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Desenvolvimento e TEA

VB-MAPP: Marcos do Comportamento Verbal [2026]

Equipe iPsy
Atualizado em set/202611 min de leitura
Psicopedagogia e neuropsicopedagogia
Faixa etária
0–48 meses
Quem aplica
Multiprofissional
Categoria
Desenvolvimento e TEA

O VB-MAPP é, hoje, o instrumento de avaliação comportamental mais usado mundialmente para mapear o desenvolvimento de linguagem em crianças com autismo. Mais que um teste, é um sistema completo: organiza 170 marcos verbais, 24 barreiras à aprendizagem e 18 critérios de transição em um único protocolo que orienta tanto o diagnóstico funcional quanto o currículo de intervenção. Para o psicopedagogo que recebe relatórios de equipes ABA, entender o VB-MAPP deixou de ser opcional — passou a ser pré-requisito para articular plano pedagógico com plano terapêutico.

Este guia explica o que é o VB-MAPP, como Mark Sundberg o desenvolveu a partir da análise do comportamento verbal de Skinner, quais são os 5 componentes do instrumento, como cada componente é aplicado, como interpretar os escores e como usar os achados na avaliação psicopedagógica de crianças com TEA.

1. O que é o VB-MAPP

Ilustração do VB-MAPP como mapa: avaliação do comportamento verbal até o nível de 48 meses, feita pela equipe ABA com brincadeira estruturada e ligada ao planejamento.
  1. 1O que avalia: linguagem e habilidades de aprendizagem
  2. 2Para quem: repertório de até 48 meses, em geral crianças com TEA
  3. 3Quem aplica: equipe com formação em ABA
  4. 4Formato: observação e testagem estruturada em sessões
Ilustração: o VB-MAPP avalia o repertório e já aponta o que ensinar a seguir.

VB-MAPP é a sigla de Verbal Behavior Milestones Assessment and Placement Program (Programa de Avaliação de Marcos e Posicionamento do Comportamento Verbal). Foi desenvolvido pelo analista do comportamento norte-americano Mark L. Sundberg e publicado em 2008, com 2ª edição do guia em 2014 (AVB Press). O instrumento se baseia no livro Comportamento Verbal (Skinner, 1957) e no acúmulo de evidências da Análise do Comportamento Aplicada (ABA) das últimas cinco décadas.

O propósito do VB-MAPP é duplo: avaliar o repertório atual de habilidades verbais e de aprendizagem da criança, e orientar a colocação curricular — ou seja, definir por onde começar a intervenção e que objetivos priorizar. Por isso o “Placement” no nome: o instrumento não termina no escore, ele entrega um caminho de intervenção.

O diferencial do VB-MAPP é organizar a linguagem não pelas categorias gramaticais tradicionais, mas pelos operantes verbais skinnerianos: mando (pedir), tato (nomear), ecóico (repetir), intraverbal (responder a perguntas), comportamento de ouvinte e outros. Essa lógica funcional é o que diferencia o VB-MAPP de instrumentos baseados apenas em vocabulário ou estrutura sintática.

Faixa etária

O VB-MAPP foi desenhado para avaliar habilidades verbais e de aprendizagem em crianças com idade de desenvolvimento equivalente entre 0 e 48 meses (até 4 anos). Na prática, é aplicado em crianças com diagnóstico ou suspeita de TEA, atrasos de linguagem ou outros transtornos do desenvolvimento, independentemente da idade cronológica — pode ser útil em uma criança de 8 anos com nível de desenvolvimento de 2 anos, por exemplo.

2. Os 5 componentes do VB-MAPP

Ilustração dos cinco componentes do VB-MAPP: avaliação de marcos em três níveis, barreiras, transição, análise de tarefas e posicionamento com objetivos do plano.
  1. 11. Avaliação de Marcos (170 marcos em 3 níveis)
  2. 22. Avaliação de Barreiras
  3. 33. Avaliação de Transição
  4. 44. Análise de Tarefas e Habilidades de Suporte
  5. 55. Posicionamento e objetivos do PEI
Ilustração: o VB-MAPP é um sistema de cinco partes, não um teste único.

