funções executivas em resumo
- O que são
- Processos mentais que usamos para prestar atenção, segurar uma informação na cabeça enquanto trabalhamos com ela, resistir a impulsos e mudar de estratégia. Os três centrais são o controle inibitório, a memória de trabalho e a flexibilidade cognitiva.
- Que atividades ajudam
- Brincadeiras de parar e seguir, jogos com regras, jogos de memória e de estratégia, música e atividade física. O que as pesquisas apontam em comum é a prática repetida com dificuldade que aumenta aos poucos.
- O que esperar
- O ganho costuma aparecer no tipo de tarefa praticado e passa pouco para outras habilidades. Atividade de funções executivas é prática pedagógica, não tratamento.
- Para imprimir
- O Pacote Funções Executivas da Biblioteca do iPsy tem 30 atividades em PDF, gratuitas para quem tem conta.
Quem procura "atividades de funções executivas" quase sempre tem uma criança ou uma turma em mente: o aluno que não espera a vez, que esquece a instrução no meio do caminho, que trava quando a regra muda. Este guia explica em poucas linhas o que são as funções executivas, o que a pesquisa diz sobre estimulá-las e traz sugestões de atividades organizadas por idade, da educação infantil à adolescência.
É um texto para professoras, psicopedagogas clínicas e institucionais e famílias. Se você já sabe o que quer e só precisa do material, o Pacote Funções Executivas reúne 30 atividades em PDF para imprimir, gratuitas na Biblioteca do iPsy com conta.
1. O que são funções executivas
Funções executivas são um conjunto de processos mentais que entram em ação quando é preciso se concentrar e pensar antes de agir — quando seguir no "piloto automático" ou no primeiro impulso não daria certo. Há consenso na pesquisa em torno de três funções centrais (Diamond, 2013):
- Controle inibitório: segurar um impulso, resistir a uma distração e manter o foco no que importa. Na escola: esperar a vez de falar, não responder antes de ouvir a pergunta inteira.
- Memória de trabalho: manter uma informação na cabeça enquanto se trabalha com ela. Na escola: guardar as três partes de uma instrução, fazer uma conta de cabeça, lembrar o começo da frase enquanto escreve o fim.
- Flexibilidade cognitiva: mudar de regra, de estratégia ou de ponto de vista. Na escola: passar da adição para a subtração na mesma folha, tentar outro caminho quando o primeiro não funcionou.
A partir dessas três se constroem funções mais complexas, como raciocinar, resolver problemas e planejar (Diamond, 2013). Os exemplos de escola acima são ilustrações da iPsy, não itens de teste.
Essas habilidades não nascem prontas. O desenvolvimento é lento: começa quando a criança ainda é bebê e segue até o início da vida adulta, moldado pelas experiências e pelas interações com adultos (Center on the Developing Child, Harvard). Por isso é preciso comparar a criança com o que se espera para a idade dela, e não com um adulto.
2. Funções executivas e desempenho escolar
Em revisões de pesquisa, as funções executivas aparecem ligadas à prontidão para a escola e à competência em leitura e matemática ao longo dos anos escolares (Diamond, 2013; Diamond e Lee, 2011). Faz sentido: ler um enunciado longo, seguir as etapas de um problema, revisar um texto e mudar de estratégia quando algo dá errado dependem delas.
Isso não quer dizer que toda dificuldade escolar venha daí, nem que trabalhar funções executivas resolva dificuldade de leitura ou de matemática. Quando a queixa é específica — a criança lê com muito esforço, não entende o número —, ela pede uma avaliação da aprendizagem própria; os guias sobre dislexia e discalculia explicam esse caminho.
3. O que a pesquisa diz sobre estimular funções executivas
Uma revisão publicada na revista Science reuniu os tipos de atividade que mostraram efeito sobre as funções executivas de crianças de 4 a 12 anos: treino no computador, jogos fora do computador, exercício aeróbico, artes marciais, yoga e atenção plena (mindfulness) e programas escolares (Diamond e Lee, 2011). Três conclusões dessa literatura orientam o uso na escola:
- 1Prática repetida, com desafio crescente. É o que as abordagens que funcionaram têm em comum. Se a atividade não fica mais difícil, os ganhos são poucos — e a criança perde o interesse (Diamond, 2013; Diamond e Lee, 2011).
- 2O ganho é, em geral, específico. Quem treina memória de trabalho melhora em tarefas de memória de trabalho; o efeito costuma não passar para habilidades que não foram praticadas (Diamond e Lee, 2011). Por isso vale variar as atividades e praticar a habilidade no contexto em que ela vai ser usada.
- 3Quem começa com mais dificuldade tende a ganhar mais. Nos estudos revisados, as crianças com funções executivas mais frágeis no início foram as que mais se beneficiaram (Diamond e Lee, 2011). E a mesma revisão sugere que focar só no treino cognitivo pode funcionar menos do que cuidar também do desenvolvimento emocional, social e físico.
