O PROTEA-R é um dos poucos instrumentos brasileiros desenvolvidos especificamente para avaliação de crianças com suspeita de TEA — e isso o torna estratégico em qualquer avaliação multidisciplinar feita no Brasil. Construído na UFRGS por Cleonice Bosa e colaboradores, o protocolo combina frentes que raramente aparecem juntas no mesmo instrumento: observação direta da criança em hora lúdica, entrevista com os pais e um perfil qualitativo com escore de risco. Para o psicopedagogo que recebe laudos diagnósticos de TEA, conhecer a lógica do PROTEA-R é o que permite ler o documento em profundidade.
Este guia explica o que é o PROTEA-R, como o protocolo foi desenvolvido na UFRGS, quais são as peças do sistema, o que cada uma avalia, como é aplicado e como o psicopedagogo deve ler e usar os achados na avaliação psicopedagógica complementar.
1. O que é o PROTEA-R
PROTEA-R vem de Protocolo de Avaliação Comportamental para Crianças com Suspeita de TEA — Revisado. Foi desenvolvido na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) pelo grupo da pesquisadora Cleonice Alves Bosa (Núcleo de Estudos e Pesquisas em Transtornos do Desenvolvimento — NIEPED) e publicado em 2018 pela Vetor como Sistema PROTEA-R de Avaliação da Suspeita de Transtorno do Espectro Autista, de Cleonice Alves Bosa e Jerusa Fumagalli de Salles.
O propósito do PROTEA-R é organizar a avaliação clínica do TEA infantil em um protocolo padronizado, em português brasileiro, considerando características culturais, desenvolvimentais e sociais brasileiras. Diferente de instrumentos como ADOS-2 ou ADI-R (importados, com licenciamento internacional), o PROTEA-R foi pensado de origem para a realidade nacional — incluindo perguntas, contextos e exemplos familiares à família brasileira.
O sistema articula fontes de informação convergentes: a entrevista de anamnese com os pais sobre desenvolvimento e comportamento, a observação clínica da criança em hora lúdica (brincadeira livre e semiestruturada) e o perfil que o avaliador constrói a partir dos dois. Essa triangulação é o que dá robustez ao processo diagnóstico — especialmente em casos onde os sinais de TEA são sutis ou flutuantes.
Faixa etária
O PROTEA-R é indicado para crianças em torno de 24 a 60 meses (2 a 5 anos), especialmente as não verbais, com suspeita de TEA ou de outros transtornos da comunicação. Em crianças menores, é mais comum o uso de instrumentos de rastreio como o M-CHAT (16 a 30 meses); em crianças mais velhas e adolescentes, são usados outros instrumentos. O PROTEA-R cobre, portanto, a janela da idade pré-escolar.
2. As três peças do Sistema PROTEA-R
Atenção a uma confusão comum: nas fontes oficiais (editora e artigos das autoras) não encontramos versões chamadas “PROTEA-R-PI” ou “PROTEA-R-T”. O que a literatura descreve são três peças articuladas do Sistema PROTEA-R, cada uma com função distinta no processo de avaliação:
| Peça do sistema | Finalidade | Quem responde |
|---|---|---|
| Entrevista de anamnese | História do desenvolvimento, comunicação, socialização, brincadeira e comportamentos repetitivos | Pais ou responsáveis, em entrevista com o avaliador |
| PROTEA-R-NV (hora lúdica) | Observação estruturada da criança em brincadeira livre e semiestruturada; 17 itens | Pontuado pelo avaliador após a sessão |
| Perfil e escore de risco | Parecer qualitativo de potencialidades e dificuldades, mais um escore de risco para TEA calculado a partir dos itens críticos | Elaborado pelo avaliador |
O PROTEA-R-NV (versão revisada, não verbal) observa a criança em uma hora lúdica com dois contextos — brincadeira livre e brincadeira semiestruturada —, com duração estimada de 45 minutos. Os 17 itens se distribuem em três áreas: comportamentos sociocomunicativos (8 itens), qualidade da brincadeira (6 itens) e movimentos repetitivos e estereotipados (3 itens). No contexto semiestruturado, brinquedos com estímulos sensoriais intensos também permitem observar reações atípicas.
A entrevista de anamnese reúne, com os pais, informações sobre o desenvolvimento da criança — comunicação, socialização, brincadeira e possíveis comportamentos repetitivos e estereotipados. Funciona como complemento essencial à observação direta, porque captura informações que só a família pode trazer.
