A Figura Complexa de Rey é, junto com o WISC, um dos instrumentos mais aplicados em avaliação neuropsicológica brasileira. Num único teste de 30 minutos, ela avalia ao mesmo tempo: organização visuoespacial, planejamento, memória visual de curto prazo, consolidação de memória visual de longo prazo e — em mãos clínicas treinadas — funcionamento executivo. É um dos raros testes que permite “ver” o pensamento da criança através do desenho dela.
Este guia explica o que é a Figura Complexa de Rey, como o instrumento é aplicado em três etapas (cópia, memória imediata, memória tardia), como interpretar os resultados, em que casos ela faz mais sentido na avaliação e como o psicopedagogo deve articular esses achados ao plano de intervenção em casos de TDAH, dislexia, dispraxia e prejuízos cognitivos múltiplos.
1. O que é a Figura Complexa de Rey
A Figura Complexa de Rey-Osterrieth é um teste neuropsicológico desenvolvido em duas fases: a figura original foi criada pelo neuropsicólogo francês André Rey em 1941, e o sistema de pontuação foi desenvolvido por Paul-Alexandre Osterrieth em 1944. Por isso o nome completo do instrumento é “Figura Complexa de Rey-Osterrieth” (frequentemente abreviada como “ROCF” — Rey-Osterrieth Complex Figure). É instrumento clássico, com mais de 80 anos de uso clínico e milhares de estudos publicados.
O instrumento consiste em uma figura geométrica complexa com 18 elementos (linhas, formas, detalhes geométricos) organizados em uma estrutura visualmente densa. O examinando é solicitado a copiar a figura, depois reproduzi-la de memória imediatamente, e finalmente reproduzi-la novamente após um intervalo de tempo (delay de 20-30 minutos).
O grande valor clínico da Figura de Rey está em medir múltiplas funções cognitivas simultaneamente:
- Função visuoespacial: capacidade de perceber e reproduzir relações espaciais entre elementos
- Função executiva: capacidade de organizar a cópia de forma planejada (vs caótica)
- Memória visual imediata: quanto da figura a pessoa retém após cópia única
- Memória visual tardia: consolidação da informação visual após delay
- Coordenação motora fina: precisão do desenho, ainda que esse não seja foco principal
Faixa etária
A Figura Complexa de Rey-Osterrieth pode ser aplicada a partir dos 6 anos, com normatizações brasileiras disponíveis para crianças, adolescentes e adultos. Para crianças muito pequenas, há versões simplificadas (Figura de Taylor, Figura de Rey infantil) com menor complexidade.
2. A estrutura: as 3 etapas da aplicação
A Figura de Rey é aplicada em três etapas sequenciais, cada uma medindo um aspecto diferente:
| Etapa | O que é feito | O que mede |
|---|---|---|
| 1. Cópia | Examinando copia a figura original olhando para ela, sem limite de tempo (mas com cronometragem) | Função visuoespacial + organização executiva + coordenação motora |
| 2. Memória imediata (3 min) | Após retirar a figura original, examinando reproduz de memória após cerca de 3 minutos | Memória visual de curto prazo / aquisição |
| 3. Memória tardia (20-30 min) | Após intervalo, examinando reproduz a figura novamente sem ver o original | Memória visual de longo prazo / consolidação |
Algumas versões incluem ainda uma etapa de reconhecimento ao final, em que se apresenta uma série de pequenas figuras e o examinando identifica quais pertenciam à figura original — útil para diferenciar prejuízos de armazenamento vs prejuízos de acesso.
3. Quem pode aplicar a Figura de Rey
A Figura Complexa de Rey, em sua versão padronizada brasileira, é instrumento cadastrado no SATEPSI. Significa que é privativa do psicólogo: apenas psicólogos com formação em neuropsicologia estão habilitados a aplicar, corrigir e emitir laudo formal.
O psicopedagogo não aplica a Figura de Rey. Mas, em equipes multidisciplinares de neuropsicologia, frequentemente recebe laudos com resultados da Figura de Rey — especialmente em casos de TDAH, dislexia, dispraxia, prejuízos pós-trauma cerebral e investigação de aprendizagem visual. Saber ler esse laudo é uma competência essencial para o psicopedagogo que atua em contextos clínicos especializados.
4. Como a Figura de Rey é aplicada (estrutura geral)
Material necessário
- Modelo da Figura Complexa de Rey-Osterrieth
- Folhas em branco (uma para cada etapa: cópia, memória imediata, memória tardia)
- Lápis coloridos diferentes (para registrar a sequência em que a criança desenha cada elemento)
- Cronômetro
- Folhas de pontuação por critério
Setting e procedimento
- 1Apresentação inicial. “Vou mostrar uma figura. Sua tarefa é copiar essa figura aqui no papel, do jeito mais parecido possível com o original.”
- 2Cópia da figura. Examinando copia a figura original. O psicólogo pode usar lápis de cores diferentes a cada 30-60 segundos para mapear a sequência em que a criança constroi a figura — informação clínica preciosa sobre organização executiva.
- 3Cronometragem da cópia. Tempo total da cópia é registrado. Tempo muito curto pode indicar impulsividade; tempo muito longo pode indicar perfeccionismo, lentificação cognitiva ou dificuldade visuoespacial.
- 4Memória imediata. Após pequeno intervalo (cerca de 3 minutos com tarefa não-visual), retira-se o modelo original e o trabalho da cópia. Pede-se para reproduzir a figura de memória em folha em branco.
- 5Intervalo de 20-30 minutos. Aplicar outras tarefas que não envolvam material visual (geralmente tarefas verbais).
