Trail Making: Teste de Trilhas A e B [2026] | iPsy

Ligar 25 números em ordem crescente em uma folha — depois alternar entre números e letras na mesma tarefa — pode parecer brincadeira de criança, mas é um dos testes neuropsicológicos mais usados no mundo para medir flexibilidade cognitiva. O Trail Making Test, desenvolvido em 1944 e ainda hoje peça obrigatória em quase toda bateria de funções executivas, separa duas funções aparentemente próximas mas neurologicamente distintas: a velocidade de varredura visual com sequenciamento simples (parte A) e a capacidade de alternar entre dois conjuntos mentais (parte B). Essa diferença é tudo. Para psicopedagogos que recebem laudos com TMT, ler o que dizem os tempos de A e B — e a relação B/A — é entender se a criança consegue manter ritmo cognitivo ou se trava ao alternar tarefas.

Este guia explica o que é o Trail Making Test, sua história, as duas partes (TMT-A e TMT-B), as versões brasileiras, como interpretar resultados, padrões clínicos típicos e como articular esses achados ao plano psicopedagógico em casos de TDAH e disfunções executivas.

O que é o Trail Making Test

O Trail Making Test (TMT) — em português Teste de Trilhas — surgiu como parte da Army Individual Test Battery em 1944, durante a Segunda Guerra Mundial, para avaliar funções cognitivas em recrutas militares. Foi posteriormente refinado e padronizado por Ralph Reitan e Deborah Wolfson nas décadas seguintes, e tornou-se peça central da Bateria Halstead-Reitan e da maioria das baterias neuropsicológicas modernas.

O TMT é classificado como teste neuropsicológico de aplicação direta. Mede:

  • Velocidade de varredura visual (TMT-A) — quão rápido o cérebro localiza e processa estímulos no espaço
  • Velocidade de processamento e atenção sustentada (TMT-A)
  • Coordenação visuomotora (uso do lápis para conectar estímulos)
  • Flexibilidade cognitiva (TMT-B) — alternar entre dois conjuntos mentais (números e letras)
  • Memória de trabalho (TMT-B) — manter as duas sequências ativas simultaneamente
  • Sequenciamento — ordem crescente de números e ordem alfabética de letras

No Brasil, há versões adaptadas para infância (Hamdan, 2008; Montiel, 2009) e versões adultas validadas (Hamdan; Campanholo; Charchat-Fichman). Algumas versões internacionais como o D-KEFS Trail Making também são usadas em pesquisa e em alguns serviços clínicos.

Faixa etária

  • TMT infantil: 7 a 15 anos (versão adaptada com normas brasileiras)
  • TMT adulto: 16 anos em diante (formato clássico Reitan)
  • TMT idoso: normas específicas para população idosa, sensível para detectar declínio cognitivo

Antes dos 7 anos, o TMT é inadequado — exige conhecimento consolidado de números e do alfabeto, e capacidade de varredura visual ainda em desenvolvimento.

Estrutura — duas partes, duas funções

O TMT clássico tem duas partes, aplicadas sequencialmente:

ParteTarefaO que mede principalmente
TMT-AConectar 25 círculos numerados de 1 a 25 em ordem crescente, com lápis, sem tirar a mão do papel, o mais rápido possívelVelocidade de varredura visual, atenção sustentada, sequenciamento numérico, coordenação visuomotora
TMT-BConectar alternadamente 25 círculos com números (1-13) e letras (A-L), na sequência 1-A-2-B-3-C… até 13Tudo da parte A + flexibilidade cognitiva (alternar entre números e letras), memória de trabalho

O comparativo entre as duas partes é central. A diferença entre TMT-B e TMT-A (ou a razão B/A) é uma medida sensível de flexibilidade cognitiva — quanto custa para o cérebro alternar entre dois conjuntos mentais. Em pessoas saudáveis, B é mais lento que A, mas dentro de um intervalo previsível. Em pessoas com disfunção executiva, B fica desproporcionalmente lento.

Quem pode aplicar

As versões padronizadas brasileiras do TMT estão cadastradas no SATEPSI e são privativas do psicólogo. Apenas profissionais com inscrição ativa no CRP e formação em avaliação neuropsicológica estão habilitados a aplicar, corrigir e elaborar laudo formal com base no Trail Making.

O psicopedagogo não aplica o TMT padronizado. Mas frequentemente recebe laudos neuropsicológicos com TMT em avaliações de TDAH, transtornos da aprendizagem, disfunção executiva e em baterias amplas. Decifrar os tempos de A, B e a razão B/A é parte essencial da leitura do laudo.

