Conners: Escalas para Avaliação de TDAH [2026] | iPsy

As Escalas Conners são, há mais de cinco décadas, o instrumento mais citado em pesquisas e laudos sobre TDAH em todo o mundo. Quando uma criança chega ao consultório com queixa de desatenção, hiperatividade ou impulsividade, é praticamente certo que pais e professores serão convidados a responder uma versão do Conners. O instrumento tornou-se sinônimo de avaliação comportamental para TDAH, mas vai muito além: também rastreia comorbidades como TOD, problemas de aprendizagem, agressividade e dificuldades de relacionamento. Para psicopedagogos que recebem laudos com escores Conners, entender as 7 escalas e os 3 informantes é o caminho para um plano de intervenção bem articulado.

Este guia explica o que são as Escalas Conners, sua história desde 1969, a versão atual (Conners-3), as três versões por informante (pais, professores, auto-relato), as escalas e índices avaliados, como interpretar resultados e como articular esses achados ao plano psicopedagógico.

O que são as Escalas Conners

As Escalas Conners foram desenvolvidas pelo psiquiatra norte-americano C. Keith Conners em 1969, com o objetivo de avaliar comportamentos associados ao TDAH em crianças. Desde então passaram por revisões sucessivas — Conners de 1989, Conners-R (1997), até a versão atual Conners-3, lançada em 2008. No Brasil, a Conners-3 foi adaptada por Paulo Mattos e colaboradores e é distribuída pela Pearson Brasil.

As escalas são inventários comportamentais heterodescritivos: pais, professores ou o próprio adolescente respondem a uma série de itens sobre frequência de comportamentos típicos de TDAH e transtornos relacionados nos últimos meses. As escalas geram um perfil quantitativo e qualitativo que ajuda no diagnóstico, planejamento de intervenção e monitoramento de evolução.

Faixa etária

  • Conners EC (Early Childhood): 2 a 6 anos (versão pré-escolar)
  • Conners-3: 6 a 18 anos (versão escolar)
  • CAARS (Conners Adult ADHD Rating Scales): 18 anos em diante

Estrutura — escalas, formas e versões

A Conners-3 oferece três versões por informante e duas extensões (completa e abreviada):

Versão por informanteQuem respondeForma completaForma abreviada
Conners-3 P (Pais)Pais ou responsáveis110 itens43 itens
Conners-3 T (Professores)Professor que convive 4+ semanas115 itens41 itens
Conners-3 SR (Auto-relato)Próprio jovem (8-18 anos)99 itens41 itens

Em todas as versões, a Conners-3 oferece:

  • Escalas de Conteúdo: Desatenção, Hiperatividade/Impulsividade, Problemas de Aprendizagem, Função Executiva, Agressividade, Relações Familiares (P/SR), Relações com Pares
  • Escalas de Sintomas DSM-5: TDAH-Desatento, TDAH-Hiperativo/Impulsivo, Transtorno de Conduta, Transtorno Opositivo-Desafiador
  • Escalas de Validade: Impressão Positiva, Impressão Negativa, Inconsistência
  • Itens-chave de Triagem: ansiedade, depressão, ideação suicida

Tempo de aplicação: 20 minutos para a forma completa e 10 minutos para a abreviada.

Quem pode aplicar

A Conners-3 está cadastrada no SATEPSI com parecer favorável e é privativa do psicólogo. Embora o preenchimento seja feito por pais, professores ou jovens, a escolha da versão, a correção, a conversão para escores T e a elaboração do laudo são atos privativos do profissional psicólogo com formação adequada.

O psicopedagogo não aplica a Conners-3, mas frequentemente recebe laudos com escores Conners em avaliações de TDAH, especialmente em crianças encaminhadas para avaliação multidisciplinar. Saber ler os perfis das 3 versões (pais x professores x jovem) e articular as escalas de conteúdo com o plano pedagógico é uma competência central.

Atenção: aplicar testes psicológicos privativos do psicólogo (incluindo a Conners-3) sem ser psicólogo pode configurar exercício ilegal da profissão. A Resolução CFP nº 31/2022 e a Lei nº 4.119/1962 são claras: avaliação psicológica é ato privativo. O psicopedagogo trabalha com instrumentos psicopedagógicos livres (como o SNAP-IV, que tem livre acesso) e com interpretação de laudos com Conners.

