Teste de Denver II: Triagem do Desenvolvimento [2026] | iPsy

O Teste de Denver II é o instrumento mais usado no mundo para triagem do desenvolvimento neuropsicomotor de bebês e crianças pequenas — e provavelmente o mais útil quando há suspeita de atraso no desenvolvimento global. Ele permite, em cerca de 30 minutos, identificar se a criança está dentro do esperado em quatro grandes áreas: pessoal-social, motor fino, linguagem e motor grosso. Quando um atraso é detectado, o Denver II direciona o profissional sobre quando e para onde encaminhar.

Este guia explica o que é o Teste de Denver II, qual a diferença para a versão original (DDST), as quatro áreas avaliadas, como aplicar passo a passo, como classificar resultados e em que momento da avaliação ele é especialmente valioso para o psicopedagogo que atua com primeira infância.

O que é o Teste de Denver II

O Teste de Denver II (originalmente conhecido como Denver Developmental Screening Test — DDST-II) é um instrumento de triagem do desenvolvimento de crianças de 0 a 6 anos. Foi criado em 1967 por William Frankenburg e Josiah Dodds nos Estados Unidos, e revisado em 1992, dando origem à versão atual conhecida como Denver II.

O propósito do teste é simples e poderoso: identificar precocemente sinais de atraso no desenvolvimento, sinalizando quando uma criança precisa de avaliação diagnóstica mais aprofundada. É um instrumento de triagem, não de diagnóstico — uma distinção fundamental que muitos profissionais ainda confundem.

Diferente do M-CHAT, que foca especificamente em rastreio de autismo, o Denver II investiga o desenvolvimento de forma global: motor, linguagem, cognição e socialização — todas as principais dimensões do desenvolvimento típico. É a primeira escolha quando a queixa é “atraso no desenvolvimento” sem hipótese específica.

Faixa etária

O Denver II é aplicado em crianças de 0 a 6 anos de idade. É especialmente útil nos primeiros 2 anos de vida, quando o desenvolvimento neurológico é mais rápido e sinais de atraso são mais evidentes. Mas pode (e deve) ser aplicado até os 6 anos sempre que houver dúvida sobre o curso do desenvolvimento.

As 4 áreas avaliadas pelo Denver II

O Denver II organiza seus 125 itens em quatro áreas do desenvolvimento, distribuídos por idade ao longo da escala. Cada item indica uma habilidade específica que a maioria das crianças domina em determinada idade.

ÁreaO que avalia
Pessoal-socialComo a criança se relaciona com pessoas e cuida de si própria. Inclui itens como sorrir socialmente, brincar de “esconde-esconde”, vestir-se sozinho, separar-se sem chorar.
Motor fino-adaptativoCoordenação olho-mão, manipulação de objetos pequenos, capacidade de resolver problemas visuais. Inclui itens como pegar objetos, empilhar cubos, copiar figuras.
LinguagemCompreensão e produção da linguagem oral, vocabulário, articulação. Inclui itens como vocalizar, dizer “papa/mama”, combinar palavras, definir conceitos.
Motor grossoControle postural, locomoção, equilíbrio. Inclui itens como sentar, engatinhar, andar, correr, pular em um pé só.

Cada item do teste é representado em uma folha de aplicação visual, com uma barra horizontal que mostra a faixa de idade em que aquela habilidade aparece em 25%, 50%, 75% e 90% das crianças. Esse design visual permite enxergar imediatamente onde a criança está em relação à norma.

Quem pode aplicar o Denver II

O Denver II é um instrumento de uso amplo, frequentemente utilizado em atenção primária à saúde, programas de visita domiciliar, equipes de avaliação multidisciplinar e contextos escolares. Pode ser aplicado por pediatras, psicopedagogos, neuropsicopedagogos, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, psicólogos e enfermeiros com treinamento específico.

Não está cadastrado no SATEPSI — não é instrumento privativo de psicólogo. Para o psicopedagogo que atua na primeira infância ou com queixas de atraso no desenvolvimento, é uma das ferramentas mais importantes da prática.

Atenção: a aplicação do Denver II exige treinamento específico, especialmente para garantir consistência na avaliação dos itens motores e de linguagem. Aplicações sem formação adequada produzem resultados pouco confiáveis. Cursos de capacitação em Denver II são oferecidos por instituições de saúde e universidades.

