Quando Ruth Griffiths publicou suas Escalas Mentais do Desenvolvimento Infantil em 1954, criou um padrão que sete décadas depois ainda é referência mundial em avaliação direta de bebês e crianças pequenas. A genialidade da Griffiths não está apenas na precisão psicométrica — está na lógica clínica de combinar observação, manuseio de materiais, interação direta com a criança e relato dos cuidadores em um único instrumento integrado. No Brasil, ainda menos conhecida que o IDADI nacional ou o Teste de Denver, a Griffiths-III é uma escolha técnica em equipes especializadas em primeira infância — e merece ser conhecida pelo psicopedagogo que recebe laudos baseados nela.
Este guia explica o que são as Escalas Griffiths do Desenvolvimento, como Ruth Griffiths as desenvolveu no contexto pós-guerra britânico, quais são as cinco subescalas da versão atual (Griffiths-III), como o instrumento é aplicado por avaliação direta da criança, como interpretar os resultados e como o psicopedagogo deve usar os achados quando recebe um laudo Griffiths em sua clínica ou em equipe interdisciplinar.
1. O que são as Escalas Griffiths

- 1O que avalia: o desenvolvimento em cinco subescalas
- 2Para quem: do nascimento aos 6 anos
- 3Quem aplica: só usuários certificados pela ARICD (pediatras, psicólogos e profissionais de saúde aprovados)
- 4Formato: kit padronizado, aplicação direta com a criança
As Escalas Griffiths (nas edições anteriores, Griffiths Mental Development Scales) foram desenvolvidas pela psicóloga britânica Ruth Griffiths, que, nos anos do pós-guerra, examinou sistematicamente centenas de crianças com desenvolvimento típico e publicou os resultados em 1954 (The Abilities of Babies, 0 a 2 anos) e em 1970 (The Abilities of Young Children, 0 a 8 anos).
Ao longo das décadas, o instrumento passou por revisões importantes. A versão mais recente — Griffiths III (Griffiths Scales of Child Development, 3ª edição), desenvolvida pela ARICD (Association for Research in Infant and Child Development) e publicada em 2016 pela Hogrefe — trouxe normas e estrutura de subescalas atualizadas e concentrou a avaliação do nascimento aos 6 anos. Hoje é a versão de referência usada em pesquisa e clínica internacional.
O propósito da Griffiths é oferecer um perfil multidimensional do desenvolvimento de bebês e crianças pequenas, com base em avaliação direta da criança — diferente de instrumentos como o IDADI brasileiro, que se baseia em relato parental. A Griffiths combina observação do bebê em situação estruturada, apresentação de materiais específicos para cada idade e conversa complementar com os cuidadores, formando uma avaliação clínica integrada.
Faixa etária
A Griffiths-III cobre o desenvolvimento de crianças de 0 a 6 anos (até 5 anos e 11 meses), com itens organizados por faixas progressivas e sensíveis a marcos de desenvolvimento típico.
2. As cinco subescalas da Griffiths-III

- 1A: Bases de aprendizagem
- 2B: Linguagem e comunicação
- 3C: Coordenação olho-mão
- 4D: Pessoal-social-emocional
- 5E: Motricidade ampla
A Griffiths-III organiza a avaliação em cinco subescalas que cobrem domínios distintos do desenvolvimento — cada uma gerando escore próprio e um quociente de desenvolvimento global (GQ) ao final:
| Subescala | O que avalia | Exemplo de tarefa |
|---|---|---|
| A — Bases de Aprendizagem | Funções cognitivas iniciais — atenção, memória, raciocínio | Encontrar objetos escondidos, classificar formas, completar quebra-cabeças |
| B — Linguagem e Comunicação | Linguagem expressiva, receptiva e habilidades comunicativas | Nomear objetos, seguir instruções verbais, formar frases |
| C — Coordenação Olho-Mão | Motricidade fina, destreza manual e percepção visual | Empilhar blocos, copiar formas, manipular objetos pequenos |
| D — Pessoal-Social-Emocional | Senso de si e independência crescente, interação com outros, desenvolvimento emocional | Brincar funcional, interagir com avaliador, autoconceito |
| E — Motricidade Ampla | Controle postural, equilíbrio e coordenação corporal ampla | Tarefas de postura, equilíbrio e locomoção |
Cada subescala gera um escore padronizado e um idade-equivalente, e um escore global de Desenvolvimento Geral (GQ) é calculado a partir de todas as subescalas. Segundo o relatório técnico da Hogrefe, o quociente de desenvolvimento da Griffiths III vai de 50 a 150, com desvio-padrão de 15 pontos — escala similar à do QI. A grande utilidade clínica está na análise do perfil de subescalas — não apenas no escore global — porque assimetrias entre domínios são pistas diagnósticas importantes.
