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Desenvolvimento e TEA

Griffiths: Escalas do Desenvolvimento Infantil [2026]

Equipe iPsy
Atualizado em set/202611 min de leitura
Psicopedagogia e neuropsicopedagogia
Faixa etária
0–6 anos
Quem aplica
Não consta no SATEPSI
Categoria
Desenvolvimento e TEA

Quando Ruth Griffiths publicou suas Escalas Mentais do Desenvolvimento Infantil em 1954, criou um padrão que sete décadas depois ainda é referência mundial em avaliação direta de bebês e crianças pequenas. A genialidade da Griffiths não está apenas na precisão psicométrica — está na lógica clínica de combinar observação, manuseio de materiais, interação direta com a criança e relato dos cuidadores em um único instrumento integrado. No Brasil, ainda menos conhecida que o IDADI nacional ou o Teste de Denver, a Griffiths-III é uma escolha técnica em equipes especializadas em primeira infância — e merece ser conhecida pelo psicopedagogo que recebe laudos baseados nela.

Este guia explica o que são as Escalas Griffiths do Desenvolvimento, como Ruth Griffiths as desenvolveu no contexto pós-guerra britânico, quais são as cinco subescalas da versão atual (Griffiths-III), como o instrumento é aplicado por avaliação direta da criança, como interpretar os resultados e como o psicopedagogo deve usar os achados quando recebe um laudo Griffiths em sua clínica ou em equipe interdisciplinar.

1. O que são as Escalas Griffiths

Ilustração da Griffiths III como mapa: avaliação do desenvolvimento do nascimento aos 6 anos com kit de brinquedos, aplicada só por profissionais certificados pela ARICD.
  1. 1O que avalia: o desenvolvimento em cinco subescalas
  2. 2Para quem: do nascimento aos 6 anos
  3. 3Quem aplica: só usuários certificados pela ARICD (pediatras, psicólogos e profissionais de saúde aprovados)
  4. 4Formato: kit padronizado, aplicação direta com a criança
Ilustração: a Griffiths III exige formação certificada; o psicopedagogo costuma ler o laudo.

As Escalas Griffiths (nas edições anteriores, Griffiths Mental Development Scales) foram desenvolvidas pela psicóloga britânica Ruth Griffiths, que, nos anos do pós-guerra, examinou sistematicamente centenas de crianças com desenvolvimento típico e publicou os resultados em 1954 (The Abilities of Babies, 0 a 2 anos) e em 1970 (The Abilities of Young Children, 0 a 8 anos).

Ao longo das décadas, o instrumento passou por revisões importantes. A versão mais recente — Griffiths III (Griffiths Scales of Child Development, 3ª edição), desenvolvida pela ARICD (Association for Research in Infant and Child Development) e publicada em 2016 pela Hogrefe — trouxe normas e estrutura de subescalas atualizadas e concentrou a avaliação do nascimento aos 6 anos. Hoje é a versão de referência usada em pesquisa e clínica internacional.

O propósito da Griffiths é oferecer um perfil multidimensional do desenvolvimento de bebês e crianças pequenas, com base em avaliação direta da criança — diferente de instrumentos como o IDADI brasileiro, que se baseia em relato parental. A Griffiths combina observação do bebê em situação estruturada, apresentação de materiais específicos para cada idade e conversa complementar com os cuidadores, formando uma avaliação clínica integrada.

Faixa etária

A Griffiths-III cobre o desenvolvimento de crianças de 0 a 6 anos (até 5 anos e 11 meses), com itens organizados por faixas progressivas e sensíveis a marcos de desenvolvimento típico.

2. As cinco subescalas da Griffiths-III

Ilustração das cinco subescalas da Griffiths III: bases de aprendizagem, linguagem, coordenação olho-mão, pessoal-social-emocional e motricidade ampla, somando um quociente geral.
  1. 1A: Bases de aprendizagem
  2. 2B: Linguagem e comunicação
  3. 3C: Coordenação olho-mão
  4. 4D: Pessoal-social-emocional
  5. 5E: Motricidade ampla
Ilustração: cada subescala tem escore próprio, e juntas formam o quociente geral.