Como aplicar o Denver II passo a passo

Material necessário

  • Kit oficial Denver II (com cubos, bola, lápis, papel, sininho, garrafa, brinquedos específicos para os itens motor-fino)
  • Folha de aplicação Denver II (uma por criança)
  • Lápis para marcação
  • Cronômetro (alguns itens são cronometrados)

Setting e instruções gerais

  1. Calcular a idade exata da criança em meses. Para bebês prematuros com menos de 2 anos, usar idade corrigida (idade cronológica menos semanas de prematuridade).
  2. Traçar a linha vertical de idade na folha de aplicação. Essa linha cruzará as barras dos itens — todos os itens à esquerda da linha são esperados para a idade; os à direita ainda não são exigidos.
  3. Aplicar os itens cuja barra é cortada pela linha de idade, mais alguns itens à esquerda e à direita para garantir margem.
  4. Para cada item, registrar: Passou (P), Falhou (F), Recusou (R) ou Não Houve Oportunidade (NHO). Cada código tem implicação diferente na interpretação final.
  5. Incluir os pais na aplicação. Algumas habilidades são melhor observadas em casa do que no consultório — como vestir-se sozinho ou interações sociais espontâneas. Para esses itens, o relato dos pais é aceito como observação válida.
  6. Tempo de aplicação: em média 25 a 35 minutos, podendo variar conforme cooperação da criança.
  7. Observe e registre comportamentos qualitativos: nível de cooperação, atenção, irritabilidade, padrão atípico de movimento ou comunicação. Esses registros enriquecem a interpretação clínica.

Como classificar e interpretar os resultados

Cada item aplicado recebe uma classificação baseada em quanto a criança “atrasou” em relação à norma:

Classificação dos itens individuais

  • Item PASSADO: a criança realizou a habilidade. Não há atraso nesse item.
  • Item de ATENÇÃO ou ALERTA: a criança falhou em um item que 75% a 90% das crianças da sua idade já fazem. Sinaliza fragilidade, mas não atraso significativo isolado.
  • Item de ATRASO: a criança falhou em um item que mais de 90% das crianças da sua idade já fazem. Indica atraso significativo nesse item específico.

Classificação geral do teste

ResultadoCritérioConduta
NormalSem atrasos e no máximo 1 item de alertaAcompanhamento de rotina. Reavaliar conforme necessário.
Suspeito2 ou mais alertas, ou 1 ou mais atrasosReavaliar em 1 a 2 semanas para descartar fatores transitórios (cansaço, estranhamento). Se persistir, encaminhar.
Anormal2 ou mais atrasos em 2 ou mais áreasEncaminhar para avaliação diagnóstica especializada.
Não-testávelRecusas em itens críticosReagendar em momento de melhor cooperação da criança.

Análise por área

O perfil de atrasos por área é o que orienta o encaminhamento:

  • Atraso isolado em linguagem: sugere encaminhamento para fonoaudiólogo. Investigar atenção compartilhada, audição, exposição linguística. Pode ser atraso de fala simples ou sinal de quadros maiores como TEA. Aplicar M-CHAT-R/F como complemento se idade permitir.
  • Atraso isolado em motor grosso: sugere encaminhamento para fisioterapeuta ou neuropediatra. Investigar tônus muscular, reflexos, possível lesão neurológica.
  • Atraso isolado em motor fino-adaptativo: sugere encaminhamento para terapeuta ocupacional. Pode estar associado a dispraxia, hipotonia ou prejuízos visuais.
  • Atraso isolado em pessoal-social: sugere investigação aprofundada para sinais de TEA. Aplicar M-CHAT-R/F obrigatoriamente em crianças entre 16 e 30 meses. Veja o guia completo sobre autismo.
  • Atrasos múltiplos em todas as áreas: sugere atraso global do desenvolvimento. Encaminhamento urgente para avaliação multidisciplinar com neuropediatra. Investigar possíveis quadros sindrômicos, deficiência intelectual ou condições neurológicas.

Para escolher os instrumentos complementares ideais conforme o perfil de atrasos identificado, use o Seletor de Testes iPsy.

Quando usar o Denver II na avaliação psicopedagógica

O Denver II faz mais sentido em contextos específicos da prática psicopedagógica:

1. Triagem inicial em queixas de atraso global do desenvolvimento. Quando pais procuram o psicopedagogo dizendo “ela está atrasada” ou “ele não fala como deveria”, o Denver II é o instrumento de escolha para mapear todas as áreas do desenvolvimento e identificar onde está o atraso real.

