CARS em resumo
- O que é
- A CARS (Childhood Autism Rating Scale) é uma escala de 15 itens, pontuada pelo profissional a partir da observação. Ela quantifica a intensidade dos comportamentos autistas e não fecha diagnóstico sozinha.
- Para que idade
- A CARS é indicada a partir dos 2 anos; a validação brasileira (CARS-BR) foi feita com crianças e adolescentes de 3 a 17 anos. Na CARS2, a escala de alto funcionamento vale a partir de 6 anos.
- Quem pode aplicar
- A CARS é aplicada por psicólogos, psicopedagogos, fonoaudiólogos e outros profissionais com formação em TEA. Para laudo psicológico formal, a aplicação por psicólogo é obrigatória.
- Quanto tempo leva
- Depois de reunidas as informações (observação da criança e relato da família), pontuar a CARS2 leva de 5 a 10 minutos, segundo a editora (WPS); o tempo de observação varia conforme o caso.
A CARS é o instrumento mais usado no mundo para avaliar a severidade do autismo — e provavelmente o mais incompreendido entre os instrumentos de TEA disponíveis no Brasil. Diferente do M-CHAT-R/F, que é triagem de risco em bebês de 16 a 30 meses, a CARS atende uma necessidade diferente: quantificar quão intensos são os comportamentos autistas em crianças que já têm diagnóstico ou estão sendo investigadas. É a ferramenta que responde “qual o nível de suporte essa criança precisa?” — pergunta central no DSM-5.
Este guia explica o que é a CARS, sua estrutura em 15 itens, como aplicar passo a passo, como pontuar, como classificar a severidade e como integrar os achados ao plano de intervenção em casos de autismo. O artigo é direcionado a psicopedagogos, fonoaudiólogos e profissionais que atuam com crianças no espectro.
1. O que é a CARS
A CARS (Childhood Autism Rating Scale — Escala de Avaliação de Autismo Infantil) foi desenvolvida nos Estados Unidos por Eric Schopler e colaboradores na Universidade da Carolina do Norte, no contexto do programa TEACCH; o manual de referência da versão original é de Schopler, Reichler e Renner (WPS, 1988). A segunda edição, CARS2, foi publicada em 2010 pela WPS (Schopler, Van Bourgondien, Wellman e Love) e tem duas escalas de 15 itens — a padrão (CARS2-ST, equivalente à CARS original) e a de alto funcionamento (CARS2-HF) —, além de um questionário para pais que não é pontuado (CARS2-QPC).
É composta por 15 itens, cada um avaliando uma dimensão comportamental relevante no autismo. Para cada item, o aplicador pontua a criança em uma escala de 1 (comportamento típico para a idade) a 4 (comportamento severamente atípico). A soma dos 15 itens resulta em um escore total que classifica a severidade.
Faixa etária
A CARS é indicada a partir dos 2 anos de idade. Na CARS2, a escala padrão (ST) é para crianças menores de 6 anos e para pessoas com dificuldade de comunicação ou QI estimado abaixo da média; a escala de alto funcionamento (HF) é para pessoas verbalmente fluentes, a partir de 6 anos, com QI acima de 80. A validação brasileira da CARS original (CARS-BR) foi feita com crianças e adolescentes de 3 a 17 anos.
2. Os 15 itens da CARS
A CARS investiga 15 dimensões comportamentais centrais do autismo. Cada item é pontuado com base na observação direta da criança, complementada por relato dos pais/cuidadores quando necessário.
| # | Item | O que avalia |
|---|---|---|
| 1 | Relacionamento com pessoas | Como a criança interage com o aplicador e os pais |
| 2 | Imitação | Capacidade de imitar gestos, sons e ações |
| 3 | Resposta emocional | Adequação das reações emocionais ao contexto |
| 4 | Uso do corpo | Coordenação motora e movimentos atípicos |
| 5 | Uso de objetos | Como a criança brinca e manipula objetos |
| 6 | Adaptação à mudança | Tolerância a alterações de rotina ou ambiente |
| 7 | Resposta visual | Padrão de contato visual e atenção visual |
| 8 | Resposta auditiva | Como a criança reage a sons e à voz humana |
| 9 | Resposta gustativa, olfativa e tátil | Padrões sensoriais incomuns |
| 10 | Medo ou nervosismo | Padrão de ansiedade ou medos atípicos |
| 11 | Comunicação verbal | Linguagem expressiva, ecolalia, prosódia |
| 12 | Comunicação não-verbal | Uso de gestos, expressões faciais, contato visual comunicativo |
| 13 | Nível de atividade | Hiperatividade ou hipoatividade atípica |
| 14 | Nível e consistência da resposta intelectual | Padrão de funcionamento cognitivo |
| 15 | Impressão geral | Avaliação clínica geral do aplicador |
Para cada item, o aplicador atribui pontuação de 1 a 4, com possibilidade de pontuações intermediárias (1,5 / 2,5 / 3,5) quando o comportamento está entre dois níveis. A soma dos 15 itens resulta em um escore total que varia de 15 a 60.
