“Marque o cachorro que está em cima da mesa.” Para um adulto, essa instrução é trivial. Para um pré-escolar de 5 anos, ela é uma janela para mais de uma dúzia de habilidades cognitivas e linguísticas que sustentam toda a alfabetização. O Teste de Conceitos Básicos de Boehm avalia exatamente isso: o domínio de noções fundamentais como “em cima”, “perto”, “primeiro”, “metade”, “antes”, “tantos quanto” — palavrinhas pequenas que estruturam o pensamento da criança e atravessam, silenciosamente, todo o currículo da educação infantil. Para psicopedagogos que recebem laudos com Boehm em avaliações de prontidão escolar, ler o que cada conceito ausente significa é antever onde a criança vai travar quando começar a alfabetização formal.
Este guia explica o que é o Teste de Boehm, a edição atual (Boehm-3, norte-americana), os 50 conceitos básicos avaliados, como é aplicado, como classificar resultados e como articular esses achados ao plano psicopedagógico em casos de prontidão escolar e dificuldades iniciais de alfabetização.
1. O que é o Teste de Boehm

- 1O que avalia: 50 conceitos básicos de linguagem relacional
- 2Para quem: jardim de infância ao 2º ano (normas dos EUA)
- 3Quem aplica: educadores, fonoaudiólogos e psicólogos escolares
- 4Formato: caderno de 50 itens, individual ou coletivo, 30 a 45 minutos
O Teste de Conceitos Básicos foi desenvolvido pela psicóloga norte-americana Ann E. Boehm e publicado nos Estados Unidos desde o início dos anos 1970. A edição atual é o Boehm-3 (Boehm Test of Basic Concepts — Third Edition), de 2001, publicado pela Pearson nos Estados Unidos e revisão do Boehm-R, de 1986. Não localizamos adaptação brasileira publicada do Boehm-3 nem sua venda por editora brasileira.
O teste mede o domínio de 50 conceitos básicos — segundo a Pearson, os mais usados por professores do jardim de infância ao 2º ano nos EUA, frequentes em instruções pedagógicas e raramente ensinados explicitamente. Esses conceitos são pré-requisitos linguísticos e cognitivos para acompanhar instruções escolares e compreender enunciados.
O relatório técnico da Pearson descreve os conceitos relacionais do Boehm-3 como de tamanho, direção e posição no espaço, tempo, quantidade, classificação e gerais. Agrupados de forma simples, são noções como:
- Espaço — em cima, embaixo, no meio, mais perto, à direita, mais distante
- Quantidade — alguns, todos, mais, menos, metade, par
- Tempo — primeiro, último, antes, depois, sempre, nunca
- Outros — diferente, igual, parecido, semelhante
O conhecimento desses conceitos é decisivo para o sucesso na alfabetização formal: a criança precisa entender “primeira letra”, “no meio da palavra”, “todos os meninos”, “tantos quanto”, “em ordem” para acompanhar instruções pedagógicas básicas.
Faixa etária
O Boehm-3 tem normas norte-americanas por série escolar, do jardim de infância (kindergarten) ao 2º ano, com tabelas separadas para aplicação no início (outono) e no fim (primavera) do ano letivo. Não localizamos normas brasileiras: numa criança daqui, a comparação com essas tabelas é só referência. É um instrumento de prontidão e alfabetização inicial.
2. Estrutura — 50 conceitos em 2 partes

- 1Espaço: em cima, no meio, ao lado
- 2Quantidade: alguns, mais, metade
- 3Tempo e sequência: primeiro, depois, último
- 4Outros: igual, diferente, parecido
O Boehm-3 tem duas formas paralelas (E e F), cada uma com 50 itens ilustrados em um caderno. Em cada item, a criança ouve uma instrução verbal e marca, entre quatro figuras, aquela que corresponde ao conceito-alvo:
| Categoria | Exemplos de conceitos | Aplicação típica em sala de aula |
|---|---|---|
| Espaço | em cima, no meio, mais perto, em volta, ao lado | “Olhe a figura no canto da página” |
| Quantidade | alguns, mais, todos, menos, metade, par | “Risque mais ou menos a metade dos números” |
| Tempo / Sequência | primeiro, último, antes, depois, ainda, em seguida | “Faça primeiro o exercício 3, depois o 5” |
| Outros | igual, diferente, parecido | “Marque os que são iguais” |
O manual prevê um ponto de pausa após o item 25, para quem quiser aplicar em duas sessões. A aplicação pode ser individual ou coletiva, com a turma inteira.