Na codificação, cada item é avaliado quanto à qualidade e à frequência do comportamento, o que permite descrever níveis de comprometimento, escrever um parecer detalhado e calcular o escore de risco. As autoras descrevem o PROTEA-R-NV como um rastreio de segundo nível — usado quando já existe suspeita, não como triagem universal.
3. Quem pode aplicar o PROTEA-R
O PROTEA-R é apresentado pelas autoras como um instrumento interdisciplinar: segundo a Vetor, é indicado para psicólogos, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, psicopedagogos, médicos, educadores e pesquisadores das áreas de saúde e educação. Na consulta ao SATEPSI (Sistema de Avaliação de Testes Psicológicos do CFP) de 25/09/2026, o PROTEA-R não aparece na lista de testes psicológicos favoráveis nem na de instrumentos não privativos do psicólogo. Pelo próprio fluxo publicado no SATEPSI, o que não é teste psicológico pode ser utilizado como recurso complementar, desde que haja fundamentação científica — de forma qualitativa e dentro da competência de cada profissional.
Na prática, o PROTEA-R circula em contextos de avaliação clínica, de pesquisa e de extensão universitária, e o psicopedagogo frequentemente recebe laudos baseados em PROTEA-R, especialmente em casos de crianças com diagnóstico ou suspeita de autismo. Saber identificar no laudo quais peças do sistema foram usadas, que áreas a avaliação contemplou e como integrar essas informações ao plano psicopedagógico é parte do trabalho clínico. Quando o psicopedagogo participa de uma equipe multiprofissional que trabalha com o protocolo, o uso cabível é o de recurso complementar de observação, com fundamentação científica e leitura qualitativa — não o de instrumento que fecha classificação diagnóstica.
4. Como o PROTEA-R é aplicado
Material necessário
- Manual do Sistema PROTEA-R (livro de instruções publicado pela Vetor Editora).
- Livros de avaliação para o registro da observação e da pontuação dos itens.
- Brinquedos para a hora lúdica: seleção indicada no manual para os contextos livre e semiestruturado. Os brinquedos não precisam ser idênticos aos sugeridos, mas devem ter propriedades semelhantes, para cumprir a mesma função na brincadeira — incluindo objetos com estímulos sensoriais.
- Sala de avaliação com espaço para observar interação com a criança e setting de entrevista com os pais.
- Filmadora ou gravador (opcional, recomendado para análise posterior e supervisão).
Setting e procedimento
- 1Entrevista de anamnese com os pais. Levantar a história do desenvolvimento e o comportamento atual da criança — comunicação, socialização, brincadeira e possíveis comportamentos repetitivos.
- 2Preparação do avaliador. Antes da hora lúdica, compreender os itens que serão pontuados e os fundamentos do protocolo, para guiar a própria conduta durante a sessão.
- 3Hora lúdica — contexto livre. Permitir a iniciativa espontânea da criança, seguir o foco de atenção dela e oferecer gradualmente os brinquedos que não forem explorados.
- 4Hora lúdica — contexto semiestruturado. Apresentar os brinquedos um por vez, em ordem definida, demonstrando como funcionam — o que cria oportunidades para a criança buscar ajuda e permite observar reações a estímulos sensoriais intensos.
- 5Pontuação dos 17 itens. Após a sessão (duração estimada de 45 minutos), pontuar qualidade e frequência de cada comportamento — de preferência com apoio de videogravação.
- 6Articulação dos dados. Cruzar anamnese e observação, montar o perfil de potencialidades e dificuldades e calcular o escore de risco.
- 7Devolutiva e relatório. Comunicar resultados à família e registrar o parecer. O diagnóstico de TEA, com o nível de suporte do DSM-5, é conclusão da avaliação clínica completa — não do protocolo isolado.
5. Como interpretar os resultados
O PROTEA-R não se resume a um número: além do escore de risco (calculado a partir dos itens críticos), gera um perfil clínico estruturado de potencialidades e dificuldades que sustenta a hipótese diagnóstica. As três áreas do PROTEA-R-NV são:
| Área avaliada | O que indica desempenho compatível com TEA |
|---|---|
| Comportamentos sociocomunicativos (8 itens) | Dificuldades em iniciar e responder à atenção compartilhada, imitar, engajar-se socialmente, sorrir, buscar contato físico afetivo e buscar assistência; protesto ou retraimento atípicos |
| Qualidade da brincadeira (6 itens) | Exploração pobre ou atípica dos brinquedos, dificuldades de coordenação visuomotora, pouca brincadeira funcional e simbólica |
| Movimentos repetitivos e estereotipados (3 itens) | Movimentos repetitivos das mãos ou de outras partes do corpo e comportamentos autolesivos |
Análise por padrão clínico
Os perfis abaixo não são categorias do manual — são leituras clínicas frequentes quando o resultado do PROTEA-R é integrado ao restante da avaliação e levam a diferentes encaminhamentos:
- Perfil clássico de TEA com prejuízo intenso: alterações marcadas em todas as áreas — interação, comunicação e comportamento. DSM-5 nível 3 (suporte muito substancial). Encaminhamento imediato para terapia intensiva ABA + suporte escolar especializado.
