- Para quem
- Para alunos com dificuldade persistente em leitura, matemática ou escrita, com ou sem diagnóstico fechado. As atividades não dependem de laudo para começar.
- Como funcionam
- Treino curto, frequente e explícito: uma habilidade por vez, do concreto ao abstrato, com o adulto mostrando antes e retirando a ajuda aos poucos.
- Por ano escolar
- No 1º e 2º ano, base (sons, quantidade, traçado). Do 3º ao 5º, fluência e procedimentos. Do 6º ao 9º, estratégias e autonomia, com adaptação de prova.
- O que a lei garante
- A Lei nº 14.254/2021 assegura acompanhamento específico na escola, o mais cedo possível, a alunos com alterações na leitura e na escrita ou de atenção (art. 3º).
Folha bonita para imprimir não trata dislexia. O que ajuda um aluno com transtorno de aprendizagem é treino explícito, curto e frequente da habilidade que falta, na ordem certa, com alguém acompanhando o erro na hora. A atividade é só o veículo.
Este guia reúne atividades próprias para dislexia (leitura), discalculia (matemática) e disgrafia (traçado da escrita), separadas por etapa escolar, com o que observar em cada uma. Servem para a professora em sala, para o AEE e para a psicopedagoga no consultório, com ou sem diagnóstico fechado.
1. Antes de começar: o que cada transtorno afeta
| O que fica difícil | Onde aparece | |
|---|---|---|
| Dislexia | Decodificar palavras com precisão e fluência; relacionar som e letra | Leitura lenta e silabada, trocas, compreensão prejudicada pelo esforço de decodificar |
| Discalculia | Senso numérico, fatos básicos, procedimentos de cálculo | Conta nos dedos por muito tempo, não estima, se perde no valor posicional |
| Disgrafia | Traçado e organização motora da escrita | Letra ilegível, pressão excessiva, lentidão, cansaço na mão |
| Disortografia | Ortografia, mesmo com leitura razoável | Erros persistentes de regra e de som parecido |
O diagnóstico de transtorno de aprendizagem é multiprofissional. Mas a intervenção não espera o laudo: a Lei nº 14.254/2021 manda acompanhar o mais cedo possível o aluno com alterações na leitura e na escrita (art. 3º). Os sinais e a forma de avaliar cada um estão nos guias de dislexia e discalculia e nas triagens de dislexia, discalculia e disgrafia.
2. Os 6 princípios que valem para as três
- 1Uma habilidade por vez. “Ler melhor” não é meta. “Ler palavras com lh e nh sem trocar” é.
- 2Do concreto ao abstrato. Objeto, depois figura, depois símbolo. Na matemática: palitos, desenho, número.
- 3Explícito. Mostre a regra ou o procedimento antes; não espere que a criança descubra sozinha.
- 4Curto e frequente. 15 a 20 minutos, três a cinco vezes por semana, rendem mais que uma sessão longa.
- 5Ajuda que diminui. Primeiro você faz, depois juntos, depois ela sozinha. Anote o tipo de ajuda que ainda precisa.
- 6Meça. Palavras lidas por minuto, contas certas em 2 minutos, linhas escritas sem dor. Sem número, não dá para saber se está funcionando.
3. Atividades para dislexia por ano escolar

- 1Régua-guia sob a linha que está sendo lida
- 2Sílabas destacadas em cores alternadas
- 3Leitura cronometrada e registrada num gráfico
1º e 2º ano: som e letra
- Letra que fala. Cartões com uma letra de um lado e uma figura que começa com o som dela do outro. A criança diz o som (não o nome) e vira o cartão para conferir. Dez cartões por dia, misturando os que já sabe com dois novos.
- Monta e lê. Com letras móveis, monte palavras de três letras (sol, mar, pão). A criança lê, você troca uma letra, ela lê de novo. A troca mostra que cada letra importa.
- Pares que confundem. Para quem troca b/d ou p/q: uma letra por vez, com um gesto fixo para cada uma e uma palavra-chave desenhada. Só junte as duas quando cada uma estiver firme.