- 6Memória tardia. Pede-se para reproduzir a figura novamente, sempre em nova folha em branco, sem ver as produções anteriores.
- 7Tempo total: com delay incluído, em torno de 40-60 minutos. A cópia em si dura 3-10 minutos; a memória imediata, 2-5 minutos; a memória tardia, 2-5 minutos.
5. Como interpretar os resultados da Figura de Rey
A Figura de Rey gera múltiplos índices, cada um com leitura clínica específica:
1. Pontuação por exatidão
Cada um dos 18 elementos da figura é avaliado em duas dimensões — presença e localização — gerando pontuação de 0 a 36 pontos. Comparada com tabelas normativas por idade, gera classificação:
| Pontuação | Classificação |
|---|---|
| Acima do percentil 75 | Acima da média |
| Percentil 25 a 75 | Médio |
| Percentil 10 a 25 | Abaixo da média |
| Abaixo do percentil 10 | Rebaixado |
2. Análise qualitativa do tipo de cópia
Mais informativo que o escore quantitativo é o tipo de organização que a criança usa para construir a figura. Os neuropsicólogos categorizam em geral:
- Tipo 1 — Construção sobre a estrutura central: a criança identifica o retângulo central primeiro, depois acrescenta elementos. Padrão maduro, organizado.
- Tipo 2 — Construção a partir de detalhes englobando o resto: começa por uma parte e desenvolve a partir dela. Razoavelmente organizado.
- Tipo 3 — Construção por contornos: faz contornos gerais e depois preenche.
- Tipo 4 — Justaposição de detalhes: coloca peças sem estrutura clara. Padrão imaturo.
- Tipo 5 — Cópia confusa: elementos rabiscados sem qualquer organização. Padrão muito imaturo, sugestivo de prejuízo.
- Tipo 6 — Reduzir a figura a esquema simbólico: em vez de copiar, “desenha o que parece” (ex: um castelo, uma casa). Padrão preocupante após os 8 anos.
Análise por padrão clínico
- Cópia organizada e correta + memória rebaixada: sugere prejuízo específico em memória visual com função visuoespacial preservada. Pode aparecer em TDAH (dificuldade de consolidação), epilepsia ou efeitos de medicação.
- Cópia caótica/desorganizada + memória rebaixada: sugere prejuízo amplo em organização e memória visual. Padrão comum em TDAH com forte componente de função executiva, em quadros como dispraxia ou em síndrome não-verbal de aprendizagem.
- Cópia bem organizada + ambas memórias preservadas: perfil cognitivo preservado em domínio visuoespacial. Buscar outras causas para queixa pedagógica (atenção, leitura, fatores emocionais).
- Memória imediata e tardia muito próximas (pouca queda) com cópia organizada: consolidação de longo prazo preservada. Prognóstico favorável para aprendizagem visual.
- Cópia organizada + memória imediata boa + memória tardia muito rebaixada: prejuízo específico de consolidação. Padrão preocupante, pode indicar epilepsia do lobo temporal, demências precoces ou efeitos farmacológicos. Demanda investigação aprofundada.
Para escolher os instrumentos psicopedagógicos complementares conforme o perfil identificado, use o Seletor de Testes iPsy. Para cobertura de memória verbal, ver RAVLT; para avaliação cognitiva ampla, ver WISC e NEPSY-II.
6. Quando usar a Figura de Rey na prática psicopedagógica
A Figura Complexa de Rey faz mais sentido em três contextos clínicos:
1. Investigação de prejuízo visuoespacial. Quando há queixas de “letra feia”, “não sabe organizar a folha”, “se perde no caderno”, “não copia direito da lousa” — a Figura de Rey permite quantificar e qualificar esses prejuízos. Articula bem com investigação de dispraxia e síndrome não-verbal de aprendizagem.
2. Em casos suspeitos de TDAH com componente executivo. A análise qualitativa do tipo de cópia revela diretamente a capacidade de planejamento e organização — funções executivas centrais comprometidas em TDAH. Veja o guia sobre TDAH.
3. Em avaliações neuropsicológicas pós-trauma ou neurológicas. Crianças com epilepsia, traumatismos cranianos, sequelas de tumores ou outras condições — a Figura de Rey é parte do protocolo padrão para avaliar impacto em organização visuoespacial e memória visual.
Modelos de relatório que articulam laudos neuropsicológicos com plano de intervenção psicopedagógica estão disponíveis no Kit de Documentos iPsy.
7. Limitações importantes da Figura de Rey
- Sensível a fatores motores. Crianças com prejuízos de coordenação motora fina (dispraxia, baixa habilidade gráfica) podem ter desempenho rebaixado por motivos motores, não cognitivos. Importante diferenciar prejuízo no que está sendo medido (organização, memória visual) vs prejuízo na execução motora do desenho.
- Versão única limita reaplicações imediatas. Diferente de testes com formas paralelas, a Figura de Rey clássica tem apenas uma versão. Reaplicações em curto prazo são limitadas pelo “efeito de aprendizagem” da figura. Para isso há a Figura de Taylor como alternativa em segunda aplicação.
- Mede principalmente domínio visual. Avalia uma fração do funcionamento cognitivo — sempre integrar com testes de outras modalidades (verbal, executiva, atencional) para perfil completo.
- Sensível à ansiedade e perfeccionismo. Crianças muito ansiosas podem demorar excessivamente, autocorrigir muitas vezes ou abandonar a tarefa. Estados emocionais devem ser considerados na interpretação.
- Não diagnostica condições isoladamente. Resultados rebaixados são pistas, não diagnósticos. Sempre integrar com avaliação clínica completa, anamnese e instrumentos complementares.