3. Quem pode aplicar a CARS
No Brasil, a versão validada é a CARS-BR — tradução e validação da CARS original feita por Pereira, Riesgo e Wagner (2008). A CARS2 não tem versão brasileira publicada: sua adaptação ainda estava em estudo em 2024 (dissertação de mestrado na UFSJ, sob contrato entre a WPS, a Hogrefe e os autores brasileiros), e a WPS lista traduções publicadas só em búlgaro e italiano. A mesma dissertação cita revisão que não encontrou instrumento específico para TEA no SATEPSI. Na consulta ao SATEPSI de 25/09/2026, a CARS também não aparece na lista de testes psicológicos favoráveis nem na de instrumentos não privativos; o único instrumento de rastreio de TEA nessas listas é o M-CHAT, entre os não privativos. De modo geral, a aplicação adequada exige formação em avaliação clínica do desenvolvimento e em transtornos do espectro autista.
Na prática, é aplicada por psicólogos, neuropsicólogos, psicopedagogos, neuropsicopedagogos, fonoaudiólogos e terapeutas ocupacionais com formação específica em TEA. Para fins de laudo psicológico formal, a aplicação por psicólogo é obrigatória. Para uso clínico em equipes multidisciplinares, outros profissionais podem aplicar com responsabilidade compartilhada da equipe.
4. Como aplicar a CARS passo a passo
Material necessário
- Manual da escala com os critérios de cada item: a CARS-BR (Pereira, Riesgo e Wagner, 2008) ou a CARS2, em inglês (WPS)
- Folha de pontuação individual
- Brinquedos diversos para observação durante interação com a criança
- Folha de registro do aplicador para anotações qualitativas
Setting e procedimento
- 1Anamnese prévia com pais ou cuidadores. Antes de observar a criança, levantar histórico do desenvolvimento, marcos atingidos, queixas familiares, contexto escolar. Essa informação ajuda a interpretar comportamentos observados.
- 2Observação semi-estruturada da criança. A CARS não tem itens fixos a aplicar como teste — você observa a criança em situação natural ou em interação dirigida (brincadeira livre, atividades estruturadas, interação social). Cada minuto de observação informa a pontuação dos 15 itens.
- 3Tempo de observação: não há tempo fixo — observe o suficiente para pontuar os 15 itens com segurança, estendendo em casos complexos. A editora informa só o tempo de pontuação da CARS2: 5 a 10 minutos, depois de reunidas as informações.
- 4Pontuação após a observação. Não pontue durante a interação — concentre-se na criança. Pontuação é feita ao final, com base nas anotações qualitativas e na lembrança da observação.
- 5Use o relato dos pais como fonte complementar. Alguns itens (como adaptação à mudança ou medos atípicos) são melhor avaliados por relato familiar do que por observação pontual.
- 6Pontue cada item conforme manual. O manual descreve detalhadamente o que caracteriza cada nível (1, 2, 3, 4) em cada item — siga rigorosamente para garantir consistência.
5. Como classificar a severidade na CARS
A soma dos 15 itens (escore total, de 15 a 60) é convertida em uma classificação de severidade. Na CARS original e na CARS-BR, o ponto de corte para autismo é 30, e as faixas usadas são:
| Escore total | Classificação | Significado |
|---|---|---|
| 15 a 29,5 | Sem autismo | Comportamentos típicos para a idade. Não compatível com TEA pelo critério da CARS. |
| 30 a 36,5 | Autismo leve a moderado | Comportamentos compatíveis com TEA, em intensidade leve a moderada. |
| 37 a 60 | Autismo grave | Comportamentos compatíveis com TEA em intensidade significativa. |
A CARS2-HF (alto funcionamento) tem pontos de corte próprios, descritos no manual da CARS2 — ela foi feita para pessoas verbalmente fluentes, a partir de 6 anos e com QI acima de 80, perfil que pode ser subdetectado pela escala padrão.
Análise por padrão de itens
Mais útil que o escore total isolado é o perfil de pontuação entre os 15 itens:
- Itens de comunicação (11, 12) altos + interação social (1) alta: núcleo clássico do autismo. Foco prioritário na intervenção em comunicação e habilidades sociais.
- Itens sensoriais (7, 8, 9) altos: sugere perfil sensorial atípico significativo. Indicação de avaliação por terapeuta ocupacional especializado em integração sensorial.
- Adaptação à mudança (6) alta + uso de objetos (5) alto: rigidez comportamental marcada. Implica intervenção em flexibilidade cognitiva e tolerância à variação.
- Itens de comunicação preservados (1-2) + escore total acima de 30: sugere perfil de alto funcionamento. Se a pessoa tem 6 anos ou mais, fala fluentemente e tem QI estimado acima de 80, a escala indicada é a CARS2-HF.
