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Desenvolvimento e TEA

PROTEA-R: Protocolo TEA Revisado [2026]

Equipe iPsy
Atualizado em set/202610 min de leitura
Psicopedagogia e neuropsicopedagogia
Faixa etária
24–60 meses
Quem aplica
Multiprofissional
Categoria
Desenvolvimento e TEA

O PROTEA-R é um dos poucos instrumentos brasileiros desenvolvidos especificamente para avaliação de crianças com suspeita de TEA — e isso o torna estratégico em qualquer avaliação multidisciplinar feita no Brasil. Construído na UFRGS por Cleonice Bosa e colaboradores, o protocolo combina frentes que raramente aparecem juntas no mesmo instrumento: observação direta da criança em hora lúdica, entrevista com os pais e um perfil qualitativo com escore de risco. Para o psicopedagogo que recebe laudos diagnósticos de TEA, conhecer a lógica do PROTEA-R é o que permite ler o documento em profundidade.

Este guia explica o que é o PROTEA-R, como o protocolo foi desenvolvido na UFRGS, quais são as peças do sistema, o que cada uma avalia, como é aplicado e como o psicopedagogo deve ler e usar os achados na avaliação psicopedagógica complementar.

1. O que é o PROTEA-R

PROTEA-R vem de Protocolo de Avaliação Comportamental para Crianças com Suspeita de TEA — Revisado. Foi desenvolvido na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) pelo grupo da pesquisadora Cleonice Alves Bosa (Núcleo de Estudos e Pesquisas em Transtornos do Desenvolvimento — NIEPED) e publicado em 2018 pela Vetor como Sistema PROTEA-R de Avaliação da Suspeita de Transtorno do Espectro Autista, de Cleonice Alves Bosa e Jerusa Fumagalli de Salles.

O propósito do PROTEA-R é organizar a avaliação clínica do TEA infantil em um protocolo padronizado, em português brasileiro, considerando características culturais, desenvolvimentais e sociais brasileiras. Diferente de instrumentos como ADOS-2 ou ADI-R (importados, com licenciamento internacional), o PROTEA-R foi pensado de origem para a realidade nacional — incluindo perguntas, contextos e exemplos familiares à família brasileira.

O sistema articula fontes de informação convergentes: a entrevista de anamnese com os pais sobre desenvolvimento e comportamento, a observação clínica da criança em hora lúdica (brincadeira livre e semiestruturada) e o perfil que o avaliador constrói a partir dos dois. Essa triangulação é o que dá robustez ao processo diagnóstico — especialmente em casos onde os sinais de TEA são sutis ou flutuantes.

Faixa etária

O PROTEA-R é indicado para crianças em torno de 24 a 60 meses (2 a 5 anos), especialmente as não verbais, com suspeita de TEA ou de outros transtornos da comunicação. Em crianças menores, é mais comum o uso de instrumentos de rastreio como o M-CHAT (16 a 30 meses); em crianças mais velhas e adolescentes, são usados outros instrumentos. O PROTEA-R cobre, portanto, a janela da idade pré-escolar.

2. As três peças do Sistema PROTEA-R

Atenção a uma confusão comum: nas fontes oficiais (editora e artigos das autoras) não encontramos versões chamadas “PROTEA-R-PI” ou “PROTEA-R-T”. O que a literatura descreve são três peças articuladas do Sistema PROTEA-R, cada uma com função distinta no processo de avaliação:

Peça do sistemaFinalidadeQuem responde
Entrevista de anamneseHistória do desenvolvimento, comunicação, socialização, brincadeira e comportamentos repetitivosPais ou responsáveis, em entrevista com o avaliador
PROTEA-R-NV (hora lúdica)Observação estruturada da criança em brincadeira livre e semiestruturada; 17 itensPontuado pelo avaliador após a sessão
Perfil e escore de riscoParecer qualitativo de potencialidades e dificuldades, mais um escore de risco para TEA calculado a partir dos itens críticosElaborado pelo avaliador

O PROTEA-R-NV (versão revisada, não verbal) observa a criança em uma hora lúdica com dois contextos — brincadeira livre e brincadeira semiestruturada —, com duração estimada de 45 minutos. Os 17 itens se distribuem em três áreas: comportamentos sociocomunicativos (8 itens), qualidade da brincadeira (6 itens) e movimentos repetitivos e estereotipados (3 itens). No contexto semiestruturado, brinquedos com estímulos sensoriais intensos também permitem observar reações atípicas.