O VB-MAPP é composto por cinco partes que se articulam — não é um único teste, mas um sistema avaliativo completo:

ComponenteO que avaliaItens
1. Avaliação de MarcosRepertório atual em 16 áreas de habilidade170 marcos em 3 níveis
2. Avaliação de BarreirasObstáculos à aprendizagem e à linguagem24 barreiras
3. Avaliação de TransiçãoProntidão para ambiente menos restritivo18 áreas
4. Análise de Tarefas e Habilidades de SuportePassos anteriores a cada marco e habilidades complementaresSuplemento de habilidades
5. Posicionamento e Objetivos do PEIRecomendações de objetivos e intervençãoGuia de colocação

A Avaliação de Marcos é o coração do instrumento — divide-se em três níveis correspondentes a faixas de desenvolvimento típico: Nível 1 (0-18 meses), Nível 2 (18-30 meses) e Nível 3 (30-48 meses). Ao longo dos níveis, as 16 áreas incluem mando, tato, ecóico, intraverbal, comportamento de ouvinte, imitação motora, brincadeira independente, comportamento social, leitura, escrita e matemática — nem todas aparecem em todos os níveis (intraverbal começa no Nível 2; leitura, escrita e matemática só entram no Nível 3).

A Avaliação de Barreiras mapeia os obstáculos comuns que impedem o avanço — comportamentos de fuga, autoestimulação, controle instrucional fraco, ecolalia disfuncional, dependência de prompts e outros. É essa parte que orienta a redução de barreiras como objetivo de intervenção, não apenas o ensino de novas habilidades.

A Avaliação de Transição avalia se a criança está pronta para um ambiente educacional menos restritivo (escola regular, sala de aula em grupo) — itens como aprender em grupo, seguir instruções coletivas, manter atenção em tarefa em sala de aula.

3. Quem pode aplicar o VB-MAPP

O VB-MAPP é um instrumento de avaliação comportamental; o próprio protocolo registra que recebeu contribuições de fonoaudiólogos, analistas do comportamento, psicólogos, professores de educação especial, terapeutas ocupacionais e pais. Na consulta ao SATEPSI de 25/09/2026, o VB-MAPP não aparece na lista de testes psicológicos favoráveis nem na de instrumentos não privativos do psicólogo. No Brasil, é aplicado principalmente por analistas do comportamento certificados (BCBA, BCaBA), psicólogos com formação em ABA, fonoaudiólogos especializados em TEA e terapeutas ocupacionais que atuam em equipes interdisciplinares.

Para o psicopedagogo, o cenário mais comum é receber e interpretar relatórios de VB-MAPP emitidos pela equipe terapêutica da criança — não aplicar o instrumento. O psicopedagogo com formação específica em ABA e treinamento na aplicação pode usá-lo, mas o uso técnico-formal costuma ficar na equipe ABA, e o psicopedagogo entra na ponte com o ambiente escolar.

4. Como o VB-MAPP é aplicado

Material necessário

  1. Protocolo VB-MAPP completo (manual + protocolos de cada componente, vendidos comercialmente).
  2. Materiais lúdicos e de instrução variados brinquedos, figuras, livros, objetos do dia a dia.
  3. Cartelas de figuras para tato e comportamento de ouvinte.
  4. Reforçadores conhecidos da criança (alimentos, atividades, itens preferidos), conforme protocolo ABA.
  5. Folha de registro dos componentes — em papel (protocolo) ou em planilha/software.

Setting e procedimento

  1. 1Coleta de informações pré-aplicação. Entrevista com pais e equipe escolar para mapear repertório anterior, queixa principal e objetivos das famílias.
  2. 2Definição do nível inicial. Com base na idade desenvolvimental estimada, escolher por qual dos 3 níveis começar a Avaliação de Marcos.
  3. 3Combinação de métodos avaliativos. O VB-MAPP permite avaliação por observação direta, teste estruturado (apresentação de estímulos) e relato dos cuidadores — geralmente combinados.
  4. 4Aplicação dos marcos por área. Ir avaliando habilidade por habilidade, registrando se a criança apresenta o marco completo, parcial ou ausente.
  5. 5Avaliação das barreiras em paralelo. Durante e após a observação, registrar quais barreiras estão presentes e em que intensidade (escala de 0 a 4).
  6. 6Avaliação de transição. Para crianças mais avançadas, aplicar as 18 áreas de transição com observação em ambiente coletivo, se possível.
  7. 7Análise de tarefas suplementares. Para áreas com escore baixo, usar a análise de tarefa do VB-MAPP para subdividir habilidades em passos menores ensináveis.
  8. 8Elaboração do plano de posicionamento. Com base no perfil completo, definir objetivos prioritários e organizar o currículo de intervenção.