Tempo de aplicação: 30 a 45 minutos, segundo a Pearson, podendo ser dividido em duas sessões.
3. Quem pode aplicar
Nos EUA, a Pearson vende o Boehm-3 no nível de qualificação A, o mais baixo da editora, e o descreve como útil a educadores, fonoaudiólogos e psicólogos escolares. Na consulta ao SATEPSI de 25/09/2026, o Boehm-3 não aparece na lista de testes psicológicos favoráveis nem na de instrumentos não privativos do psicólogo.
Sem adaptação nem normas brasileiras localizadas, o uso prudente é como recurso complementar com fundamentação científica: leitura qualitativa de quais conceitos a criança domina e quais não domina, sem tratar o resultado como medida psicométrica que classifica. Nesse enquadramento, psicopedagogo ou equipe multiprofissional podem utilizá-lo — e o psicopedagogo também recebe, com frequência, laudos com Boehm em avaliações de pré-alfabetização, comum em pré-escolares avaliados quanto à prontidão para o 1º ano, em casos de queixa de “ainda não vai” no 1º ano, ou em investigação inicial de transtornos da aprendizagem.
4. Como o Boehm é aplicado
Material necessário
- Manual do Boehm-3 (edição norte-americana, Pearson)
- Caderno de teste da forma escolhida (E ou F), um por criança
- Lápis
- Mesa adequada à idade infantil, em ambiente silencioso
Setting e procedimento
- 1Acolhimento e rapport. Antes da aplicação, conversa breve com a criança para reduzir ansiedade. Pré-escolares são especialmente sensíveis ao ambiente e à postura do aplicador.
- 2Apresentação do exemplo. Antes dos itens, o aplicador mostra como marcar a resposta, seguindo o manual: “Veja, vou pedir para você marcar uma figura. Olhe os desenhos e marque o que eu disser.”
- 3Leitura literal das instruções. Cada item tem instrução padronizada que é lida exatamente como aparece no manual. Não se reformula, não se simplifica, não se enfatiza palavras-chave.
- 4Tempo livre por item. O Boehm não é cronometrado — a criança tem o tempo que precisar para olhar e marcar. Mas há ritmo: aplicador prossegue após resposta da criança, sem demoras desnecessárias.
- 5Sem feedback de acerto/erro. O aplicador nunca confirma “isso!” ou “não foi essa”. Mantém postura neutra durante toda a aplicação.
- 6Pausas planejadas. Para crianças menores ou cansadas, dá para dividir a aplicação em duas sessões, usando o ponto de pausa após o item 25.
- 7Registro de respostas. A folha de resposta da criança serve para correção. Aplicador anota também observações qualitativas: hesitações, autocorreções, comentários espontâneos.
- 8Correção e conversão de escores. Soma-se o número de acertos (escore bruto, máximo de 50), que a Pearson converte em percentual de acertos, faixa de desempenho e percentil por série.
5. Como classificar e interpretar resultados
O Boehm-3 fornece quatro medidas: escore bruto, percentual de acertos, faixa de desempenho e percentil por série (jardim de infância, 1º e 2º ano, com normas de outono e de primavera). Como as normas são norte-americanas, leia esses números como parâmetro de orientação, não como classificação oficial da criança. Não reproduzimos pontos de corte aqui porque não encontramos fonte aberta que os confirme.
Análise por padrão
- Rebaixamento generalizado em todas as categorias: sugere atraso amplo na aquisição de vocabulário conceitual. Pode indicar pouco estímulo verbal anterior, atraso global de linguagem, ou contexto cultural com pouco acesso à educação infantil formal. Investigação complementar é fundamental.
