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Linguagem e Leitura

CONFIAS: Avaliação da Consciência Fonológica [2026]

Equipe iPsy
Atualizado em set/202610 min de leitura
Psicopedagogia e neuropsicopedagogia
Faixa etária
4+ anos
Quem aplica
Fono/Psicopedagogo
Categoria
Linguagem e Leitura

O CONFIAS é o instrumento mais usado no Brasil para avaliar consciência fonológica — habilidade cognitiva considerada hoje o melhor preditor isolado de sucesso na alfabetização e o principal marcador de risco para dislexia. Quando uma criança não consegue ouvir que “pato” e “rato” rimam, ou que “casa” e “carro” começam com o mesmo som, o problema raramente é apenas auditivo. É um déficit no processamento fonológico — e o CONFIAS é o que permite medir isso de forma estruturada.

Este guia explica o que é o CONFIAS, sua estrutura em duas dimensões (silábica e fonêmica), como aplicar passo a passo, como interpretar resultados e como usar os achados para fundamentar hipóteses de dislexia ou planejar intervenção em consciência fonológica.

1. O que é o CONFIAS

O CONFIAS (Consciência Fonológica: Instrumento de Avaliação Sequencial) é um instrumento brasileiro de autoria de Sonia Moojen, Regina Lamprecht, Rosangela M. Santos, Gabriela M. Freitas, Raquel Brodacz, Maity Siqueira, Adriana Corrêa Costa e Elizabet Guarda, publicado em 2003 pela Casa do Psicólogo e hoje comercializado pela Hogrefe. Segundo a editora, é indicado para crianças a partir dos 4 anos, no trabalho com crianças não alfabetizadas e em processo de alfabetização e no tratamento de dificuldades e/ou transtornos de aprendizagem — e permite investigar as capacidades fonológicas em relação às hipóteses de escrita de Ferreiro e Teberosky.

O nome do instrumento reflete sua característica central: a avaliação é sequencial, organizada em ordem crescente de complexidade fonológica, partindo das tarefas mais simples (sílabas) até as mais difíceis (fonemas). Essa estrutura permite identificar exatamente em que nível de consciência fonológica está a quebra, se houver.

Por que avaliar consciência fonológica?

A consciência fonológica é a capacidade de refletir sobre os sons da fala — perceber que palavras são compostas por sílabas, que sílabas são compostas por fonemas, que palavras podem rimar, que sons podem ser identificados, manipulados e combinados. Diferente da audição (que é sensorial) ou da fala (que é motora), a consciência fonológica é uma habilidade cognitiva metalinguística.

Pesquisas em neurociência da leitura demonstram que a consciência fonológica é o preditor mais forte de sucesso na alfabetização. Crianças com baixa consciência fonológica antes da alfabetização têm risco significativo de desenvolver dificuldades na leitura. Ao mesmo tempo, déficits persistentes em consciência fonêmica são marcadores centrais de dislexia.

2. As duas dimensões do CONFIAS

O CONFIAS organiza suas tarefas em duas dimensões hierárquicas, cada uma com vários subtestes:

DimensãoO que avaliaQuantidade de tarefas
SílabaCapacidade de refletir sobre sílabas como unidades sonoras9 tarefas
FonemaCapacidade de refletir sobre fonemas individuais7 tarefas

Dimensão silábica — 9 tarefas

As tarefas silábicas, na ordem em que aparecem no instrumento, são:

  1. Síntese silábica: juntar sílabas para formar palavra (“Ca-sa = casa”)
  2. Segmentação silábica: separar palavra em sílabas (“Casa = ca-sa”)
  3. Identificação da sílaba inicial: reconhecer o primeiro pedaço da palavra
  4. Identificação de rima: identificar palavras que terminam com mesmo som
  5. Produção de palavra com sílaba dada: gerar palavras a partir de uma sílaba
  6. Identificação de sílaba medial: identificar a sílaba do meio
  7. Produção de rima: criar palavras que rimam
  8. Exclusão silábica: retirar uma sílaba e dizer o que sobra (“Sapato sem sa = pato”)
  9. Transposição silábica: inverter a ordem de sílabas

Dimensão fonêmica — 7 tarefas

As tarefas fonêmicas são mais complexas e exigem que a criança trabalhe com unidades menores que a sílaba — os fonemas. Incluem:

  1. Produção de palavra com fonema dado: gerar palavra que comece com som específico
  2. Identificação do fonema inicial: reconhecer o primeiro som da palavra
  3. Identificação de fonema final: reconhecer o último som
  4. Exclusão fonêmica: retirar um fonema e dizer o que sobra
  5. Síntese fonêmica: juntar fonemas para formar palavra (“/p/ /a/ /t/ /o/ = pato”)
  6. Segmentação fonêmica: separar palavra em fonemas individuais
  7. Transposição fonêmica: manipular ordem de fonemas

A diferença entre as duas dimensões é teoricamente importante: quase todas as crianças desenvolvem consciência silábica naturalmente com a exposição à oralidade, mas a consciência fonêmica geralmente exige instrução formal — emerge na e através da alfabetização. Por isso, dificuldades persistentes em consciência fonêmica são mais sugestivas de dislexia que dificuldades em consciência silábica.