Diferente de instrumentos baseados em relato parental, a Griffiths exige observação direta do bebê ou criança em situação avaliativa estruturada, com manipulação de materiais específicos. Isso traz vantagens (dados de primeira mão) e desafios (estado da criança no momento da avaliação influencia fortemente o resultado).
3. Quem pode aplicar a Griffiths
Segundo a ARICD, a Griffiths III é um teste restrito: só pode ser comprada e usada por quem tem o Certificado de Registro como Usuário da ARICD, obtido apenas em curso de formação Griffiths III reconhecido. Os cursos são abertos a pediatras, psicólogos e profissionais de saúde aliados aprovados. Na consulta ao SATEPSI de 25/09/2026, a Griffiths não aparece na lista de testes psicológicos favoráveis nem na de instrumentos não privativos do psicólogo. Como a normatização brasileira ainda não chegou a um manual disponível para uso no país, leia os escores como referência do instrumento original, articulados a outras fontes.
O psicopedagogo não aplica a Griffiths diretamente. O cenário típico em que o psicopedagogo encontra a Griffiths é recebendo laudos de equipes especializadas em desenvolvimento — neuropediatria, ambulatórios de seguimento de prematuros, centros de referência em transtornos do desenvolvimento. Saber identificar no laudo o quociente global, o perfil das subescalas e a idade equivalente é competência crescente em quem atua com primeira infância.
4. Como a Griffiths é aplicada
Material necessário
- Kit oficial Griffiths III (caixa com brinquedos, blocos, figuras, livros e demais materiais padronizados — publicado pela Hogrefe e vendido apenas a usuários certificados pela ARICD).
- Manual técnico com critérios de pontuação para cada item de cada subescala.
- Folha de registro oficial para anotação das respostas e observações.
- Tabelas de pontuação para conversão de respostas em escores padronizados e quociente global.
- Sala de avaliação com setting controlado e adaptado a bebês/crianças pequenas (mesa baixa, cadeira, espaço para movimentação se necessário).
Setting e procedimento
- 1Acolhimento da criança e do cuidador. Apresentação do espaço, conversa breve para reduzir estranhamento — bebês especialmente precisam de tempo para se acomodar antes do início.
- 2Coleta de informações iniciais. Conversa com cuidador sobre desenvolvimento, marcos atingidos, queixas atuais, comportamento típico — informações que complementarão a observação direta.
- 3Estabelecimento da idade desenvolvimental aproximada. Com base no histórico, definir por qual faixa etária da Griffiths começar a aplicação.
- 4Aplicação progressiva por subescala. Apresentar os itens das cinco subescalas conforme protocolo, na ordem padronizada — observando atentamente cada resposta.
- 5Pontuação criteriosa. Registrar cada item conforme critérios objetivos do manual — passa, falha, parcial — sem inferências subjetivas.
- 6Observação clínica complementar. Anotar comportamentos qualitativos não pontuados — postura, engajamento, regulação emocional, interação com o avaliador — que enriquecem a interpretação.
- 7Cálculo dos escores. Converter as respostas em escores padronizados por subescala e calcular o GQ (Quociente de Desenvolvimento Geral) com as tabelas normativas.
- 8Elaboração do perfil e laudo. Articular escores, observação clínica e relato parental em um relatório que descreva o perfil de desenvolvimento e fundamente recomendações.
5. Como interpretar os resultados
Os quocientes da Griffiths III vão de 50 a 150, com desvio-padrão de 15 pontos, e são construídos sobre as normas internacionais do instrumento. Não encontramos, em fonte oficial acessível, uma tabela de faixas descritivas da Griffiths III — por isso, ao ler um laudo, use a classificação que o próprio avaliador informar e a distância do escore em relação à média (100), sempre articulada à discussão clínica.
Análise por padrão clínico
A análise por subescalas — não apenas pelo escore global — gera cinco perfis típicos que orientam encaminhamentos diferentes:
- Perfil simétrico típico: todas as subescalas e o GQ na faixa média. Desenvolvimento esperado para a idade — sem indicação de intervenção específica, manter acompanhamento de rotina.
- Perfil simétrico rebaixado: todas as subescalas e o GQ igualmente abaixo do esperado. Sugere atraso global de desenvolvimento — investigar causas neurológicas, genéticas, metabólicas ou de privação ambiental severa. Encaminhamento neuropediátrico imediato.