Um cuidado de honestidade: as atividades por idade que vêm a seguir se apoiam num guia do Center on the Developing Child, da Universidade Harvard. O próprio guia avisa que nem todas as sugestões foram comprovadas em estudos; elas refletem o julgamento de especialistas sobre atividades que dão à criança ocasião de praticar essas habilidades.
No Brasil, um estudo publicado na Revista Psicopedagogia acompanhou cinco professoras de 1º a 3º ano de uma escola pública que aplicaram um programa de funções executivas por cinco meses. Na avaliação delas, o programa foi viável e os alunos se engajaram; os obstáculos foram falta de tempo, excesso de conteúdo, falta de materiais e o comportamento dos alunos (Cecato et al., 2026). É um retrato da percepção das professoras, não uma medida de efeito — mas mostra o que costuma travar a aplicação na rotina.
4. Atividades de funções executivas por idade
As sugestões abaixo seguem as faixas do guia de Harvard. Os nomes das brincadeiras brasileiras são equivalências escolhidas pela iPsy para jogos descritos no guia. Escolha pela idade e pelo ponto de partida da criança: uma atividade fácil demais não desafia, e uma difícil demais só frustra.
3 a 5 anos (educação infantil)
- Faz de conta com plano: antes de brincar de médico ou de mercado, a criança diz — ou desenha — quem vai ser e o que vai fazer. Manter o papel e o plano exige memória de trabalho e segurar impulsos que não cabem no personagem.
- Estátua e dança rápida-devagar: dançar rápido, depois devagar, e parar quando a música para. Para aumentar o desafio, a criança congela na posição de uma figura mostrada pelo adulto. Trabalha controle inibitório e mudança de foco.
- Separar por uma regra, depois por outra: separar cartões ou peças por cor e, em seguida, pela forma. Trocar de regra é o exercício de flexibilidade cognitiva.
- Bingo do contrário: quando o adulto diz "dia", a criança marca a figura da noite. Ela precisa segurar a vontade de marcar a figura igual e lembrar a regra.
- Histórias em grupo e músicas que acumulam: cada criança acrescenta um pedaço à história, prestando atenção no que veio antes; nas músicas que vão somando versos ou gestos, é preciso lembrar a sequência inteira.
5 a 7 anos (fim da educação infantil e começo do fundamental)
- Jogo da memória e jogos de cartas: lembrar onde estava cada carta exercita a memória de trabalho; jogos em que se combina por cor ou por número, como o Uno, pedem flexibilidade para mudar o critério.
- "O mestre mandou" e "batatinha frita 1, 2, 3": responder só quando a regra permite, ficar parado quando é preciso. São jogos de atenção e controle inibitório.
- Jogos de tabuleiro com estratégia simples: damas, ludo, batalha naval. É preciso manter um plano por algumas jogadas e ajustá-lo à jogada do outro.
- Adivinhe a regra: o adulto separa blocos por um critério escondido (cor, tamanho, forma) e a criança descobre qual é, guardando as tentativas anteriores.
- Labirintos, caça-palavras simples e "eu vejo": atividades quietas de atenção seletiva e resolução de problemas — as que mais se prestam a imprimir.
Nesta idade, a meta é o adulto sair aos poucos do papel de juiz: o desafio é maior quando as próprias crianças lembram e cobram as regras.
7 a 12 anos (anos iniciais e começo dos anos finais)
- Jogos de estratégia: xadrez, damas e jogos de tabuleiro modernos pedem planejar várias jogadas à frente e mudar o plano conforme o adversário.
- Quebra-cabeças de lógica: sudoku, cruzadinhas, desafios de lógica e cubo mágico exigem manter e manipular informação na cabeça e testar outras soluções.
- Esporte e movimento coordenado: esportes coletivos, pular corda com parlenda, dança com coreografia. Há estudos com crianças dessa idade em que exercício aeróbico regular trouxe ganhos em funções executivas (Diamond e Lee, 2011), e o guia de Harvard destaca a atividade física que exige coordenação.
- Música: tocar um instrumento, cantar em cânone ou a várias vozes, fazer ritmos de palmas. Exige atenção, memória e ajuste constante.
Adolescentes
Na adolescência as funções executivas ainda não estão no nível adulto, mas a escola já cobra como se estivessem. Aqui a atividade vira hábito de estudo e de organização:
- Meta, plano e revisão: escolher uma meta que importe ao próprio adolescente, quebrar em etapas, prever os obstáculos e, de tempos em tempos, conferir se o que está fazendo segue o plano.
- Fala interna: narrar para si os passos de uma tarefa difícil ajuda a trazer o que está fazendo para a consciência.
- Menos interrupção: combinar como lidar com celular e mensagens na hora do estudo e decidir a ordem das tarefas quando duas disputam atenção.
- Diário: escrever sobre o que fez, o que funcionou e o que mudar da próxima vez.
