- O que é
- A conversa em que você conta o que a avaliação encontrou e combina o que fazer. O relatório é o documento; a devolutiva é a conversa.
- Para quem
- Para os responsáveis, sempre. Para a criança, numa versão curta e na linguagem dela. Para a escola, só com autorização por escrito da família.
- Roteiro
- Acolher e combinar; contar o que foi feito; mostrar forças e dificuldades; recomendar para casa e escola; fechar com próximos passos e data de retorno.
- O que não entra
- Diagnóstico, código CID, rótulos, comparações e prognóstico fechado.
A devolutiva é a sessão que decide se a avaliação vai virar mudança ou ficar na gaveta. É nela que a família entende o que você encontrou, sai sabendo o que fazer em casa e confia em você para o próximo passo. E é também a sessão que mais gera ansiedade em quem está começando: o que falar, em que ordem, como dar uma notícia difícil, o que levar para a escola.
Este guia cobre a devolutiva do começo ao fim: preparação, roteiro em cinco passos, as diferenças entre a conversa com os pais, com a escola e com a criança, o que dizer e evitar e como registrar. Para exemplos de fala prontos, use junto o modelo de devolutiva psicopedagógica.
1. O que é a devolutiva e quando ela acontece
Devolver é dever, não cortesia: o Código de Ética da ABPp pede que a psicopedagoga forneça “definição clara do seu parecer oral e/ou escrito” a quem foi atendido ou aos responsáveis (art. 11, “e”). A devolutiva é a parte oral desse dever; o relatório é a parte escrita. Em geral as duas acontecem juntas.
| Tipo | Quando | Com quem |
|---|---|---|
| Devolutiva final da avaliação | Depois da última sessão de avaliação | Responsáveis; criança em outro momento |
| Devolutiva parcial | No meio de uma avaliação longa, ou quando algo pede ação imediata | Responsáveis |
| Devolutiva para a escola | Depois da devolutiva à família, com autorização | Professora, coordenação, AEE |
| Devolutiva de acompanhamento | Na revisão do plano de intervenção, a cada 8 a 12 semanas | Responsáveis; escola com autorização |
| Devolutiva de alta | No fim do atendimento | Responsáveis e criança |
Na sequência mais comum de avaliação, a devolutiva é a quinta sessão, depois da entrevista, da EOCA, das provas e dos testes. O caminho inteiro está em sessão psicopedagógica passo a passo.
2. Como preparar a devolutiva
- 1Releia a queixa inicial. A devolutiva precisa responder à pergunta que a família trouxe, com as palavras dela.
- 2Escreva a síntese antes. Três ou quatro frases que resumem o que você encontrou. Se não cabe em quatro frases, ainda não está claro para você.
- 3Separe três forças da criança. Concretas e observadas: “organiza o material sem ajuda”, “cria histórias longas e coerentes”.
- 4Escolha os dados que vai mostrar. Um ou dois exemplos de produção ou resultado valem mais que uma tabela inteira de escores.
- 5Prepare as recomendações por destinatário. Casa, escola e encaminhamentos, cada uma com o quê, quem e quando.
- 6Termine o relatório. Entregue na sessão ou combine a data. Nunca prometa “mando depois” sem data.
- 7Reserve tempo. Uma devolutiva leva de 50 a 60 minutos. Não marque outra sessão logo em seguida.
Se a avaliação usou um instrumento com resultado numérico, a explicação desses números é a parte que mais trava. Os kits de devolutiva da iPsy trazem o texto pronto por instrumento, em linguagem para os pais e para a escola: SNAP-IV, TDAH, TEA, SDQ, CBCL, avaliação cognitiva e desenvolvimento infantil.
3. Roteiro da devolutiva em 5 passos

- 1Acolher e combinar como vai ser a conversa
- 2Contar o que foi feito na avaliação
- 3Mostrar as forças e as dificuldades
- 4Recomendar o que fazer em casa e na escola
- 5Fechar com próximos passos e data de retorno
- 1Acolher e combinar (5 minutos). Pergunte como estão, explique a ordem da conversa e diga que podem interromper. Ex. fictício: “Primeiro conto o que vi de bom, depois o que ainda é difícil e, no fim, o que vamos fazer.”
- 2Contar o que foi feito (5 minutos). Quantas sessões, que atividades, em linguagem simples. A família precisa saber de onde vêm as conclusões.
- 3Forças e dificuldades (20 minutos). Comece pelas forças, de verdade, não como protocolo. Depois as dificuldades, descritas pelo que a criança faz: “lê palavra por palavra e perde o sentido no meio da frase”.
- 4Recomendações (15 minutos). Poucas e concretas para casa; as da escola, explicadas para a família levar ou autorizar você a levar. Encaminhamentos com o porquê.
- 5Fechar (5 a 10 minutos). Resuma em três frases, pergunte o que ficou de dúvida, combine o próximo passo (intervenção, reavaliação, conversa com a escola) e a data.
4. Devolutiva para os pais