Como a Conners é aplicada

Material necessário

  • Manual técnico da Conners-3 (Pearson Brasil)
  • Cadernos de aplicação para cada versão (Pais, Professores, Auto-relato)
  • Folhas de respostas e correção
  • Tabelas normativas por idade e sexo
  • Software de correção (opcional, agiliza tabulação)

Setting e procedimento

  1. Selecionar versão e forma. Decidir entre Conners-3 P, T ou SR — e entre forma completa (mais detalhada) ou abreviada (rastreio rápido).
  2. Coletar em múltiplas fontes. O padrão-ouro inclui pais E professor E auto-relato (quando idade permite). Avaliação multifonte é central — TDAH exige sintomas em múltiplos contextos.
  3. Entregar instruções claras. O respondente deve avaliar a frequência de cada comportamento no último mês (nos últimos 6 meses, em alguns casos), em escala Likert de 4 pontos.
  4. Acompanhar preenchimento. Tempo médio de 10 a 20 minutos. Esclarecer itens sem induzir respostas. Garantir que o respondente lê todos os itens.
  5. Verificar índices de validade. Antes de interpretar conteúdo, verificar Impressão Positiva (defesa), Impressão Negativa (exagero) e Inconsistência. Resultados fora invalidam o protocolo.
  6. Tabular escores brutos. Cada escala recebe um escore bruto somando os itens correspondentes.
  7. Converter em escores T. Usar tabelas normativas por idade e sexo. Escore T = 50 ± 10 representa a média populacional.
  8. Comparar perfis entre informantes. Análise cruzada pais x professores x auto-relato é parte essencial da interpretação clínica.

Como interpretar os resultados

Como o BRIEF, a Conners-3 usa escores T (média 50, desvio-padrão 10). Quanto maior o escore, mais comprometimento:

Escore TClassificaçãoO que indica
≤ 59MédioFuncionamento típico — pouca preocupação clínica
60 a 64Levemente atípicoSinais subclínicos — monitorar
65 a 69Moderadamente atípicoPrejuízo provável — investigar
70 a 79Acentuadamente atípicoPrejuízo significativo — intervenção indicada
≥ 80Muito atípicoPrejuízo severo — alta prioridade

Análise por padrão clínico

  • Desatenção elevada com Hiperatividade na média: perfil compatível com TDAH apresentação predominantemente desatenta. Mais frequente em meninas e em adolescentes. Veja o guia completo sobre TDAH.
  • Hiperatividade/Impulsividade elevada com Desatenção na média: perfil compatível com TDAH apresentação hiperativo-impulsiva. Mais comum em pré-escolares e crianças menores.
  • Ambas escalas DSM-5 elevadas (Desatenção + Hiperatividade): TDAH apresentação combinada — o subtipo mais frequente em meninos em idade escolar.
  • TDAH + Transtorno Opositivo-Desafiador elevados: comorbidade frequente. Exige plano de intervenção que articule manejo de TDAH e estratégias para conduta opositora. Veja o guia sobre TOD.
  • Discrepância grande entre pais e professores: sintomas só na escola sugerem dificuldade pedagógica, conflito com professor ou inadequação curricular. Sintomas só em casa sugerem dinâmica familiar ou ambiente sem estrutura. Investigação contextual é fundamental.

Para articular achados Conners com instrumentos psicopedagógicos diretos (provas operatórias, sondagens, PROLEC), use o Seletor de Testes iPsy.

Quando usar na avaliação psicopedagógica

1. Recebimento de laudo neuropsicológico ou psiquiátrico. A Conners costuma aparecer junto com outras escalas (BRIEF, SNAP-IV) e instrumentos cognitivos. O psicopedagogo precisa traduzir o perfil em hipóteses pedagógicas: “atenção sustentada rebaixada → tarefas curtas e fragmentadas; impulsividade alta → estratégias de auto-monitoramento”. O Kit de Documentos iPsy traz modelos de plano de intervenção por escala.