A Griffiths-III organiza a avaliação em cinco subescalas que cobrem domínios distintos do desenvolvimento — cada uma gerando escore próprio e um quociente de desenvolvimento global (GQ) ao final:

SubescalaO que avaliaExemplo de tarefa
A — Bases de AprendizagemFunções cognitivas iniciais — atenção, memória, raciocínioEncontrar objetos escondidos, classificar formas, completar quebra-cabeças
B — Linguagem e ComunicaçãoLinguagem expressiva, receptiva e habilidades comunicativasNomear objetos, seguir instruções verbais, formar frases
C — Coordenação Olho-MãoMotricidade fina, destreza manual e percepção visualEmpilhar blocos, copiar formas, manipular objetos pequenos
D — Pessoal-Social-EmocionalSenso de si e independência crescente, interação com outros, desenvolvimento emocionalBrincar funcional, interagir com avaliador, autoconceito
E — Motricidade AmplaControle postural, equilíbrio e coordenação corporal amplaTarefas de postura, equilíbrio e locomoção

Cada subescala gera um escore padronizado e um idade-equivalente, e um escore global de Desenvolvimento Geral (GQ) é calculado a partir de todas as subescalas. Segundo o relatório técnico da Hogrefe, o quociente de desenvolvimento da Griffiths III vai de 50 a 150, com desvio-padrão de 15 pontos — escala similar à do QI. A grande utilidade clínica está na análise do perfil de subescalas — não apenas no escore global — porque assimetrias entre domínios são pistas diagnósticas importantes.

Diferente de instrumentos baseados em relato parental, a Griffiths exige observação direta do bebê ou criança em situação avaliativa estruturada, com manipulação de materiais específicos. Isso traz vantagens (dados de primeira mão) e desafios (estado da criança no momento da avaliação influencia fortemente o resultado).

3. Quem pode aplicar a Griffiths

Segundo a ARICD, a Griffiths III é um teste restrito: só pode ser comprada e usada por quem tem o Certificado de Registro como Usuário da ARICD, obtido apenas em curso de formação Griffiths III reconhecido. Os cursos são abertos a pediatras, psicólogos e profissionais de saúde aliados aprovados. Na consulta ao SATEPSI de 25/09/2026, a Griffiths não aparece na lista de testes psicológicos favoráveis nem na de instrumentos não privativos do psicólogo. Como a normatização brasileira ainda não chegou a um manual disponível para uso no país, leia os escores como referência do instrumento original, articulados a outras fontes.

O psicopedagogo não aplica a Griffiths diretamente. O cenário típico em que o psicopedagogo encontra a Griffiths é recebendo laudos de equipes especializadas em desenvolvimento — neuropediatria, ambulatórios de seguimento de prematuros, centros de referência em transtornos do desenvolvimento. Saber identificar no laudo o quociente global, o perfil das subescalas e a idade equivalente é competência crescente em quem atua com primeira infância.

4. Como a Griffiths é aplicada

Material necessário

  1. Kit oficial Griffiths III (caixa com brinquedos, blocos, figuras, livros e demais materiais padronizados — publicado pela Hogrefe e vendido apenas a usuários certificados pela ARICD).
  2. Manual técnico com critérios de pontuação para cada item de cada subescala.
  3. Folha de registro oficial para anotação das respostas e observações.
  4. Tabelas de pontuação para conversão de respostas em escores padronizados e quociente global.
  5. Sala de avaliação com setting controlado e adaptado a bebês/crianças pequenas (mesa baixa, cadeira, espaço para movimentação se necessário).

Setting e procedimento

  1. 1Acolhimento da criança e do cuidador. Apresentação do espaço, conversa breve para reduzir estranhamento — bebês especialmente precisam de tempo para se acomodar antes do início.
  2. 2Coleta de informações iniciais. Conversa com cuidador sobre desenvolvimento, marcos atingidos, queixas atuais, comportamento típico — informações que complementarão a observação direta.
  3. 3Estabelecimento da idade desenvolvimental aproximada. Com base no histórico, definir por qual faixa etária da Griffiths começar a aplicação.
  4. 4Aplicação progressiva por subescala. Apresentar os itens das cinco subescalas conforme protocolo, na ordem padronizada — observando atentamente cada resposta.
  5. 5Pontuação criteriosa. Registrar cada item conforme critérios objetivos do manual — passa, falha, parcial — sem inferências subjetivas.
  6. 6Observação clínica complementar. Anotar comportamentos qualitativos não pontuados — postura, engajamento, regulação emocional, interação com o avaliador — que enriquecem a interpretação.
  7. 7Cálculo dos escores. Converter as respostas em escores padronizados por subescala e calcular o GQ (Quociente de Desenvolvimento Geral) com as tabelas normativas.
  8. 8Elaboração do perfil e laudo. Articular escores, observação clínica e relato parental em um relatório que descreva o perfil de desenvolvimento e fundamente recomendações.