3. Quem pode aplicar o CONFIAS

Na loja da Hogrefe, o CONFIAS aparece classificado como material não restrito a psicólogos, e a descrição da editora o destina ao trabalho com crianças em alfabetização e com dificuldades de aprendizagem. É usado em pesquisas brasileiras sobre consciência fonológica e alfabetização. Na consulta ao SATEPSI de 25/09/2026, o CONFIAS não aparece na lista de testes psicológicos favoráveis nem na de instrumentos não privativos do psicólogo.

Para psicopedagogos que investigam queixas de dificuldade de leitura ou hipótese diagnóstica de dislexia, o CONFIAS é instrumento de aplicação frequente. Treinamento prévio na aplicação é importante para garantir consistência nas instruções e na pontuação.

4. Como aplicar o CONFIAS passo a passo

Material necessário

  1. Manual
  2. Caderno de aplicação
  3. Conjunto de 6 pranchas
  4. Folha de respostas individual

Setting e procedimento

  1. 1Ambiente: sala silenciosa, sem ruído externo. A criança precisa ouvir cada estímulo com clareza.
  2. 2Aplicação individual. O CONFIAS não pode ser aplicado em grupo — cada resposta exige observação e registro imediato.
  3. 3Acolhimento: “Vamos brincar com os sons das palavras. Vou te dar algumas pistas e você me diz o que acha.” Crie ambiente lúdico.
  4. 4Sequência: seguir a ordem do instrumento: primeiro a parte silábica, depois a fonêmica.
  5. 5Itens de demonstração: cada tarefa começa com itens de exemplo, em que o aplicador mostra como fazer. Só após a criança compreender, aplicar os itens de teste.
  6. 6Registro imediato: anotar a resposta de cada item na folha de respostas, seguindo as instruções do manual.
  7. 7Tempo: a editora não informa um tempo padrão. Em estudo publicado na Revista CEFAC com crianças de 2ª série, cada aplicação individual durou cerca de 20 minutos. Para crianças mais novas, pode-se dividir em duas sessões.

5. Como pontuar e interpretar o CONFIAS

Cada resposta correta vale 1 ponto e cada incorreta, zero. O máximo é 40 pontos na parte silábica e 30 na fonêmica, somando 70 pontos. Além do total por tarefa, por nível e geral, a editora destaca que o instrumento permite relacionar o desempenho às hipóteses de escrita (Ferreiro e Teberosky) e fornece dados para análise qualitativa, feita a partir da experiência do profissional.

Análise por padrão

O verdadeiro valor diagnóstico do CONFIAS está no padrão entre as dimensões silábica e fonêmica:

  1. Consciência silábica preservada + consciência fonêmica severamente rebaixada: padrão clássico de dislexia. A criança consegue refletir sobre sílabas (capacidade desenvolvida na pré-alfabetização) mas não consegue manipular fonemas — habilidade central da leitura alfabética. Forte indicador para encaminhamento de avaliação multidisciplinar de dislexia.
  2. Consciência silábica e fonêmica ambas severamente rebaixadas: sugere déficit fonológico amplo. Pode estar associado a quadros mais sérios — atraso global de linguagem, deficiência intelectual ou prejuízos auditivos não detectados. Investigação aprofundada é necessária.
  3. Consciência silábica e fonêmica ambas adequadas: consciência fonológica preservada. Se a criança ainda apresenta dificuldades de leitura, investigar outros fatores: atenção, processamento ortográfico, fluência, motivação. O PROLEC ajuda a refinar a hipótese.
  4. Tarefas iniciais preservadas + falhas crescentes nas mais complexas: sugere consciência fonológica em desenvolvimento, mas ainda imatura para a idade. Pode beneficiar-se de intervenção fonológica estruturada, sem necessariamente caracterizar dislexia.
  5. Erros sistemáticos em rima e identificação de sons iniciais: dificuldade em discriminação fonológica. Investigar audição (audiograma) antes de inferir déficit cognitivo.

Para investigar processos de leitura em conjunto, complementar com o PROLEC e o TDE-II. Para uma bateria completa de avaliação fonológica e leitora, use o Seletor de Testes iPsy.

