessoas verbalmente fluentes, a partir de 6 anos e com QI acima de 80, perfil que pode ser subdetectado pela escala padrão.

Análise por padrão de itens

Mais útil que o escore total isolado é o perfil de pontuação entre os 15 itens:

  1. Itens de comunicação (11, 12) altos + interação social (1) alta: núcleo clássico do autismo. Foco prioritário na intervenção em comunicação e habilidades sociais.
  2. Itens sensoriais (7, 8, 9) altos: sugere perfil sensorial atípico significativo. Indicação de avaliação por terapeuta ocupacional especializado em integração sensorial.
  3. Adaptação à mudança (6) alta + uso de objetos (5) alto: rigidez comportamental marcada. Implica intervenção em flexibilidade cognitiva e tolerância à variação.
  4. Itens de comunicação preservados (1-2) + escore total acima de 30: sugere perfil de alto funcionamento. Se a pessoa tem 6 anos ou mais, fala fluentemente e tem QI estimado acima de 80, a escala indicada é a CARS2-HF.
  5. Pontuações distribuídas uniformemente em todos os itens: perfil mais grave. Múltiplas áreas alteradas simultaneamente. Indicação de equipe multidisciplinar com intervenção intensiva.

Para articular a CARS com outros instrumentos da avaliação multidisciplinar (M-CHAT-R/F, ADOS-2, ADI-R, escalas de comportamento adaptativo), use o Seletor de Testes iPsy.

6. Quando usar a CARS na avaliação psicopedagógica

A CARS faz mais sentido em três contextos clínicos específicos:

1. Em crianças que tiveram triagem positiva no M-CHAT-R/F. Após o rastreio inicial em bebês, a CARS oferece avaliação mais aprofundada da severidade. É etapa natural quando o M-CHAT-R/F sinaliza alto risco e a criança é encaminhada para avaliação diagnóstica em equipe.

2. Em crianças mais velhas (3 a 12 anos) com queixa persistente. Quando o M-CHAT-R/F não é mais aplicável (criança fora da faixa etária), a CARS preenche a lacuna como instrumento de avaliação inicial e quantificação de severidade. Veja o guia completo do M-CHAT-R/F para diferenciar quando aplicar cada um.

3. Para acompanhamento longitudinal da severidade. Aplicar CARS em momentos sucessivos (intervalo mínimo de 6 meses entre aplicações) permite documentar mudanças na intensidade dos sintomas ao longo do desenvolvimento e da intervenção. É um dos poucos instrumentos que oferece essa medida quantificável de evolução.

Para a devolutiva e o plano, o material Guia Completo de Transtorno do Espectro Autista cobre sinais por faixa etária, devolutiva à família e orientação à escola, e o Pacote Atividades Adaptadas para TEA traz 30 atividades estruturadas visualmente para a intervenção — os dois na Biblioteca do iPsy, para baixar com conta gratuita.

Para integrar os achados da CARS ao plano de intervenção, instrumentos psicopedagógicos complementares como o ABLLS-R (avaliação funcional baseada em ABA) são fundamentais. O guia completo sobre autismo aprofunda critérios diagnósticos e abordagens de intervenção.

7. Limitações importantes da CARS

  1. Depende fortemente da experiência do aplicador. A pontuação é baseada em julgamento clínico estruturado. Aplicadores inexperientes tendem a pontuar de forma diferente, comprometendo confiabilidade. Treinamento específico é essencial.
  2. Pode subestimar autismo de alta funcionalidade. A versão padrão da CARS pode não captar adequadamente perfis com QI preservado e linguagem desenvolvida. A CARS2-HF foi criada para resolver essa lacuna, mas é instrumento à parte.
  3. Não substitui ADOS-2 nem ADI-R em diagnósticos formais. Para diagnóstico de autismo conforme padrões internacionais, ADOS-2 (observação) e ADI-R (entrevista de pais) são considerados padrão-ouro. A CARS é instrumento complementar, especialmente útil para quantificar severidade.
  4. Sensível ao estado da criança no dia. Crianças cansadas, com fome ou em estranhamento podem mostrar comportamentos mais alterados. Reaplicar em outra ocasião quando há dúvida sobre fatores transitórios.
  5. Foca em sintomas observáveis externamente. Aspectos internos (ansiedade, perfeccionismo, sensibilidades sensoriais sutis) podem não ser captados adequadamente pela observação direta. Complementar com relato familiar e instrumentos específicos quando indicado.

Modelos de relatório psicopedagógico que apresentam os resultados da CARS de forma estruturada estão disponíveis no Kit de Documentos iPsy.

Fontes

Dúvidas comuns sobre o CARS

Qual a diferença entre a CARS e o M-CHAT-R/F?
O M-CHAT-R/F é uma triagem de risco de autismo em bebês de 16 a 30 meses. A CARS quantifica a intensidade dos comportamentos autistas em crianças que já têm diagnóstico ou estão em investigação. Por isso a CARS costuma vir depois de um M-CHAT-R/F positivo, ou em crianças fora da faixa etária do M-CHAT-R/F.
A CARS fecha diagnóstico de autismo?
Isoladamente, não. A CARS é instrumento de avaliação de severidade e ajuda a fundamentar a hipótese de TEA. O diagnóstico formal exige avaliação multidisciplinar incluindo histórico do desenvolvimento, observação direta, escalas como ADOS-2 e ADI-R, exclusão de diagnósticos diferenciais, e fechamento por psiquiatra infantil ou neuropediatra. A CARS contribui para o quadro diagnóstico, mas não basta.
Qual a diferença entre CARS e CARS-2?
A CARS2 (WPS, 2010) é a segunda edição. A escala padrão (CARS2-ST) equivale à CARS original, com 15 itens; a edição acrescentou a escala de alto funcionamento (CARS2-HF) e um questionário para pais (CARS2-QPC). No Brasil, a versão validada é a CARS-BR, da CARS original (Pereira et al., 2008); a adaptação brasileira da CARS2 ainda estava em estudo em 2024, e a WPS não lista tradução publicada em português.
O psicopedagogo pode aplicar a CARS?
Depende do contexto. Para uso em equipe multidisciplinar como instrumento de avaliação clínica complementar, sim — desde que com treinamento adequado. Para emissão de laudo psicológico formal, a aplicação deve ser feita por psicólogo. O psicopedagogo frequentemente recebe relatórios com pontuação CARS e usa esses dados para o plano de intervenção pedagógica.
A CARS pode ser usada em adultos?
A WPS indica a CARS2 a partir de 2 anos, sem limite superior; a validação brasileira da CARS original (CARS-BR) incluiu crianças e adolescentes de 3 a 17 anos. Para adolescentes mais velhos e adultos, instrumentos mais adequados incluem o ADOS-2 (módulo 4) e escalas específicas como o RAADS-R. A CARS pode ser usada como referência em adolescentes mais velhos com cautela e contextualização.
Quanto tempo demora a aplicação da CARS?
A editora (WPS) informa de 5 a 10 minutos para pontuar a CARS2, depois de reunidas as informações da observação e do relato da família. O tempo de observação e de entrevista varia conforme o caso e, em avaliações mais complexas, pode ser distribuído em duas sessões.