5. Como interpretar os resultados

Os quocientes da Griffiths III vão de 50 a 150, com desvio-padrão de 15 pontos, e são construídos sobre as normas internacionais do instrumento. Não encontramos, em fonte oficial acessível, uma tabela de faixas descritivas da Griffiths III — por isso, ao ler um laudo, use a classificação que o próprio avaliador informar e a distância do escore em relação à média (100), sempre articulada à discussão clínica.

Análise por padrão clínico

A análise por subescalas — não apenas pelo escore global — gera cinco perfis típicos que orientam encaminhamentos diferentes:

  1. Perfil simétrico típico: todas as subescalas e o GQ na faixa média. Desenvolvimento esperado para a idade — sem indicação de intervenção específica, manter acompanhamento de rotina.
  2. Perfil simétrico rebaixado: todas as subescalas e o GQ igualmente abaixo do esperado. Sugere atraso global de desenvolvimento — investigar causas neurológicas, genéticas, metabólicas ou de privação ambiental severa. Encaminhamento neuropediátrico imediato.
  3. Perfil com linguagem rebaixada isoladamente: linguagem (B) significativamente abaixo das demais subescalas. Sugere transtorno de linguagem ou TEA — encaminhamento para fonoaudiologia, e investigação especializada para descartar TEA com instrumentos como M-CHAT ou CARS.
  4. Perfil com socioemocional rebaixado isoladamente: subescala D significativamente abaixo das demais. Sugere TEA ou transtorno de vínculo — encaminhamento para avaliação especializada (PROTEA-R, CARS, ADOS-2).
  5. Perfil com coordenação olho-mão (C) ou motricidade ampla (E) rebaixadas: sugere atraso motor fino ou amplo. Encaminhamento para fisioterapia, terapia ocupacional ou neuropediatria conforme o caso.

Para articular os achados do laudo Griffiths com instrumentos psicopedagógicos complementares quando a criança avança para a fase escolar, use o Seletor de Testes iPsy.

6. Quando usar a Griffiths na avaliação psicopedagógica

Ilustração do uso do laudo da Griffiths: localizar as subescalas mais baixas, planejar com a equipe, estimular a criança com a família e reavaliar ao longo do tempo.
  1. 1Ler o perfil das subescalas no laudo
  2. 2Planejar com a equipe de primeira infância
  3. 3Estimular com a participação da família
  4. 4Reavaliar ao longo do tempo
Ilustração: o perfil de subescalas orienta onde concentrar a estimulação.

1. Em crianças de primeira infância com queixa de atraso global. Quando uma criança chega ao psicopedagogo com laudo Griffiths apontando atraso global, o instrumento já forneceu informação preciosa — perfil de subescalas, idades equivalentes, quociente global. O trabalho psicopedagógico se constrói a partir desses dados.

2. Em programas de seguimento de prematuros e bebês de risco. A Griffiths é instrumento de escolha em ambulatórios de seguimento de bebês de risco neonatal — prematuros, com asfixia perinatal, com baixo peso. Esses bebês frequentemente chegam ao psicopedagogo com laudos Griffiths em série, documentando trajetória de desenvolvimento.

3. Em casos de suspeita de transtornos do desenvolvimento. A análise das cinco subescalas oferece pistas diagnósticas precoces para TEA, deficiência intelectual, transtornos de linguagem isolados. O psicopedagogo articula esses dados com observação pedagógica e, conforme indicação, com outros instrumentos. Para complementar, use o Seletor de Testes iPsy.