A entrevista de anamnese reúne, com os pais, informações sobre o desenvolvimento da criança — comunicação, socialização, brincadeira e possíveis comportamentos repetitivos e estereotipados. Funciona como complemento essencial à observação direta, porque captura informações que só a família pode trazer.

Na codificação, cada item é avaliado quanto à qualidade e à frequência do comportamento, o que permite descrever níveis de comprometimento, escrever um parecer detalhado e calcular o escore de risco. As autoras descrevem o PROTEA-R-NV como um rastreio de segundo nível — usado quando já existe suspeita, não como triagem universal.

3. Quem pode aplicar o PROTEA-R

O PROTEA-R é apresentado pelas autoras como um instrumento interdisciplinar: segundo a Vetor, é indicado para psicólogos, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, psicopedagogos, médicos, educadores e pesquisadores das áreas de saúde e educação. Na consulta ao SATEPSI (Sistema de Avaliação de Testes Psicológicos do CFP) de 25/09/2026, o PROTEA-R não aparece na lista de testes psicológicos favoráveis nem na de instrumentos não privativos do psicólogo. Pelo próprio fluxo publicado no SATEPSI, o que não é teste psicológico pode ser utilizado como recurso complementar, desde que haja fundamentação científica — de forma qualitativa e dentro da competência de cada profissional.

Na prática, o PROTEA-R circula em contextos de avaliação clínica, de pesquisa e de extensão universitária, e o psicopedagogo frequentemente recebe laudos baseados em PROTEA-R, especialmente em casos de crianças com diagnóstico ou suspeita de autismo. Saber identificar no laudo quais peças do sistema foram usadas, que áreas a avaliação contemplou e como integrar essas informações ao plano psicopedagógico é parte do trabalho clínico. Quando o psicopedagogo participa de uma equipe multiprofissional que trabalha com o protocolo, o uso cabível é o de recurso complementar de observação, com fundamentação científica e leitura qualitativa — não o de instrumento que fecha classificação diagnóstica.

4. Como o PROTEA-R é aplicado

Material necessário

  1. Manual do Sistema PROTEA-R (livro de instruções publicado pela Vetor Editora).
  2. Livros de avaliação para o registro da observação e da pontuação dos itens.
  3. Brinquedos para a hora lúdica: seleção indicada no manual para os contextos livre e semiestruturado. Os brinquedos não precisam ser idênticos aos sugeridos, mas devem ter propriedades semelhantes, para cumprir a mesma função na brincadeira — incluindo objetos com estímulos sensoriais.
  4. Sala de avaliação com espaço para observar interação com a criança e setting de entrevista com os pais.
  5. Filmadora ou gravador (opcional, recomendado para análise posterior e supervisão).

Setting e procedimento

  1. 1Entrevista de anamnese com os pais. Levantar a história do desenvolvimento e o comportamento atual da criança — comunicação, socialização, brincadeira e possíveis comportamentos repetitivos.
  2. 2Preparação do avaliador. Antes da hora lúdica, compreender os itens que serão pontuados e os fundamentos do protocolo, para guiar a própria conduta durante a sessão.
  3. 3Hora lúdica — contexto livre. Permitir a iniciativa espontânea da criança, seguir o foco de atenção dela e oferecer gradualmente os brinquedos que não forem explorados.
  4. 4Hora lúdica — contexto semiestruturado. Apresentar os brinquedos um por vez, em ordem definida, demonstrando como funcionam — o que cria oportunidades para a criança buscar ajuda e permite observar reações a estímulos sensoriais intensos.
  5. 5Pontuação dos 17 itens. Após a sessão (duração estimada de 45 minutos), pontuar qualidade e frequência de cada comportamento — de preferência com apoio de videogravação.
  6. 6Articulação dos dados. Cruzar anamnese e observação, montar o perfil de potencialidades e dificuldades e calcular o escore de risco.
  7. 7Devolutiva e relatório. Comunicar resultados à família e registrar o parecer. O diagnóstico de TEA, com o nível de suporte do DSM-5, é conclusão da avaliação clínica completa — não do protocolo isolado.