- Perfil com linguagem rebaixada isoladamente: linguagem (B) significativamente abaixo das demais subescalas. Sugere transtorno de linguagem ou TEA — encaminhamento para fonoaudiologia, e investigação especializada para descartar TEA com instrumentos como M-CHAT ou CARS.
- Perfil com socioemocional rebaixado isoladamente: subescala D significativamente abaixo das demais. Sugere TEA ou transtorno de vínculo — encaminhamento para avaliação especializada (PROTEA-R, CARS, ADOS-2).
- Perfil com coordenação olho-mão (C) ou motricidade ampla (E) rebaixadas: sugere atraso motor fino ou amplo. Encaminhamento para fisioterapia, terapia ocupacional ou neuropediatria conforme o caso.
Para articular os achados do laudo Griffiths com instrumentos psicopedagógicos complementares quando a criança avança para a fase escolar, use o Seletor de Testes iPsy.
6. Quando usar a Griffiths na avaliação psicopedagógica

- 1Ler o perfil das subescalas no laudo
- 2Planejar com a equipe de primeira infância
- 3Estimular com a participação da família
- 4Reavaliar ao longo do tempo
1. Em crianças de primeira infância com queixa de atraso global. Quando uma criança chega ao psicopedagogo com laudo Griffiths apontando atraso global, o instrumento já forneceu informação preciosa — perfil de subescalas, idades equivalentes, quociente global. O trabalho psicopedagógico se constrói a partir desses dados.
2. Em programas de seguimento de prematuros e bebês de risco. A Griffiths é instrumento de escolha em ambulatórios de seguimento de bebês de risco neonatal — prematuros, com asfixia perinatal, com baixo peso. Esses bebês frequentemente chegam ao psicopedagogo com laudos Griffiths em série, documentando trajetória de desenvolvimento.
3. Em casos de suspeita de transtornos do desenvolvimento. A análise das cinco subescalas oferece pistas diagnósticas precoces para TEA, deficiência intelectual, transtornos de linguagem isolados. O psicopedagogo articula esses dados com observação pedagógica e, conforme indicação, com outros instrumentos. Para complementar, use o Seletor de Testes iPsy.
4. Em devolutivas e relatórios psicopedagógicos. Quando o psicopedagogo emite parecer sobre criança em primeira infância com laudo Griffiths, citar e articular dados do instrumento fortalece o documento e demonstra leitura técnica do material. Modelos de relatório que integram dados de equipe interdisciplinar estão no Kit de Documentos iPsy.
7. Limitações importantes da Griffiths
- Disponibilidade limitada de profissionais treinados no Brasil. A formação Griffiths não é amplamente difundida no país — é mais comum em centros universitários, ambulatórios de referência e equipes especializadas. Em muitas regiões, simplesmente não há profissional habilitado.
- Custo elevado do material. O kit oficial é caro (importado), o treinamento certificado também — restrição importante a serviços públicos e consultórios pequenos.
- Sensibilidade ao estado da criança. Como exige avaliação direta com bebês ou crianças pequenas, sono, fome, ansiedade ou estranhamento podem rebaixar artificialmente o desempenho. Resultados muito discrepantes da observação cotidiana merecem reaplicação.
- Não substitui avaliação clínica multidisciplinar. Mesmo com perfil Griffiths bem definido, o diagnóstico clínico (atraso global, TEA, deficiência intelectual etc.) exige integração com avaliação médica, e quando indicado, com instrumentos complementares específicos.
- Normas internacionais com adaptação brasileira variável. As normas em uso são as internacionais do instrumento. Um estudo de normatização da Griffiths III para crianças brasileiras de 0 a 72 meses foi publicado em 2025 (Ferreira-Vasques et al., Frontiers in Pediatrics), mas os próprios autores indicam que a disponibilização do instrumento para uso no Brasil ainda está por vir — interpretar com cautela, sobretudo em populações de alta vulnerabilidade socioeconômica, onde o atraso pode refletir privação ambiental e não condição clínica.
Fontes
- Conselho Federal de Psicologia. SATEPSI — Testes Psicológicos Favoráveis (consulta em 25/09/2026).
- Conselho Federal de Psicologia. SATEPSI — Instrumentos Não Privativos do Psicólogo (consulta em 25/09/2026).
- ARICD — Association for Research in Infant and Child Development. About the Griffiths Scales (Griffiths III: teste restrito a quem tem o Certificate of Registration as User; consulta em 25/09/2026).