- Rebaixamento específico em conceitos de tempo/sequência (primeiro, último, antes, depois): dificuldades em sequenciamento — preditor importante de problemas em alfabetização (sequência de letras, palavras, frases) e em raciocínio matemático. Veja o guia sobre dislexia e o guia sobre discalculia.
- Rebaixamento em conceitos de quantidade (mais, menos, metade, par): indicador precoce de dificuldades em aprendizagem matemática. Compatível com queixa “não pega ainda número” no 1º ano. Articular com sondagem psicopedagógica de matemática inicial.
- Rebaixamento em conceitos espaciais (em cima, embaixo, à direita, em volta): dificuldades em organização visuoespacial — pode coincidir com Bender rebaixado e com queixas de orientação espacial em sala. Articular com Bender.
- Resultado heterogêneo (alguns conceitos muito bem dominados e outros não): sugere acesso desigual à estimulação — algumas áreas foram trabalhadas (em casa ou na escola) e outras não. Plano de intervenção pode focar nas lacunas específicas, com ganho rápido.
Para articular o laudo Boehm com sondagens psicopedagógicas próprias, use o Seletor de Testes iPsy e organize a triagem antes da reunião com a família.
6. Quando usar na avaliação psicopedagógica

- 1Ver quais grupos de conceitos a criança ainda não domina
- 2Conversar com a família e com a escola
- 3Trabalhar os conceitos em brincadeiras e rotinas
1. Avaliação de prontidão escolar. O Boehm-3 é instrumento de referência para avaliação de prontidão para o 1º ano. Quando o psicopedagogo recebe esse laudo, traduz os achados em recomendações concretas para os pais e para a escola: “criança domina conceitos espaciais mas não os de tempo — antes da alfabetização formal, vale trabalhar essa área”. Veja o guia sobre educação inclusiva.
2. Investigação de “ainda não vai” no 1º ano. Crianças que entraram na alfabetização e não estão acompanhando frequentemente apresentam Boehm rebaixado. O laudo ajuda a entender se a dificuldade é específica (conceitos de quantidade, por exemplo, sugerindo discalculia precoce) ou ampla (vocabulário conceitual em geral, sugerindo atraso de linguagem).
3. Articulação com a escola. O Boehm é particularmente útil na conversa com professores: “olhe, esses 5 conceitos a criança não dominava — quando o senhor disser ‘no meio da página’ ou ‘antes do número’, vamos garantir que esteja pareando com gesto até estabilizar”. O Kit de Documentos iPsy traz modelos de orientação para professores baseados em achados do Boehm.
4. Monitoramento de evolução em pré-escolares. Reaplicações documentam aquisição de conceitos — as duas formas paralelas (E e F) existem para isso. Para escolha de instrumentos psicopedagógicos paralelos (sondagens, observações), use o Seletor de Testes iPsy.
7. Limitações importantes
- Faixa restrita. O Boehm-3 tem normas só do jardim de infância ao 2º ano (EUA). Depois disso, perde-se sensibilidade — a maioria das crianças domina os 50 conceitos. Para crianças mais velhas com queixa de aprendizagem, instrumentos como PROLEC e TDE-II são mais adequados.
- Sensível a estimulação verbal anterior. Conceitos básicos são adquiridos por exposição. Crianças com pouca conversa em casa, sem acesso a livros ou educação infantil de qualidade tendem a apresentar resultados rebaixados — não por déficit cognitivo, mas por lacuna ambiental. Análise contextual é essencial.
- Não fecha diagnóstico isoladamente. Boehm rebaixado é indicador de risco para dificuldades em alfabetização, mas não fecha diagnóstico de transtornos da aprendizagem. Diagnóstico formal exige avaliação multidisciplinar e critérios DSM-5/CID-11, geralmente após início da alfabetização formal.
- Avalia apenas vocabulário receptivo. A criança ouve a instrução e marca a figura — mede compreensão, não produção. Pode haver dissociação: criança que entende mas não usa o conceito ativamente. Avaliação complementar via observação e linguagem oral é importante.
- Influenciado por atenção e impulsividade. Crianças com TDAH precoce podem errar itens não por falta de conceito, mas por marcar a primeira figura sem analisar as alternativas. Análise qualitativa de erros é parte da interpretação.