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Linguagem e Leitura

Boehm: Teste de Conceitos Básicos [2026]

Equipe iPsy
Atualizado em abr/202610 min de leitura
Psicopedagogia e neuropsicopedagogia
Faixa etária
5–8 anos
Quem aplica
Psicopedagogo
Categoria
Linguagem e Leitura

“Marque o cachorro que está em cima da mesa.” Para um adulto, essa instrução é trivial. Para um pré-escolar de 5 anos, ela é uma janela para mais de uma dúzia de habilidades cognitivas e linguísticas que sustentam toda a alfabetização. O Teste de Conceitos Básicos de Boehm avalia exatamente isso: o domínio de noções fundamentais como “em cima”, “perto”, “primeiro”, “metade”, “antes”, “tantos quanto” — palavrinhas pequenas que estruturam o pensamento da criança e atravessam, silenciosamente, todo o currículo da educação infantil. Para psicopedagogos que recebem laudos com Boehm em avaliações de prontidão escolar, ler o que cada conceito ausente significa é antever onde a criança vai travar quando começar a alfabetização formal.

Este guia explica o que é o Teste de Boehm, sua história desde 1971, a versão atual brasileira (Boehm-3), os 50 conceitos básicos avaliados, como é aplicado, como classificar resultados e como articular esses achados ao plano psicopedagógico em casos de prontidão escolar e dificuldades iniciais de alfabetização.

1. O que é o Teste de Boehm

O Teste de Conceitos Básicos foi desenvolvido pela psicóloga norte-americana Ann E. Boehm e publicado pela primeira vez em 1971 nos Estados Unidos. A versão atual é o Boehm-3 (Boehm Test of Basic Concepts — Third Edition), de 2001. No Brasil, o Boehm-3 foi adaptado e validado pela equipe de Fermino Fernandes Sisto, Acácia Aparecida Angeli dos Santos e colaboradores, distribuído pela Pearson Brasil.

O teste mede o domínio de 50 conceitos básicos — palavras frequentemente usadas em sala de aula, em livros didáticos e em instruções pedagógicas, mas raramente ensinadas explicitamente. Esses conceitos são pré-requisitos linguísticos e cognitivos para acompanhar instruções escolares e compreender enunciados.

O Boehm-3 avalia 4 grandes categorias de conceitos:

  1. Espaço — em cima, embaixo, no meio, mais perto, à direita, mais distante
  2. Quantidade — alguns, todos, mais, menos, metade, par
  3. Tempo — primeiro, último, antes, depois, sempre, nunca
  4. Outros — diferente, igual, parecido, semelhante

O conhecimento desses conceitos é decisivo para o sucesso na alfabetização formal: a criança precisa entender “primeira letra”, “no meio da palavra”, “todos os meninos”, “tantos quanto”, “em ordem” para acompanhar instruções pedagógicas básicas.

Faixa etária

O Boehm-3 brasileiro é validado para 4 anos a 7 anos e 11 meses — cobrindo educação infantil (a partir do 3º período / Pré-II) e os primeiros anos do Ensino Fundamental (1º e 2º ano). É um instrumento específico para avaliação de prontidão e alfabetização inicial. Para faixas etárias mais avançadas, perde-se sensibilidade — a maioria das crianças mais velhas já domina os 50 conceitos.

2. Estrutura — 50 conceitos em 2 cadernos

O Boehm-3 é organizado em 50 itens distribuídos em 2 cadernos de aplicação. Em cada item, a criança ouve uma instrução verbal e marca, dentre 3-4 figuras impressas, aquela que corresponde ao conceito-alvo:

CategoriaExemplos de conceitosAplicação típica em sala de aula
Espaçoem cima, no meio, mais perto, em volta, ao lado“Olhe a figura no canto da página”
Quantidadealguns, mais, todos, menos, metade, par, dúzia“Risque mais ou menos a metade dos números”
Tempo / Sequênciaprimeiro, último, antes, depois, ainda, em seguida“Faça primeiro o exercício 3, depois o 5”
Outrosigual, diferente, parecido, em pares, exceto“Marque os que são iguais”

O Caderno 1 traz os primeiros 25 conceitos; o Caderno 2, os próximos 25. A aplicação pode ser individual (recomendada para crianças mais novas ou com dificuldade) ou coletiva em pequenos grupos (em educação infantil, para rastreio).