5. Como interpretar os resultados

Ilustração da leitura do VB-MAPP: o perfil de barras por área, a checagem das barreiras, a reunião da equipe com a família e o plano levado para a sala de aula.
  1. 1Perfil de barras por área e nível
  2. 2Checagem das barreiras que travam o avanço
  3. 3Reunião da equipe com a família e a escola
  4. 4Objetivos do PEI levados para a rotina e a sala de aula
Ilustração: o perfil do VB-MAPP é lido de forma qualitativa e vira objetivos de ensino.

O VB-MAPP gera um perfil visual em forma de gráfico de barras — uma para cada área de habilidade, em cada nível. A leitura é primariamente qualitativa e clínica, não estatística normativa. As classificações práticas são:

ResultadoIndicação
Escore alto no Nível 1, baixo nos 2 e 3Criança em fase inicial de aquisição — programa intensivo de marcos básicos
Escores irregulares (picos e vales)Repertório fragmentado — atenção a áreas atrasadas mesmo com idade global avançada
Marcos básicos preservados + muitas barreirasFoco em reduzir barreiras antes de avançar conteúdo
Avaliação de transição baixaCriança ainda não pronta para ambiente escolar regular sem suporte intensivo
Escores altos nos 3 níveisReavaliação com instrumento de faixa superior (ABLLS-R, AFLS)

Análise por padrão clínico

Cinco padrões de perfil aparecem com frequência na prática e orientam decisões diferentes:

  1. Perfil “ouvinte forte, falante fraco”: criança entende muito (comportamento de ouvinte alto) mas fala pouco (mando e tato baixos). Sugere foco em ensino de comunicação expressiva, possivelmente com sistemas alternativos (PECS, comunicação por figuras).
  2. Perfil “ecoico forte, intraverbal fraco”: criança repete palavras com facilidade mas não responde a perguntas. Indica trabalho específico em intraverbal — habilidade central para conversação funcional.
  3. Perfil “barreiras dominam”: escores de marcos razoáveis, mas barreiras altas (fuga, autoestimulação, dependência de prompts). O ensino de novas habilidades precisa esperar a redução das barreiras — ou ambos correm em paralelo.
  4. Perfil “social baixo isolado”: habilidades cognitivas e linguísticas preservadas, mas comportamento social rebaixado. Foco em habilidades de brincadeira em pares, atenção compartilhada, jogo simbólico.
  5. Perfil “regressão”: reavaliação mostra perda de marcos antes adquiridos. Sinal de alerta — investigar fatores médicos, ambientais ou neurológicos. Comunicar à família e equipe imediatamente.

Para selecionar instrumentos psicopedagógicos complementares quando a criança avança para escolarização formal, use o Seletor de Testes iPsy.

6. Quando usar o VB-MAPP na avaliação psicopedagógica

1. Em crianças com TEA antes da escolarização. Quando uma criança com diagnóstico de autismo está em fase pré-escolar ou início do fundamental, o relatório de VB-MAPP da equipe ABA é insumo essencial para o psicopedagogo planejar adaptações curriculares e estratégias de inclusão.

2. Para articular intervenção ABA com plano pedagógico. O VB-MAPP fornece a linguagem técnica que a equipe ABA usa. Saber traduzir “déficit em mando” para “dificuldade em pedir o que quer em sala” é o que torna o psicopedagogo um interlocutor competente. Os instrumentos psicopedagógicos complementares estão organizados no Seletor de Testes iPsy.

Para transformar esses alvos em atividade de sala ou de sessão, o Pacote Atividades Adaptadas para TEA reúne 30 atividades com rotinas pictográficas, comunicação alternativa e associação; está na Biblioteca do iPsy, para baixar com conta gratuita.

3. Em casos de transição para escola regular. A Avaliação de Transição do VB-MAPP indica diretamente se a criança tem prontidão para sala de aula coletiva — informação preciosa para reuniões de inclusão, conselhos de classe e elaboração de PEI (Plano Educacional Individualizado).