- Pontuações distribuídas uniformemente em todos os itens: perfil mais grave. Múltiplas áreas alteradas simultaneamente. Indicação de equipe multidisciplinar com intervenção intensiva.
Para articular a CARS com outros instrumentos da avaliação multidisciplinar (M-CHAT-R/F, ADOS-2, ADI-R, escalas de comportamento adaptativo), use o Seletor de Testes iPsy.
6. Quando usar a CARS na avaliação psicopedagógica
A CARS faz mais sentido em três contextos clínicos específicos:
1. Em crianças que tiveram triagem positiva no M-CHAT-R/F. Após o rastreio inicial em bebês, a CARS oferece avaliação mais aprofundada da severidade. É etapa natural quando o M-CHAT-R/F sinaliza alto risco e a criança é encaminhada para avaliação diagnóstica em equipe.
2. Em crianças mais velhas (3 a 12 anos) com queixa persistente. Quando o M-CHAT-R/F não é mais aplicável (criança fora da faixa etária), a CARS preenche a lacuna como instrumento de avaliação inicial e quantificação de severidade. Veja o guia completo do M-CHAT-R/F para diferenciar quando aplicar cada um.
3. Para acompanhamento longitudinal da severidade. Aplicar CARS em momentos sucessivos (intervalo mínimo de 6 meses entre aplicações) permite documentar mudanças na intensidade dos sintomas ao longo do desenvolvimento e da intervenção. É um dos poucos instrumentos que oferece essa medida quantificável de evolução.
Para a devolutiva e o plano, o material Guia Completo de Transtorno do Espectro Autista cobre sinais por faixa etária, devolutiva à família e orientação à escola, e o Pacote Atividades Adaptadas para TEA traz 30 atividades estruturadas visualmente para a intervenção — os dois na Biblioteca do iPsy, para baixar com conta gratuita.
Para integrar os achados da CARS ao plano de intervenção, instrumentos psicopedagógicos complementares como o ABLLS-R (avaliação funcional baseada em ABA) são fundamentais. O guia completo sobre autismo aprofunda critérios diagnósticos e abordagens de intervenção.
7. Limitações importantes da CARS
- Depende fortemente da experiência do aplicador. A pontuação é baseada em julgamento clínico estruturado. Aplicadores inexperientes tendem a pontuar de forma diferente, comprometendo confiabilidade. Treinamento específico é essencial.
- Pode subestimar autismo de alta funcionalidade. A versão padrão da CARS pode não captar adequadamente perfis com QI preservado e linguagem desenvolvida. A CARS2-HF foi criada para resolver essa lacuna, mas é instrumento à parte.
- Não substitui ADOS-2 nem ADI-R em diagnósticos formais. Para diagnóstico de autismo conforme padrões internacionais, ADOS-2 (observação) e ADI-R (entrevista de pais) são considerados padrão-ouro. A CARS é instrumento complementar, especialmente útil para quantificar severidade.
- Sensível ao estado da criança no dia. Crianças cansadas, com fome ou em estranhamento podem mostrar comportamentos mais alterados. Reaplicar em outra ocasião quando há dúvida sobre fatores transitórios.
- Foca em sintomas observáveis externamente. Aspectos internos (ansiedade, perfeccionismo, sensibilidades sensoriais sutis) podem não ser captados adequadamente pela observação direta. Complementar com relato familiar e instrumentos específicos quando indicado.
Modelos de relatório psicopedagógico que apresentam os resultados da CARS de forma estruturada estão disponíveis no Kit de Documentos iPsy.
Fontes
- Pereira A, Riesgo RS, Wagner MB. (2008). Autismo infantil: tradução e validação da Childhood Autism Rating Scale para uso no Brasil. J Pediatr (Rio J), 84(6), 487-494.
- WPS (Western Psychological Services). (CARS2) Childhood Autism Rating Scale, Second Edition (página oficial do produto).
- Prenassi MS. (2024). Childhood Autism Rating Scale – CARS-2: adaptação transcultural e propriedades psicométricas preliminares para o contexto brasileiro. Dissertação de mestrado, PPGPSI-UFSJ.
- Santos THF, Barbosa MRP, Pimentel AGL, Lacerda CA, Balestro JI, Amato CAH, Fernandes FDM. (2012). Comparação dos instrumentos Childhood Autism Rating Scale e Autism Behavior Checklist na identificação e caracterização de indivíduos com distúrbios do espectro autístico. J Soc Bras Fonoaudiol, 24(1), 104-106.
- Conselho Federal de Psicologia. SATEPSI — Testes Psicológicos Favoráveis (consulta em 25/09/2026).
- Conselho Federal de Psicologia. SATEPSI — Instrumentos Não Privativos do Psicólogo (consulta em 25/09/2026).