- 1Pontos fortes da criança
- 2O que foi observado, em linguagem simples
- 3O que fazer em casa a partir de agora
Para muitas famílias, ouvir que o filho tem dificuldade para aprender mexe com expectativas antigas. A sua tarefa é dar informação clara e devolver perspectiva. Linguagem simples, sem jargão (“consciência fonológica” vira “perceber os sons dentro das palavras”), e espaço para as perguntas.
Reações difíceis e como responder
| A família diz | Uma resposta possível (exemplo fictício) |
|---|---|
| “Então ele tem dislexia?” | “O que eu avalio é como ele aprende a ler, e encontrei dificuldades que precisam ser investigadas pela fonoaudióloga. Quem confirma ou não um diagnóstico é ela, junto com o médico.” |
| “A culpa é nossa?” | “Não. A dificuldade não nasce de falta de cuidado. O que vocês fazem a partir de hoje é que vai ajudar.” |
| “É preguiça, ele não quer.” | “Quando a leitura custa tanto esforço, desistir parece preguiça. Vamos mudar a tarefa para ele conseguir e aí ver o que acontece.” |
| “Quanto tempo até resolver?” | “Não consigo prometer prazo. Vamos rever as metas em 12 semanas e aí eu mostro o que mudou.” |
| Silêncio ou choro | Pare, espere, ofereça água. Pergunte o que mais preocupa. A informação pode esperar alguns minutos. |
Quando a avaliação incluiu escalas de comportamento, como o SNAP-IV, explique que o resultado é um rastreio e não um diagnóstico. O Kit de devolutiva do SNAP-IV traz esse texto escrito para os pais e para a escola.
5. Devolutiva para a escola

- 1Só com autorização por escrito dos responsáveis
- 2Foco no que ajuda a ensinar em sala
- 3Recomendações com quem faz e quando
- 4Data para conversar de novo
A devolutiva à escola só acontece com autorização dos responsáveis, de preferência por escrito. A Lei nº 15.519/2026 impõe sigilo ao psicopedagogo e só permite compartilhar informações com outros profissionais do atendimento se o cliente autorizar (art. 5º, §1º), e o Código de Ética da ABPp diz o mesmo sobre o resultado da avaliação (art. 8º). Como são dados de criança, a LGPD também pede consentimento específico de um dos responsáveis (art. 14).
| Leve para a escola | Não leve |
|---|---|
| Como a criança aprende melhor e o que a atrapalha em sala | A história familiar e o que foi contado em confiança |
| Recomendações concretas: onde sentar, como dar o enunciado, tempo extra | Escores brutos sem interpretação |
| Sugestões para a avaliação escolar | Diagnóstico ou CID |
| Como acompanhar e quando conversar de novo | Críticas a professores anteriores |
Leve as recomendações num formato que a escola consiga usar no planejamento: se o aluno é público da educação especial, elas alimentam o PEI, que é da escola (veja como fazer um PEI); para qualquer aluno, ajudam a professora no dia a dia. A escola pode registrar o acompanhamento no relatório descritivo do aluno.
6. Devolutiva para a criança ou o adolescente
A criança passou por várias sessões e quer saber o que você descobriu. Uma devolutiva curta, de 10 a 15 minutos, em linguagem dela, faz diferença no vínculo e na adesão à intervenção. Comece pelo que ela faz bem, diga o que é difícil sem rótulo e conte o que vocês vão fazer juntas. Exemplo fictício: “Você é muito bom em inventar histórias. Ler ainda dá trabalho porque algumas letras se confundem. A gente vai treinar isso com jogos, toda terça.”
Com adolescentes, a devolutiva pode ser com ele presente na conversa com os pais, ou antes dela, conforme o caso. Combine com ele o que será dito à família e à escola.
7. O que dizer e o que evitar
| Evite | Prefira |
|---|---|
| “Ele tem TDAH.” | “Nas tarefas escolares, a atenção se mantém por pouco tempo; isso precisa de avaliação médica.” |
| “Ela é fraca em matemática.” | “Ela conta nos dedos com segurança, mas ainda não compara números maiores que 100.” |
| “Isso passa.” / “Nunca vai ler bem.” | “Vamos acompanhar e rever em 12 semanas.” |
| “O irmão lia com essa idade.” | “Comparando com ela mesma no início da avaliação…” |
| Escore percentil sem explicação | “Ficou abaixo do esperado para a idade nesta tarefa.” |
A regra geral: descreva o que a criança faz, em que situação, e o que vocês vão fazer a respeito. Rótulo, diagnóstico e prognóstico fechado ficam de fora. A diferença entre o que a psicopedagoga pode e não pode afirmar está em psicopedagogo pode dar laudo?.
8. Registro e próximos passos
Registre a devolutiva como qualquer sessão: data, quem participou, o que foi dito, as dúvidas e reações da família, o que foi combinado e a data do retorno. Se entregou o relatório, anote a entrega e guarde cópia. Se a família autorizou a conversa com a escola, arquive a autorização. Os registros ficam guardados por 5 anos após o fim do atendimento (Código de Ética da ABPp, art. 9º).
Depois da devolutiva, o próximo passo costuma ser a intervenção. As recomendações viram metas no plano de intervenção psicopedagógica. No iPsy Tools, a devolutiva, o relatório e as metas ficam no mesmo caso, e o Relato AI ajuda a estruturar a primeira versão do documento para você revisar. Para os documentos em Word (relatório, termo de autorização, contrato), o Kit de Documentos traz os modelos editáveis.