2. Em crianças de 0 a 3 anos, antes de aplicar testes mais específicos. Crianças muito pequenas raramente colaboram com testes longos como TDE-II ou PROLEC. O Denver II é desenhado para essa faixa etária e oferece informação rica em pouco tempo.

3. Como instrumento de monitoramento longitudinal. Aplicar o Denver II a cada 3-6 meses em crianças com fatores de risco (prematuridade, baixo peso ao nascer, síndromes genéticas) permite documentar a trajetória do desenvolvimento e identificar precocemente sinais de divergência da norma.

4. Como complemento à anamnese e observação clínica. Mesmo quando o psicopedagogo não usa o Denver II como instrumento principal, conhecer a estrutura do teste enriquece a observação clínica do desenvolvimento — sabendo quais marcos esperar em cada idade.

Modelos de relatório de avaliação do desenvolvimento que apresentam resultados do Denver II de forma profissional estão disponíveis no Kit de Documentos iPsy.

Limitações importantes do Denver II

O Denver II é um excelente instrumento de triagem, mas tem limitações importantes:

  • É triagem, não diagnóstico. Resultado anormal sinaliza necessidade de avaliação aprofundada. Não fecha laudo de TEA, deficiência intelectual ou outros quadros. Para diagnósticos específicos, instrumentos diagnósticos são necessários.
  • Sensibilidade limitada para atrasos sutis. Crianças com atrasos leves ou perfil específico (ex: TEA de alta funcionalidade, atrasos compensados) podem passar pelo Denver II sem serem identificadas. Falsos negativos existem.
  • Normas baseadas em amostra norte-americana. A versão usada no Brasil tem adaptações, mas as normas originais foram construídas com população dos EUA. Diferenças culturais (especialmente em itens pessoal-social e linguagem) podem afetar interpretação.
  • Depende do estado da criança. Crianças cansadas, com fome, doentes ou em estranhamento podem apresentar resultados rebaixados artificialmente. Reaplicar em momento de melhor estado é fundamental quando há suspeita de viés.
  • Não substitui acompanhamento multidisciplinar. Em casos com fatores de risco significativos ou sinais clínicos preocupantes, encaminhar para avaliação especializada mesmo com Denver II normal.

Perguntas frequentes sobre o Teste de Denver II

O Denver II fecha diagnóstico de atraso no desenvolvimento?

Não. O Denver II é instrumento de triagem. Resultado “Anormal” indica que há sinais de atraso e que a criança precisa avaliação diagnóstica aprofundada por equipe multidisciplinar (neuropediatra, fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional, psicopedagogo). O diagnóstico exige instrumentos específicos e história clínica completa.

Qual a diferença entre DDST e Denver II?

O DDST é a versão original do teste, publicada em 1967. O Denver II é a versão revisada de 1992, com 125 itens (vs 105 do DDST), mais itens de linguagem, novos itens em todas as áreas e melhorias na padronização. Em qualquer aplicação atual, prefira o Denver II — o DDST está obsoleto.

Posso aplicar o Denver II sem o kit oficial?

Tecnicamente é possível usar materiais alternativos para alguns itens, mas isso compromete a padronização e a comparabilidade dos resultados. O kit oficial garante que o material apresentado à criança seja o mesmo usado na padronização do teste. Para uso clínico sério, adquirir o kit é essencial.

O psicopedagogo pode aplicar o Denver II?

Sim. O Denver II não é privativo de psicólogo (não está cadastrado no SATEPSI). Pode ser aplicado por psicopedagogos, neuropsicopedagogos, pediatras, fonoaudiólogos e outros profissionais com treinamento específico. Cursos de capacitação são oferecidos por instituições de saúde e universidades.

Devo aplicar o Denver II ou o M-CHAT-R/F?

Os dois instrumentos têm propósitos diferentes. O Denver II é triagem global do desenvolvimento (motor, linguagem, social) e é aplicado de 0 a 6 anos. O M-CHAT-R/F é triagem específica de risco para autismo, aplicado entre 16 e 30 meses. Em crianças nessa faixa etária, é ideal aplicar ambos — o Denver II identifica atrasos globais, o M-CHAT-R/F refina o rastreio para TEA. Os dois se complementam.

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