Tempo de aplicação: 30 a 40 minutos para os 2 cadernos completos, podendo ser dividido em duas sessões.

3. Quem pode aplicar

O Boehm-3 não consta no SATEPSI — não aparece nem na Lista Completa nem na lista de instrumentos não privativos do psicólogo. Isso quer dizer que o Conselho Federal de Psicologia não avaliou o instrumento: ele não é reconhecido como teste psicológico no Brasil e não tem status de privativo do psicólogo.

Ausência de cadastro não é liberação, é ausência de avaliação. O caminho que sobra é o uso como recurso complementar com fundamentação científica: leitura qualitativa de quais conceitos a criança domina e quais não domina, sem tratar o resultado como medida psicométrica que classifica. Nesse enquadramento, psicopedagogo ou equipe multiprofissional podem utilizá-lo — e o psicopedagogo também recebe, com frequência, laudos com Boehm em avaliações de pré-alfabetização, comum em pré-escolares avaliados quanto à prontidão para o 1º ano, em casos de queixa de “ainda não vai” no 1º ano, ou em investigação inicial de transtornos da aprendizagem.

4. Como o Boehm é aplicado

Material necessário

  1. Manual técnico do Boehm-3 (Pearson Brasil)
  2. Caderno 1 e Caderno 2 de aplicação (com as figuras-estímulo)
  3. Folhas de respostas individuais (uma por criança)
  4. Lápis preto número 2
  5. Borracha
  6. Mesa adequada à idade infantil, em ambiente silencioso

Setting e procedimento

  1. 1Acolhimento e rapport. Antes da aplicação, conversa breve com a criança para reduzir ansiedade. Pré-escolares são especialmente sensíveis ao ambiente e à postura do aplicador.
  2. 2Apresentação do exemplo. Cada caderno começa com um item de exemplo. O aplicador demonstra como funciona: “Veja, vou pedir para você marcar uma figura. Olhe os desenhos e marque o que eu disser.”
  3. 3Leitura literal das instruções. Cada item tem instrução padronizada que é lida exatamente como aparece no manual. Não se reformula, não se simplifica, não se enfatiza palavras-chave.
  4. 4Tempo livre por item. O Boehm não é cronometrado — a criança tem o tempo que precisar para olhar e marcar. Mas há ritmo: aplicador prossegue após resposta da criança, sem demoras desnecessárias.
  5. 5Sem feedback de acerto/erro. O aplicador nunca confirma “isso!” ou “não foi essa”. Mantém postura neutra durante toda a aplicação.
  6. 6Pausas planejadas. Para crianças menores ou cansadas, dividir a aplicação em duas sessões (Caderno 1 num dia, Caderno 2 noutro) é recomendado.
  7. 7Registro de respostas. A folha de resposta da criança serve para correção. Aplicador anota também observações qualitativas: hesitações, autocorreções, comentários espontâneos.
  8. 8Correção e conversão de escores. Soma-se o número de acertos (escore bruto, máximo de 50), converte-se em percentil por faixa etária precisa (em meses) e em classificação.

5. Como classificar e interpretar resultados

O Boehm-3 converte os escores brutos em percentis por idade (em meses) e em classificação. Esses parâmetros são referência do instrumento original e do estudo brasileiro de adaptação citado — como o instrumento não consta no SATEPSI, não têm status de norma chancelada pelo CFP, e devem ser lidos como parâmetro de orientação, não como classificação psicométrica oficial:

PercentilClassificaçãoO que indica
≥ 85Acima da médiaDomínio amplo dos conceitos básicos — prontidão acima do esperado
26 a 84MédioDomínio adequado para a idade — prontidão típica
11 a 25Médio inferiorDomínio levemente abaixo — monitorar, complementar
≤ 10Abaixo da médiaDomínio insuficiente — intervenção pedagógica indicada