5. Como interpretar os resultados

O PROTEA-R não se resume a um número: além do escore de risco (calculado a partir dos itens críticos), gera um perfil clínico estruturado de potencialidades e dificuldades que sustenta a hipótese diagnóstica. As três áreas do PROTEA-R-NV são:

Área avaliadaO que indica desempenho compatível com TEA
Comportamentos sociocomunicativos (8 itens)Dificuldades em iniciar e responder à atenção compartilhada, imitar, engajar-se socialmente, sorrir, buscar contato físico afetivo e buscar assistência; protesto ou retraimento atípicos
Qualidade da brincadeira (6 itens)Exploração pobre ou atípica dos brinquedos, dificuldades de coordenação visuomotora, pouca brincadeira funcional e simbólica
Movimentos repetitivos e estereotipados (3 itens)Movimentos repetitivos das mãos ou de outras partes do corpo e comportamentos autolesivos

Análise por padrão clínico

Os perfis abaixo não são categorias do manual — são leituras clínicas frequentes quando o resultado do PROTEA-R é integrado ao restante da avaliação e levam a diferentes encaminhamentos:

  1. Perfil clássico de TEA com prejuízo intenso: alterações marcadas em todas as áreas — interação, comunicação e comportamento. DSM-5 nível 3 (suporte muito substancial). Encaminhamento imediato para terapia intensiva ABA + suporte escolar especializado.
  2. Perfil de TEA com nível moderado: alterações claras em interação e comportamento, comunicação parcialmente preservada. Nível 2 (suporte substancial). Plano combinado de intervenção terapêutica e escolarização inclusiva com mediador.
  3. Perfil de TEA leve / antigo Asperger: interação prejudicada mas comunicação verbal preservada, interesses restritos marcantes. Nível 1 (necessita de suporte). Frequentemente combina-se com ansiedade e sobrecarga sensorial em sala de aula.
  4. Perfil indeterminado / quadro misto: sinais sugestivos mas não conclusivos — possível TDAH com prejuízo social, transtorno de linguagem ou outro. Indica reavaliação em 6 a 12 meses ou complementação com outros instrumentos como CARS ou Vineland.
  5. Perfil sem indicadores significativos: dados não compatíveis com TEA. Investigar outras hipóteses — ansiedade, dificuldades emocionais, transtornos de linguagem isolados, deficiência intelectual sem TEA.

Para articular os achados do laudo PROTEA-R com testes psicopedagógicos complementares, use o Seletor de Testes iPsy.

6. Quando usar o PROTEA-R na avaliação psicopedagógica

1. Como referência ao receber laudo diagnóstico de TEA. Quando uma criança chega ao psicopedagogo com diagnóstico de autismo, o PROTEA-R é um dos instrumentos que pode ter fundamentado o laudo. Identificar isso no documento ajuda a entender que áreas foram especialmente investigadas — e quais ainda merecem atenção.

2. Para mapear áreas a complementar com avaliação psicopedagógica. O PROTEA-R foca na investigação clínica do TEA — não avalia leitura, escrita, matemática ou aspectos pedagógicos específicos. O psicopedagogo entra justamente nesse complemento, com instrumentos próprios. Para selecionar os complementares ideais, use o Seletor de Testes iPsy.

3. Em casos de TEA com indicação escolar formal. Quando há laudo PROTEA-R, a escola precisa ser informada para fazer adaptações curriculares e escolha de mediador. O psicopedagogo costuma ser quem traduz o laudo psicológico para a linguagem pedagógica.

Para essa tradução, o Guia Completo de TEA da Biblioteca do iPsy traz orientação à escola e elaboração de PEI, e o Pacote Atividades Adaptadas para TEA oferece 30 atividades com apoio visual para as sessões — os dois para baixar com conta gratuita.

4. Em devolutivas familiares interdisciplinares. Quando família, escola e equipe terapêutica se reúnem para discutir o caso, o psicopedagogo precisa articular dados do laudo com a observação pedagógica. Modelos de relatório que integram dados de múltiplos profissionais estão no Kit de Documentos iPsy.