Se a criança ainda não percebe os sons dentro das palavras, comece um passo antes, pelas atividades de consciência fonológica.
3º ao 5º ano: fluência e compreensão
- Leitura repetida cronometrada. Um texto curto (60 a 100 palavras) lido três vezes na semana. Conte as palavras certas por minuto e marque num gráfico. A criança vê a barra subir, e é isso que mantém a motivação.
- Sílaba colorida. Em palavras longas, pinte as sílabas em duas cores alternadas. Retire a cor quando a leitura daquela lista ficar fluente.
- Leitura em eco. Você lê uma frase com entonação, a criança repete acompanhando com o dedo. Depois troquem: ela lê, você repete.
- Pergunta antes do texto. Dê duas perguntas antes de ler. A criança lê procurando as respostas, em vez de decodificar tudo sem saber para quê.
6º ao 9º ano: estratégia e autonomia
- Mapa do texto. Antes de ler um texto de Ciências ou História, o aluno olha título, imagens e negritos e escreve em três linhas do que acha que trata. Depois lê e confere.
- Banco de palavras da matéria. Palavras longas e técnicas da unidade (fotossíntese, Mesopotâmia) separadas em sílabas e lidas antes da aula.
- Leitura com áudio. O aluno acompanha o texto escrito enquanto ouve a leitura em voz alta (audiolivro, leitor de tela). Treina vocabulário sem travar na decodificação.
4. Atividades para discalculia por ano escolar

- 1Palitos em grupos de dez para o valor posicional
- 2Quadro de dez para ver quantidades sem contar
- 3Reta numérica para comparar e estimar
- 4Dinheiro de brinquedo para cálculo do dia a dia
1º e 2º ano: quantidade
- Olhou, sabe. Mostre por 2 segundos um quadro de dez com 3, 5 ou 7 fichas e esconda. Quantas eram? O objetivo é reconhecer quantidades pequenas sem contar uma a uma.
- Quem tem mais? Dois punhados de botões. A criança estima qual tem mais, depois confere contando. Passe para números escritos só quando a comparação com objetos estiver firme.
- Amigos do 10. Com o quadro de dez: tem 6, quantas faltam para 10? Repetir até virar automático, porque é a base de quase todo cálculo mental.
3º ao 5º ano: valor posicional e procedimentos
- Amarra de dez. Palitos soltos viram amarrados de 10 e amarrados viram pacotes de 100. A criança representa 237 com o material antes de escrever. O “vai um” passa a ter sentido: é amarrar dez palitos.
- Reta numérica vazia. Uma linha só com 0 e 100 nas pontas. Onde fica o 50? E o 73? Treina estimativa e ordem de grandeza.
- Fato do dia. Um fato da tabuada por dia, com estratégia: 6 × 7 é 6 × 5 mais 6 × 2. Cartão no bolso, conferido na saída.
- Mercadinho. Dinheiro de brinquedo e encartes de mercado. Comprar com R$ 20, conferir o troco. A conta aparece com um motivo.
6º ao 9º ano: frações e problemas
- Fração de papel. Tiras de papel do mesmo tamanho dobradas em 2, 3, 4, 6 e 8 partes. Qual é maior, 2/3 ou 3/4? A resposta vem da tira, não da regra.
- Problema desmontado. O aluno sublinha o que pergunta, circula os dados e faz um desenho antes de escolher a operação.
- Calculadora como ferramenta. Em problemas de várias etapas, a calculadora libera a cabeça para o raciocínio. O treino de fatos fica em outro momento.
Para orientar a família, as atividades de matemática para casa trazem jogos rápidos para fazer na rotina. As atividades de intervenção em discalculia fazem parte do Combo de Testes Psicopedagógicos.