4. Em devolutivas e relatórios psicopedagógicos. Quando o psicopedagogo emite parecer sobre criança em primeira infância com laudo Griffiths, citar e articular dados do instrumento fortalece o documento e demonstra leitura técnica do material. Modelos de relatório que integram dados de equipe interdisciplinar estão no Kit de Documentos iPsy.

7. Limitações importantes da Griffiths

  1. Disponibilidade limitada de profissionais treinados no Brasil. A formação Griffiths não é amplamente difundida no país — é mais comum em centros universitários, ambulatórios de referência e equipes especializadas. Em muitas regiões, simplesmente não há profissional habilitado.
  2. Custo elevado do material. O kit oficial é caro (importado), o treinamento certificado também — restrição importante a serviços públicos e consultórios pequenos.
  3. Sensibilidade ao estado da criança. Como exige avaliação direta com bebês ou crianças pequenas, sono, fome, ansiedade ou estranhamento podem rebaixar artificialmente o desempenho. Resultados muito discrepantes da observação cotidiana merecem reaplicação.
  4. Não substitui avaliação clínica multidisciplinar. Mesmo com perfil Griffiths bem definido, o diagnóstico clínico (atraso global, TEA, deficiência intelectual etc.) exige integração com avaliação médica, e quando indicado, com instrumentos complementares específicos.
  5. Normas internacionais com adaptação brasileira variável. As normas em uso são as internacionais do instrumento. Um estudo de normatização da Griffiths III para crianças brasileiras de 0 a 72 meses foi publicado em 2025 (Ferreira-Vasques et al., Frontiers in Pediatrics), mas os próprios autores indicam que a disponibilização do instrumento para uso no Brasil ainda está por vir — interpretar com cautela, sobretudo em populações de alta vulnerabilidade socioeconômica, onde o atraso pode refletir privação ambiental e não condição clínica.

Fontes

Dúvidas comuns sobre a Griffiths

O psicopedagogo pode aplicar a Griffiths?
Em regra, não. Segundo a ARICD, a Griffiths III só pode ser comprada e usada por quem tem certificado de usuário, obtido em curso de formação aberto a pediatras, psicólogos e profissionais de saúde aliados aprovados pela associação. O psicopedagogo recebe e interpreta laudos Griffiths emitidos por essas equipes, articulando os achados com a intervenção pedagógica. A aplicação por profissional não treinado compromete severamente a confiabilidade dos dados.
A Griffiths fecha diagnóstico de atraso de desenvolvimento?
Não isoladamente. A Griffiths fornece um perfil rico do desenvolvimento da criança e indica em quais áreas há atraso, mas o diagnóstico clínico exige avaliação multidisciplinar — médica, psicológica, e quando indicado, fonoaudiológica e neurológica. A Griffiths sustenta a hipótese diagnóstica e orienta encaminhamentos — não substitui a avaliação clínica integrada.
Qual a diferença entre Griffiths e IDADI?
Ambos avaliam desenvolvimento de crianças até cerca de 6 anos, mas com lógicas diferentes. O IDADI é instrumento brasileiro (Vetor Editora), baseado em relato parental, com normas nacionais, respondido pelos pais em formato autoadministrado ou em entrevista — e, segundo a Vetor, pode ser usado por diferentes profissionais com formação ou conhecimento em desenvolvimento infantil. A Griffiths é instrumento internacional, baseado em avaliação direta da criança, com kit de materiais, treinamento certificado pela ARICD e normas internacionais. Equipes brasileiras frequentemente preferem IDADI pela adequação cultural; centros de referência internacional usam Griffiths pela tradição psicométrica.
Quanto tempo dura a aplicação da Griffiths?
Segundo a ARICD, a aplicação da Griffiths III leva aproximadamente 60 minutos, podendo ser dividida em duas sessões para crianças muito pequenas ou que cansam facilmente. Depois vêm a análise dos dados, o cálculo do quociente e a elaboração do laudo.
A Griffiths serve para crianças com TEA?
Sim, mas com cautela interpretativa. Como exige interação direta e cooperação da criança, o desempenho de bebês e crianças com TEA pode ser rebaixado artificialmente por dificuldades de interação, não por capacidade cognitiva. Avaliadores experientes sabem distinguir esses fatores, mas a Griffiths frequentemente é complementada por instrumentos específicos de TEA quando há suspeita ou diagnóstico — veja também o pilar de autismo.