Atenção: aplicar testes psicológicos privativos do psicólogo (incluindo o TMT padronizado) sem ser psicólogo configura exercício ilegal da profissão. A Resolução CFP nº 31/2022 e a Lei nº 4.119/1962 são claras: avaliação psicológica é ato privativo. Atividades pedagógicas baseadas em sequenciamento e alternância (jogos de “caça ao tesouro”, liga-pontos com regras) são técnicas psicopedagógicas legítimas — desde que sem pretensão de medida psicométrica.

Como o TMT é aplicado

Material necessário

  • Manual técnico da versão adotada (Hogrefe, Vetor ou outras)
  • Folhas de teste com os círculos impressos (TMT-A e TMT-B, mais folha de exemplo de cada)
  • Lápis preto (sem borracha visível)
  • Cronômetro silencioso
  • Folha de registro de tempo, erros e autocorreções
  • Mesa em ambiente silencioso, com boa iluminação

Setting e procedimento

  1. Verificação de pré-requisitos. Antes do TMT, verificar acuidade visual, capacidade motora fina (segurar e usar lápis) e conhecimento adequado de números e alfabeto.
  2. Apresentação do exemplo TMT-A. O aplicador mostra a folha de exemplo (8 círculos), explica a tarefa e pede que o examinando faça o exemplo. Corrige erros e esclarece dúvidas.
  3. Aplicação TMT-A cronometrada. Apresenta a folha completa com 25 círculos. Instrução: “Conecte os números em ordem crescente, do 1 ao 25, sem levantar o lápis do papel, o mais rápido que conseguir.” Cronômetro inicia ao primeiro toque do lápis.
  4. Correção em tempo real. Se o examinando comete erro (pula um número, conecta na ordem errada), o aplicador interrompe imediatamente e pede que retorne ao último círculo correto. O cronômetro continua correndo.
  5. Apresentação do exemplo TMT-B. Após o TMT-A, mostra a folha de exemplo do TMT-B (também 8 círculos), explica a alternância entre números e letras, e pede que o examinando faça.
  6. Aplicação TMT-B cronometrada. Apresenta a folha completa com 25 círculos misturando números (1-13) e letras (A-L). Instrução: “Conecte alternando: 1-A-2-B-3-C… e assim por diante até o final, o mais rápido possível, sem levantar o lápis do papel.”
  7. Registro completo. Para cada parte: tempo total em segundos, número de erros, número de autocorreções, observações qualitativas (hesitações, perdas de sequência).
  8. Conversão em escores normativos. Os tempos brutos são convertidos em percentis ou escores Z conforme tabela normativa por idade e escolaridade.

Como interpretar os resultados

O TMT produz três medidas centrais: tempo TMT-A, tempo TMT-B e a razão B/A (ou diferença B−A). A interpretação combina as três:

MedidaO que avaliaPadrão típico
TMT-A em segundosVelocidade de varredura e processamentoAdultos: 25-40s típico; rebaixado se > 78s
TMT-B em segundosVelocidade + flexibilidade cognitivaAdultos: 60-100s típico; rebaixado se > 273s
Razão B/ACusto da alternância — flexibilidade puraAdultos saudáveis: razão entre 2,0 e 3,0
Diferença B−ATempo “extra” da alternânciaQuanto maior, mais difícil é alternar
Erros e autocorreçõesMonitoramento e impulsividadeErros sem correção = falha de monitoramento

Análise por padrão clínico

  • TMT-A rebaixado isoladamente: sugere lentidão de processamento ou problema visuomotor. Pode aparecer em quadros depressivos, ansiedade severa, ou em prejuízo motor. Razão B/A pode estar normal — não há falha específica de alternância.
  • TMT-A normal + TMT-B rebaixado + razão B/A elevada: padrão clássico de disfunção executiva — falha específica de flexibilidade cognitiva. Compatível com TDAH e com lesões pré-frontais. Veja o guia sobre TDAH.
  • Ambos rebaixados com razão preservada: sugere lentidão geral, não falha específica de alternância. Investigar lentidão de processamento, fadiga ou estado emocional comprometido.
  • Erros frequentes sem autocorreção (especialmente em B): falha de monitoramento e impulsividade. Compatível com TDAH com componente impulsivo dominante. Articular com Stroop para confirmar perfil de inibição.
  • Aumento progressivo de tempo ao longo da tarefa (lentidão crescente): sugere fadiga cognitiva precoce — atenção sustentada comprometida. Comum em TDAH e em quadros de baixo arousal cortical.

Para articular o laudo TMT com instrumentos psicopedagógicos próprios, use o Seletor de Testes iPsy e organize a triagem antes da reunião com a família.