- Perfil de TEA com nível moderado: alterações claras em interação e comportamento, comunicação parcialmente preservada. Nível 2 (suporte substancial). Plano combinado de intervenção terapêutica e escolarização inclusiva com mediador.
- Perfil de TEA leve / antigo Asperger: interação prejudicada mas comunicação verbal preservada, interesses restritos marcantes. Nível 1 (necessita de suporte). Frequentemente combina-se com ansiedade e sobrecarga sensorial em sala de aula.
- Perfil indeterminado / quadro misto: sinais sugestivos mas não conclusivos — possível TDAH com prejuízo social, transtorno de linguagem ou outro. Indica reavaliação em 6 a 12 meses ou complementação com outros instrumentos como CARS ou Vineland.
- Perfil sem indicadores significativos: dados não compatíveis com TEA. Investigar outras hipóteses — ansiedade, dificuldades emocionais, transtornos de linguagem isolados, deficiência intelectual sem TEA.
Para articular os achados do laudo PROTEA-R com testes psicopedagógicos complementares, use o Seletor de Testes iPsy.
6. Quando usar o PROTEA-R na avaliação psicopedagógica
1. Como referência ao receber laudo diagnóstico de TEA. Quando uma criança chega ao psicopedagogo com diagnóstico de autismo, o PROTEA-R é um dos instrumentos que pode ter fundamentado o laudo. Identificar isso no documento ajuda a entender que áreas foram especialmente investigadas — e quais ainda merecem atenção.
2. Para mapear áreas a complementar com avaliação psicopedagógica. O PROTEA-R foca na investigação clínica do TEA — não avalia leitura, escrita, matemática ou aspectos pedagógicos específicos. O psicopedagogo entra justamente nesse complemento, com instrumentos próprios. Para selecionar os complementares ideais, use o Seletor de Testes iPsy.
3. Em casos de TEA com indicação escolar formal. Quando há laudo PROTEA-R, a escola precisa ser informada para fazer adaptações curriculares e escolha de mediador. O psicopedagogo costuma ser quem traduz o laudo psicológico para a linguagem pedagógica.
Para essa tradução, o Guia Completo de TEA da Biblioteca do iPsy traz orientação à escola e elaboração de PEI, e o Pacote Atividades Adaptadas para TEA oferece 30 atividades com apoio visual para as sessões — os dois para baixar com conta gratuita.
4. Em devolutivas familiares interdisciplinares. Quando família, escola e equipe terapêutica se reúnem para discutir o caso, o psicopedagogo precisa articular dados do laudo com a observação pedagógica. Modelos de relatório que integram dados de múltiplos profissionais estão no Kit de Documentos iPsy.
7. Limitações importantes do PROTEA-R
- Disponibilidade limitada de profissionais treinados. Apesar de ser brasileiro, o PROTEA-R exige treinamento específico — disponível principalmente em centros universitários e cursos avançados de avaliação psicológica. Em muitas regiões do país, profissionais habilitados são escassos.
- Tempo de aplicação significativo. A avaliação completa (anamnese, hora lúdica, pontuação — de preferência a partir de vídeo — e devolutiva) demanda mais de um encontro e tempo de análise — pouco compatível com contextos de avaliação rápida ou serviços com fila longa.
- Não substitui avaliação multidisciplinar. Mesmo aplicado integralmente, o PROTEA-R isolado não fecha diagnóstico de TEA. O diagnóstico, com base nos critérios do DSM-5, depende de uma avaliação clínica que integre diferentes profissionais (psicologia, neurologia, fonoaudiologia) e, idealmente, observação em ambiente natural.
- Forte dependência da experiência clínica do aplicador. Como qualquer instrumento de observação clínica, a sensibilidade do PROTEA-R depende da capacidade do avaliador de captar comportamentos sutis e diferenciá-los de variações típicas do desenvolvimento.
- Pouca cobertura de crianças mais velhas, adolescentes e adultos. O foco do protocolo é em crianças em torno de 24 a 60 meses. Para diagnóstico tardio em adolescentes e adultos, outros instrumentos são mais indicados (RAADS-R, AQ, ADOS-2 versão adulta).