5. Atividades para disgrafia por ano escolar

- 1Força e controle da mão: massinha e pregadores
- 2Traçado grande com o dedo na areia
- 3Escrita com lápis adaptado e linhas destacadas
1º e 2º ano: mão e traçado
- Ginástica da mão. Antes de escrever, dois minutos de massinha: rolar uma cobrinha, fazer bolinhas com a ponta dos dedos, abrir e fechar pregadores com o polegar e o indicador.
- Letra grande primeiro. Trace a letra no ar com o braço inteiro, depois com o dedo na areia ou no sal, depois no quadro e só então no caderno. Sempre com a direção certa do movimento.
- Caminho entre linhas. Labirintos e trilhas entre duas linhas paralelas que vão ficando mais estreitas. Treina controle sem a cobrança da letra.
3º ao 5º ano: legibilidade
- Linha de três cores. Caderno com as faixas pintadas: céu, grama e terra. A criança sabe onde cada parte da letra começa e termina.
- Uma família por semana. Letras com o mesmo movimento juntas (c, a, d, g, q começam pela curva). Três linhas por dia, com autocorreção: a criança circula a melhor letra da linha.
- Espaço de um dedo. Entre uma palavra e outra, um dedo. Simples e muda muito a leitura do texto.
6º ao 9º ano: velocidade e alternativas
- Escrita com tempo. Copiar uma frase por um minuto, contar as palavras e ver se dá para ler. Busque o equilíbrio entre velocidade e legibilidade, não a letra perfeita.
- Esquema em vez de cópia. Em vez de copiar o quadro inteiro, o aluno faz um esquema com palavras-chave ou recebe o conteúdo impresso.
- Teclado. Digitação treinada como habilidade, para trabalhos longos. Não substitui a escrita à mão, mas evita que a mão limite o que o aluno sabe.
Para começar sem custo, o Pack As Outras Dis traz avaliação e intervenção em dislexia, disgrafia e discalculia, grátis com cadastro. Na Biblioteca do iPsy, também com conta gratuita, o Pacote Escrita - Ortografia e Produção Textual reúne atividades de escrita, o Pacote Leitura e Compreensão apoia o trabalho de dislexia e o Pacote Matemática Básica complementa as atividades de discalculia.
6. O que adaptar em sala
| Dislexia | Discalculia | Disgrafia |
|---|---|---|
| Ler o enunciado da prova em voz alta | Tabuada ou material concreto disponíveis na prova | Avaliar o conteúdo, não a letra |
| Tempo extra em provas | Menos contas, mais raciocínio | Tempo extra e menos cópia do quadro |
| Fonte maior e espaçada, poucas linhas por página | Folha quadriculada para alinhar os números | Prova oral ou digitada quando possível |
| Não pedir leitura em voz alta para a turma sem combinar | Problemas com contexto do dia a dia | Caderno com pauta ampliada |
Adaptar não é facilitar o conteúdo: é tirar a barreira que impede o aluno de mostrar o que aprendeu. As adaptações podem ser organizadas num plano individual, com a mesma estrutura do PEI, e o passo a passo está em adaptação curricular na prática.
7. Como registrar a evolução
Escolha uma medida simples por meta e registre a cada duas semanas: palavras lidas corretamente por minuto, fatos de adição certos em dois minutos, palavras legíveis copiadas em um minuto. Anote também o tipo de ajuda: sozinho, com dica, com modelo. Em oito a doze semanas, compare. Se a curva não sobe, mude a atividade, não a criança.
No consultório, essas metas formam o plano de intervenção psicopedagógica. No iPsy Tools, cada sessão fica registrada no caso da criança, com as metas e a evolução no mesmo lugar, prontas para a devolutiva.
Fontes
- Lei nº 14.254/2021 — acompanhamento integral de estudantes com dislexia, TDAH ou outro transtorno de aprendizagem (Planalto)
- Base Nacional Comum Curricular — Língua Portuguesa e Matemática, Ensino Fundamental (MEC)
- Associação Brasileira de Dislexia (ABD) — o que é dislexia
- Secretaria Regional de Educação dos Açores — Dificuldades de Aprendizagem (guia para professores, PDF)