2. Articulação com avaliação psicopedagógica própria. Os resultados Conners devem dialogar com a avaliação psicopedagógica direta — sondagens, observação em sala, provas operatórias. Coerência entre Conners e avaliação reforça a hipótese; discrepância merece investigação. Use o Seletor de Testes iPsy para escolher os instrumentos psicopedagógicos complementares.

3. Conversa estruturada com a escola. A versão Professores da Conners-3 é particularmente útil quando o psicopedagogo precisa reunir-se com a coordenação escolar. Os escores objetivos servem como base para conversa profissional — saem do campo da impressão pessoal.

4. Monitoramento de evolução em casos de TDAH. Reaplicação da Conners após 6 a 12 meses de intervenção (pedagógica, psicológica, medicamentosa) documenta ganhos. Particularmente útil para discutir manutenção ou ajuste de medicação com o médico assistente.

Limitações importantes

  • Medida indireta, dependente do informante. A Conners não observa o comportamento — pergunta a quem observa. Pais ansiosos podem superestimar; professores sobrecarregados podem subestimar. Por isso a coleta multifonte é essencial.
  • Não fecha diagnóstico isoladamente. Mesmo escores Conners muito elevados não fecham diagnóstico de TDAH ou TOD. Diagnóstico exige avaliação clínica multidisciplinar com critérios DSM-5 e exclusão de outras causas.
  • Sensível a viés cultural. A Conners-3 foi adaptada e normatizada para o Brasil, mas a interpretação ainda pode ser afetada por diferenças culturais entre o respondente e a normatização — especialmente em famílias ou escolas com padrões educacionais muito distintos.
  • Não diferencia TDAH de outros quadros com sobreposição sintomática. Ansiedade severa, transtornos do humor e algumas formas de transtornos do espectro autista podem mimetizar sintomas de desatenção e exigem investigação complementar com instrumentos como CARS ou M-CHAT.
  • Tempo de aplicação longo na forma completa. 20 minutos por informante × 3 informantes = 60 minutos só de preenchimento. Em contextos com tempo limitado, a forma abreviada (Conners-3 AI) é uma alternativa para rastreio.

Perguntas frequentes sobre Conners

O psicopedagogo pode aplicar a Conners-3?

Não. A Conners-3 está cadastrada no SATEPSI e é privativa do psicólogo. O psicopedagogo recebe laudos com resultados Conners e os interpreta no contexto do plano pedagógico, mas não aplica nem corrige. Para escalas de TDAH de livre acesso (não privativas), o psicopedagogo pode usar o SNAP-IV.

A Conners fecha diagnóstico de TDAH?

Não isoladamente. A Conners é um dos instrumentos mais usados na avaliação de TDAH, mas o diagnóstico exige sintomas presentes desde a infância, em múltiplos contextos, com prejuízo funcional, conforme critérios DSM-5. A escala fornece evidência quantitativa importante, mas não substitui avaliação clínica integrada.

Quanto tempo demora a aplicação?

A forma completa leva cerca de 20 minutos por informante; a forma abreviada, cerca de 10 minutos. Para coleta multifonte (pais + professor + auto-relato), o tempo total de preenchimento gira em torno de 60 minutos. O profissional psicólogo gasta tempo adicional em correção, interpretação e elaboração do laudo.

Qual a diferença entre Conners-3 e SNAP-IV?

O SNAP-IV é uma escala mais curta (26 itens) baseada estritamente nos sintomas DSM-IV/5 de TDAH e TOD, de livre acesso. A Conners-3 é uma bateria muito mais ampla (99-115 itens), com escalas de conteúdo, escalas DSM-5, escalas de validade e itens-chave de triagem para ansiedade/depressão. SNAP-IV serve para rastreio rápido; Conners-3 para avaliação clínica detalhada.

Qual a diferença entre Conners-3 e Conners de 1989?

A Conners-3 (2008) é uma reformulação completa, não apenas uma atualização. Tem itens redesenhados conforme DSM-5, escalas de validade que a versão antiga não tinha, normatização atualizada e melhores propriedades psicométricas. Versões antigas da Conners (Conners-R, Conners de 1989) não devem mais ser usadas — somente a Conners-3 é considerada vigente no SATEPSI.

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