5. Atividades de funções executivas para imprimir (PDF)
Boa parte do que funciona é jogo e movimento, mas a folha impressa tem seu lugar: é fácil de graduar, cabe numa sessão curta e deixa registro do que a criança fez. Algumas atividades de papel que exercitam as funções executivas:
| Atividade de papel | O que pede da criança | Como aumentar o desafio |
|---|---|---|
| Labirinto | planejar o caminho antes de traçar | labirintos maiores; traçar sem tirar o lápis |
| Sequência para completar (cores, formas, números) | descobrir a regra e mantê-la | regras com dois atributos ao mesmo tempo |
| Classificar figuras por um critério e depois por outro | trocar de regra | trocar de regra sem aviso, a cada linha |
| Encontre as diferenças e caça-símbolos | atenção seletiva, ignorar o que não é alvo | mais itens parecidos; tempo marcado |
| Sudoku e cruzadinha | manter e testar possibilidades | grades maiores; menos pistas |
| Checklist de tarefa ("o que vou fazer, em que ordem") | planejar e conferir | a criança monta a lista sozinha |
A tabela é uma sugestão da iPsy, inspirada nas atividades do guia de Harvard (labirintos, classificação por regra, sudoku, cruzadinhas). Não é protocolo de avaliação nem foi testada como programa.
Para não começar do zero, a Biblioteca do iPsy tem três pacotes em PDF, gratuitos para quem tem conta: o Pacote Funções Executivas, com 30 atividades de planejamento, organização, flexibilidade cognitiva e controle inibitório; o Pacote Memória de Trabalho, com 30 atividades de memória visual, auditiva e operacional; e o Pacote Atenção e Concentração, com 30 atividades progressivas de atenção sustentada, seletiva e dividida.
6. Como usar as atividades na escola
- 1Comece pelo ponto de partida da criança. Observe o que ela já consegue e escolha uma atividade um pouco acima disso.
- 2Aumente a dificuldade aos poucos. Quando a atividade ficar fácil, mude uma coisa: mais itens, regra nova, menos ajuda. Sem desafio crescente, o ganho é pequeno (Diamond, 2013).
- 3Ajude no começo e vá se retirando. O adulto funciona como andaime: apoia a tarefa difícil e, conforme a criança consegue, deixa que ela conduza e aprenda com os próprios erros (Center on the Developing Child, Harvard).
- 4Use apoio visual. Com crianças pequenas, uma pista visual para lembrar a instrução — uma figura, um cartão — ajuda bastante o controle inibitório (Diamond, 2013).
- 5Converse sobre a estratégia. Perguntas como "o que você vai fazer agora?" e "tem outro jeito?" levam a criança a parar, planejar e avaliar o que fez.
- 6Mantenha o prazer do jogo. Atividade que a criança quer repetir é atividade praticada. Tristeza, estresse e solidão pesam contra as funções executivas (Diamond, 2013).
Para alunos com TDAH, essas mesmas atividades cabem no acompanhamento escolar que a Lei nº 14.254/2021 assegura — como parte do trabalho pedagógico, não como substituto do acompanhamento de saúde.
7. Quando a dificuldade pede avaliação
Atividade não é teste e não mostra se há um transtorno. Se a dificuldade é intensa, aparece em casa e na escola, persiste mesmo com apoio e atrapalha a aprendizagem, é hora de uma avaliação.
A psicopedagoga avalia como a criança aprende e pode observar as funções executivas em tarefas e no dia a dia — a Bateria de Rastreio de Funções Executivas da Biblioteca do iPsy tem tarefas práticas e ficha de registro para essa observação. Inventários respondidos por pais e professores, como o BRIEF, ajudam a descrever o comportamento no cotidiano. A psicopedagoga não faz diagnóstico de TDAH nem de outro transtorno: diagnóstico é de médico ou equipe de saúde.
Testes como o FDT (Teste dos Cinco Dígitos) e o WCST (Wisconsin) constam da lista de testes psicológicos com parecer favorável do SATEPSI, do Conselho Federal de Psicologia (consulta de 25/09/2026): a aplicação e a interpretação ficam com o psicólogo. Outros instrumentos citados em avaliação de funções executivas, como a Torre de Londres, têm guia próprio no iPsy com o que cabe a cada profissional.
Fontes
- Diamond A. (2013). Executive Functions. Annual Review of Psychology, 64 (PubMed Central)
- Diamond A., Lee K. (2011). Interventions shown to aid executive function development in children 4–12 years old. Science, 333(6045) (PubMed Central)
- Center on the Developing Child, Harvard University. Enhancing and Practicing Executive Function Skills with Children from Infancy to Adolescence (guia de atividades por idade, PDF)
- Cecato A. M. et al. (2026). Aplicabilidade de um programa de intervenção para promover funções executivas. Revista Psicopedagogia, 43(130), 97–114
- Conselho Federal de Psicologia. SATEPSI — Testes Psicológicos Favoráveis (consulta em 25/09/2026)