Análise por padrão

  1. Rebaixamento generalizado em todas as categorias: sugere atraso amplo na aquisição de vocabulário conceitual. Pode indicar pouco estímulo verbal anterior, atraso global de linguagem, ou contexto cultural com pouco acesso à educação infantil formal. Investigação complementar é fundamental.
  2. Rebaixamento específico em conceitos de tempo/sequência (primeiro, último, antes, depois): dificuldades em sequenciamento — preditor importante de problemas em alfabetização (sequência de letras, palavras, frases) e em raciocínio matemático. Veja o guia sobre dislexia e o guia sobre discalculia.
  3. Rebaixamento em conceitos de quantidade (mais, menos, metade, par): indicador precoce de dificuldades em aprendizagem matemática. Compatível com queixa “não pega ainda número” no 1º ano. Articular com sondagem psicopedagógica de matemática inicial.
  4. Rebaixamento em conceitos espaciais (em cima, embaixo, à direita, em volta): dificuldades em organização visuoespacial — pode coincidir com Bender rebaixado e com queixas de orientação espacial em sala. Articular com Bender.
  5. Resultado heterogêneo (alguns conceitos muito bem dominados e outros não): sugere acesso desigual à estimulação — algumas áreas foram trabalhadas (em casa ou na escola) e outras não. Plano de intervenção pode focar nas lacunas específicas, com ganho rápido.

Para articular o laudo Boehm com sondagens psicopedagógicas próprias, use o Seletor de Testes iPsy e organize a triagem antes da reunião com a família.

6. Quando usar na avaliação psicopedagógica

1. Avaliação de prontidão escolar. O Boehm-3 é instrumento de referência para avaliação de prontidão para o 1º ano. Quando o psicopedagogo recebe esse laudo, traduz os achados em recomendações concretas para os pais e para a escola: “criança domina conceitos espaciais mas não os de tempo — antes da alfabetização formal, vale trabalhar essa área”. Veja o guia sobre educação inclusiva.

2. Investigação de “ainda não vai” no 1º ano. Crianças que entraram na alfabetização e não estão acompanhando frequentemente apresentam Boehm rebaixado. O laudo ajuda a entender se a dificuldade é específica (conceitos de quantidade, por exemplo, sugerindo discalculia precoce) ou ampla (vocabulário conceitual em geral, sugerindo atraso de linguagem).

3. Articulação com a escola. O Boehm é particularmente útil na conversa com professores: “olhe, esses 5 conceitos a criança não dominava — quando o senhor disser ‘no meio da página’ ou ‘antes do número’, vamos garantir que esteja pareando com gesto até estabilizar”. O Kit de Documentos iPsy traz modelos de orientação para professores baseados em achados do Boehm.

4. Monitoramento de evolução em pré-escolares. Reaplicações com intervalo de 6-12 meses documentam aquisição de conceitos. Para escolha de instrumentos psicopedagógicos paralelos (sondagens, observações), use o Seletor de Testes iPsy.

7. Limitações importantes

  1. Faixa etária restrita. O Boehm-3 é validado de 4 anos a 7;11 anos. Após essa idade, perde-se sensibilidade — a maioria das crianças domina os 50 conceitos. Para crianças mais velhas com queixa de aprendizagem, instrumentos como PROLEC e TDE-II são mais adequados.
  2. Sensível a estimulação verbal anterior. Conceitos básicos são adquiridos por exposição. Crianças com pouca conversa em casa, sem acesso a livros ou educação infantil de qualidade tendem a apresentar resultados rebaixados — não por déficit cognitivo, mas por lacuna ambiental. Análise contextual é essencial.
  3. Não fecha diagnóstico isoladamente. Boehm rebaixado é indicador de risco para dificuldades em alfabetização, mas não fecha diagnóstico de transtornos da aprendizagem. Diagnóstico formal exige avaliação multidisciplinar e critérios DSM-5/CID-11, geralmente após início da alfabetização formal.
  4. Avalia apenas vocabulário receptivo. A criança ouve a instrução e marca a figura — mede compreensão, não produção. Pode haver dissociação: criança que entende mas não usa o conceito ativamente. Avaliação complementar via observação e linguagem oral é importante.
  5. Influenciado por atenção e impulsividade. Crianças com TDAH precoce podem errar itens não por falta de conceito, mas por marcar a primeira figura sem analisar as alternativas. Análise qualitativa de erros é parte da interpretação.

Dúvidas comuns sobre o Boehm