4. Em devolutivas e relatórios psicopedagógicos. Quando o psicopedagogo emite parecer sobre aluno com TEA, citar e articular dados do VB-MAPP fortalece o documento. Modelos de relatório que integram dados de equipe interdisciplinar estão no Kit de Documentos iPsy.

7. Limitações importantes do VB-MAPP

  1. Teto desenvolvimental relativamente baixo. O VB-MAPP avalia até equivalência de 48 meses. Para crianças com desenvolvimento mais avançado, é preciso migrar para o ABLLS-R ou para o AFLS, que cobrem habilidades mais complexas.
  2. Forte dependência da formação ABA do aplicador. Como muitos itens dependem de observação ou apresentação estruturada de estímulos, profissionais sem treinamento ABA tendem a aplicar de forma inconsistente, comprometendo a confiabilidade.
  3. Não é instrumento diagnóstico de TEA. O VB-MAPP avalia repertório de habilidades — não diz se a criança “tem ou não” autismo. Para diagnóstico, instrumentos como CARS ou avaliação clínica multidisciplinar conforme DSM-5 são necessários.
  4. Custo elevado e licenciamento. O protocolo completo é caro e exige aquisição comercial — o que limita acesso em serviços públicos e em consultórios pequenos. Versões resumidas circulam, mas comprometem a integridade do instrumento.
  5. Foco quase exclusivo em comportamento verbal. Áreas como comportamento adaptativo amplo (autocuidado, vida diária) são melhor avaliadas por instrumentos como a Escala Vineland. O VB-MAPP é parte de uma bateria — não substitui avaliação multidimensional.

Fontes

Dúvidas comuns sobre o VB-MAPP

O psicopedagogo pode aplicar o VB-MAPP?
Na consulta ao SATEPSI de 25/09/2026, o VB-MAPP não consta na lista de testes favoráveis nem na de não privativos. O próprio protocolo recomenda que o avaliador conheça análise do comportamento e a abordagem comportamental da linguagem — ou seja, exige formação técnica em ABA. Psicopedagogos com pós em ABA ou treinamento equivalente podem aplicar; os demais costumam atuar interpretando relatórios da equipe ABA da criança. O foco principal do psicopedagogo é fazer a ponte entre os achados do VB-MAPP e o ambiente escolar.
O VB-MAPP fecha diagnóstico de autismo?
Não. O VB-MAPP avalia repertório de habilidades verbais e de aprendizagem — não é instrumento diagnóstico. Para diagnóstico de TEA, são usados critérios clínicos do DSM-5, complementados por instrumentos como ADOS-2, ADI-R, CARS e M-CHAT. O VB-MAPP entra depois do diagnóstico, para orientar intervenção.
Quanto tempo dura a aplicação completa do VB-MAPP?
Não há um tempo fixo: depende do nível da criança e de quantas áreas precisam ser testadas diretamente, e a aplicação inicial costuma ser distribuída em várias sessões. Alguns marcos exigem observação cronometrada (por exemplo, 60 minutos para registrar mandos espontâneos). O protocolo prevê até quatro aplicações registradas na mesma folha, para acompanhar o progresso; reaplicações tendem a ser mais rápidas porque partem do que já foi registrado.
Qual a diferença entre VB-MAPP e ABLLS-R?
Ambos são instrumentos de avaliação comportamental para crianças com TEA, baseados em ABA. O VB-MAPP avalia até equivalência de 48 meses e enfatiza marcos por nível de desenvolvimento. O ABLLS-R é mais detalhado, cobre faixa mais ampla (até as habilidades adquiridas antes do kindergarten, por volta dos 5 anos) e funciona melhor para programação curricular fina. Equipes muitas vezes usam VB-MAPP primeiro, depois migram para ABLLS-R conforme a criança avança.
O VB-MAPP serve para crianças sem autismo?
Sim. Embora seja mais usado em TEA, o VB-MAPP pode avaliar qualquer criança com atraso significativo de linguagem ou desenvolvimento — síndromes genéticas, atraso global, deficiência intelectual. O critério é a equivalência desenvolvimental até 48 meses, não o diagnóstico específico. Para articular esses casos com o contexto escolar, veja também o pilar de educação inclusiva.