Quando usar na avaliação psicopedagógica

1. Recebimento de laudo neuropsicológico em casos de TDAH. O TMT é peça central de qualquer bateria executiva. Razão B/A elevada confirma falha de flexibilidade — informação útil para estratégias pedagógicas que minimizem alternância de tarefas em pico de fadiga.

2. Articulação com queixa de “trava ao mudar de tarefa”. Crianças com queixa do tipo “demora muito para sair de uma atividade e começar outra” ou “esquece o que estava fazendo no meio do caminho” frequentemente têm TMT-B rebaixado. Plano pedagógico precisa prever transições explícitas, sinalizadas, com tempo. O Kit de Documentos iPsy traz modelos de plano com gestão de transições.

3. Avaliação multidisciplinar de funções executivas. TMT, Stroop, Wisconsin e BRIEF formam o “núcleo duro” da avaliação executiva. O psicopedagogo usa o laudo neuropsicológico como mapa amplo e aplica instrumentos psicopedagógicos próprios para complementar — provas operatórias, sondagens, observação. Para escolher os instrumentos psicopedagógicos, use o Seletor de Testes iPsy.

4. Monitoramento de evolução em casos com tratamento. O TMT-B é sensível a efeito de medicação estimulante em TDAH e a efeito de intervenção pedagógica focada em flexibilidade cognitiva. Reaplicações documentam ganhos objetivos.

Limitações importantes

  • Mede aspectos específicos das funções executivas. O TMT foca em velocidade, flexibilidade e (em B) memória de trabalho — não avalia inibição (melhor pelo Stroop), planejamento (Torre de Londres) ou raciocínio abstrato. É parte de uma bateria, nunca substituto.
  • Sensível a problemas motores e visuais. Crianças com prejuízo de coordenação motora fina ou problemas visuais (mesmo subclínicos) podem ter TMT rebaixado por motivo não-cognitivo. Verificação prévia é essencial.
  • Dependente de conhecimento prévio. Exige sequência de números até 25 e alfabeto até L automatizados. Crianças menores ou com prejuízo na aprendizagem desses conteúdos terão TMT rebaixado por motivo de conhecimento, não de função executiva.
  • Não fecha diagnóstico isoladamente. Razão B/A elevada é forte indício de disfunção executiva, mas não fecha diagnóstico de TDAH ou outro transtorno. Diagnóstico exige sintomas em múltiplos contextos e critérios clínicos DSM-5/CID-11.
  • Variabilidade entre versões e normas. Diferentes versões brasileiras do TMT têm normas distintas. É importante saber qual versão foi aplicada para interpretar adequadamente — informação que sempre consta no laudo.

Perguntas frequentes sobre Trail Making

O psicopedagogo pode aplicar o Teste de Trilhas?

Não, nas versões padronizadas. O TMT brasileiro está cadastrado no SATEPSI e é privativo do psicólogo. O psicopedagogo recebe laudos com TMT e os interpreta no plano pedagógico. Atividades baseadas no princípio de sequenciamento e alternância (caça ao tesouro com regras, liga-pontos crescentes) são técnicas psicopedagógicas livres — sem pretensão psicométrica.

O Trail Making fecha diagnóstico de TDAH?

Não isoladamente. O TMT é uma das peças mais relevantes para investigação de TDAH, fornecendo medida objetiva de flexibilidade cognitiva e velocidade. Mas o diagnóstico exige sintomas em múltiplos contextos, prejuízo funcional, critérios DSM-5 e avaliação multidisciplinar.

Quanto tempo demora a aplicação do TMT?

A aplicação propriamente dita leva entre 5 e 10 minutos para as duas partes. Em casos de extrema lentidão ou ansiedade, pode chegar a 15-20 minutos. A correção e tabulação pelo psicólogo levam mais 15-20 minutos. Em baterias neuropsicológicas, o TMT costuma vir junto com Stroop e outros instrumentos executivos.

Qual a diferença entre Trail Making e Stroop?

O Stroop mede inibição cognitiva (suprimir resposta automática) e atenção seletiva. O TMT mede velocidade de processamento (parte A) e flexibilidade cognitiva (parte B — alternar entre conjuntos mentais). São complementares — TDAH frequentemente apresenta rebaixamento em ambos, mas em padrões distintos. Articular Stroop com TMT é prática-padrão em avaliação executiva.

O TMT serve para crianças menores de 7 anos?

Não. O TMT exige conhecimento consolidado de números (até 25) e do alfabeto (até L), e capacidade de varredura visual ainda em desenvolvimento antes dos 7 anos. Em pré-escolares, instrumentos como Teste de Denver ou subtestes específicos do NEUPSILIN-Inf avaliam funções executivas de forma mais adequada à idade.

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