7. Limitações importantes do PROTEA-R

  1. Disponibilidade limitada de profissionais treinados. Apesar de ser brasileiro, o PROTEA-R exige treinamento específico — disponível principalmente em centros universitários e cursos avançados de avaliação psicológica. Em muitas regiões do país, profissionais habilitados são escassos.
  2. Tempo de aplicação significativo. A avaliação completa (anamnese, hora lúdica, pontuação — de preferência a partir de vídeo — e devolutiva) demanda mais de um encontro e tempo de análise — pouco compatível com contextos de avaliação rápida ou serviços com fila longa.
  3. Não substitui avaliação multidisciplinar. Mesmo aplicado integralmente, o PROTEA-R isolado não fecha diagnóstico de TEA. O diagnóstico, com base nos critérios do DSM-5, depende de uma avaliação clínica que integre diferentes profissionais (psicologia, neurologia, fonoaudiologia) e, idealmente, observação em ambiente natural.
  4. Forte dependência da experiência clínica do aplicador. Como qualquer instrumento de observação clínica, a sensibilidade do PROTEA-R depende da capacidade do avaliador de captar comportamentos sutis e diferenciá-los de variações típicas do desenvolvimento.
  5. Pouca cobertura de crianças mais velhas, adolescentes e adultos. O foco do protocolo é em crianças em torno de 24 a 60 meses. Para diagnóstico tardio em adolescentes e adultos, outros instrumentos são mais indicados (RAADS-R, AQ, ADOS-2 versão adulta).

Fontes

Dúvidas comuns sobre o PROTEA-R

O psicopedagogo pode aplicar o PROTEA-R?
Segundo a Vetor, o sistema é indicado também para psicopedagogos, ao lado de psicólogos, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, médicos e educadores. Na consulta ao SATEPSI de 25/09/2026, o PROTEA-R não consta na lista de testes favoráveis nem na de não privativos. Em qualquer caso, o uso pede formação no instrumento e deve ficar dentro da competência do profissional, sem tratar o resultado como classificação diagnóstica. Na maior parte dos casos, o psicopedagogo entra na etapa seguinte: recebe laudos baseados no PROTEA-R e usa os dados para planejar a intervenção pedagógica.
O PROTEA-R fecha diagnóstico de autismo isoladamente?
Não. O PROTEA-R é um instrumento robusto, mas o diagnóstico de TEA conforme o DSM-5 exige avaliação multidisciplinar, observação em múltiplos contextos e exclusão de diagnósticos diferenciais. O resultado do PROTEA-R sustenta a hipótese diagnóstica — não a fecha sozinho. É o conjunto da avaliação clínica que determina o diagnóstico.
Qual a diferença entre PROTEA-R, M-CHAT e CARS?
O M-CHAT é um instrumento de rastreio (triagem) usado em pediatria, geralmente entre 16 e 30 meses. A CARS é uma escala de classificação de severidade. O PROTEA-R é um sistema brasileiro de avaliação clínica, que integra anamnese e observação estruturada em hora lúdica (24 a 60 meses) — usado quando já há suspeita e quer-se aprofundar a investigação. M-CHAT triagem, CARS classifica, PROTEA-R aprofunda.
Quanto tempo leva a aplicação completa do PROTEA-R?
A hora lúdica do PROTEA-R-NV, com os contextos livre e semiestruturado, tem duração estimada de 45 minutos. A isso se somam a entrevista de anamnese com os pais, a pontuação dos 17 itens (de preferência a partir de vídeo) e a devolutiva — o tempo total varia conforme o caso e o serviço.
O PROTEA-R precisa ser aplicado em todos os casos de suspeita de TEA?
Não. Em casos de suspeita inicial, instrumentos de rastreio como M-CHAT são suficientes para indicar se há ou não risco. O PROTEA-R, descrito pelas autoras como rastreio de segundo nível, entra quando há indicação clara de aprofundamento — geralmente após triagem positiva ou quando o pediatra/psicólogo identifica sinais consistentes. É um protocolo robusto, pensado para investigação aprofundada, não para uso em todas as primeiras consultas.