6. Quando usar o CONFIAS na avaliação psicopedagógica

O CONFIAS é especialmente útil em três contextos clínicos:

1. Investigação de hipótese de dislexia. Quando há queixa persistente de dificuldade de leitura, avaliar consciência fonológica é etapa obrigatória. Resultado severamente rebaixado em consciência fonêmica é forte indicador de dislexia fonológica e fundamenta o encaminhamento para equipe multidisciplinar. Veja o guia completo sobre dislexia.

2. Triagem em pré-alfabetização. Em crianças de 5-6 anos, o CONFIAS pode identificar precocemente quem tem fatores de risco para desenvolver dificuldades na alfabetização. Intervenção em consciência fonológica antes da alfabetização tem alta eficácia preventiva.

Para essa intervenção precoce, o Pacote Consciência Fonológica traz 30 atividades por nível — palavra, rima, aliteração, segmentação silábica e fonêmica —, para baixar com conta gratuita; e, quando a família chega só com a queixa de leitura, a triagem de dislexia do iPsy é um primeiro rastreio gratuito, não um diagnóstico.

3. Acompanhamento de intervenção em consciência fonológica. Aplicar CONFIAS no início e ao final de processos de intervenção fonológica (com 4-6 meses de intervalo) permite documentar evolução de forma objetiva. É um dos instrumentos mais sensíveis para mostrar progresso em consciência fonológica.

Modelos de relatório que apresentam os resultados do CONFIAS de forma estruturada estão disponíveis no Kit de Documentos iPsy.

7. Limitações importantes do CONFIAS

  1. Sensível a sotaques regionais. Algumas tarefas dependem de articulação específica. Em regiões com sotaques fortemente diferenciados, pode ocorrer subestimação ou superestimação de dificuldades.
  2. Não cobre adolescentes. A editora o indica para crianças a partir dos 4 anos, não alfabetizadas ou em processo de alfabetização. Para adolescentes com queixa de leitura, instrumentos complementares são necessários.
  3. Sensível à atenção e fadiga. A aplicação exige atenção sustentada. Crianças com TDAH podem apresentar resultados rebaixados não por déficit fonológico, mas por fatores atencionais. Considerar contexto.
  4. Não substitui audiograma. Antes de afirmar déficit fonológico, é importante excluir prejuízos auditivos. Crianças com audição limítrofe podem apresentar perfil semelhante ao de dislexia.
  5. Não fecha diagnóstico de dislexia isoladamente. Mesmo um CONFIAS muito rebaixado não basta. O diagnóstico de dislexia exige avaliação multidisciplinar com instrumentos como PROLEC, TDE-II, avaliação de inteligência e história clínica completa.

Fontes

Dúvidas comuns sobre o CONFIAS

O CONFIAS substitui outros testes de leitura?
Não. O CONFIAS avalia uma habilidade específica — consciência fonológica — que é pré-requisito da leitura alfabética. Mas não avalia a leitura propriamente dita (decodificação, fluência, compreensão). Para uma avaliação completa, deve ser usado em conjunto com PROLEC, TDE-II e sondagem de leitura.
Posso aplicar o CONFIAS em criança que já lê bem?
Sim, mas o ganho informativo pode ser limitado. Em leitores fluentes, a consciência fonológica geralmente está preservada, e o CONFIAS confirmaria isso sem trazer informação nova. Faz mais sentido aplicar em crianças com queixa de leitura ou em pré-alfabetização (triagem de risco).
O CONFIAS é privativo do fonoaudiólogo?
A editora não o restringe a uma profissão: na loja da Hogrefe, o CONFIAS aparece como material não restrito a psicólogos, e a descrição o destina ao trabalho com crianças em alfabetização e com dificuldades de aprendizagem. Na consulta ao SATEPSI de 25/09/2026, o CONFIAS não consta na lista de testes favoráveis nem na de não privativos.
Quanto tempo demora a aplicação completa do CONFIAS?
A editora não informa um tempo padrão. Em estudo publicado na Revista CEFAC com crianças de 2ª série, a aplicação individual das 16 tarefas durou cerca de 20 minutos por criança. Para crianças menores ou que se cansam rápido, dividir em duas sessões pode preservar atenção e qualidade dos dados.
O resultado do CONFIAS muda com intervenção?
Sim, e esse é um dos maiores valores do instrumento. A consciência fonológica responde bem a intervenção estruturada — atividades sistemáticas com rimas, segmentação, identificação de sons e manipulação fonêmica. Reaplicar o CONFIAS após 4-6 meses de intervenção geralmente mostra ganhos mensuráveis, o que documenta a eficácia do trabalho psicopedagógico/fonoaudiológico.