relatório descritivo em resumo
- O que é
- O registro em que a professora descreve o percurso de um aluno num período: o que ele aprendeu, como aprende, o que o ajuda e o que ainda precisa. Também é chamado de parecer descritivo ou relatório individual.
- Base
- A LDB pede avaliação contínua, com prevalência dos aspectos qualitativos sobre os quantitativos (art. 24, V, "a"), e, na educação infantil, acompanhamento e registro do desenvolvimento, sem objetivo de promoção (art. 31, I).
- Como escrever
- Descreva o que o aluno faz, em que situação e com que apoio. Compare o aluno com ele mesmo, fale do que ele já consegue e deixe de fora rótulos e diagnósticos.
- Não é laudo
- É um documento pedagógico. Não diagnostica e não traz CID. O relatório psicopedagógico e o laudo são outros documentos, escritos por outros profissionais.
Fim de bimestre ou de semestre, e a escola pede o relatório descritivo de cada aluno — às vezes com o nome de parecer descritivo, relatório individual ou, no AEE, relatório do atendimento. A dúvida é quase sempre a mesma: o que escrever, em que ordem, e como falar de um aluno que tem dificuldade sem rotular a criança nem parecer um laudo.
Este guia é para professoras da sala comum, da educação infantil e do AEE, e para a coordenação que orienta a escrita. Traz um roteiro, uma tabela de "em vez de / escreva", exemplos fictícios para situações diferentes e a diferença entre este documento, o relatório psicopedagógico e o laudo.
1. O que é o relatório descritivo do aluno
É o registro qualitativo do percurso de um aluno num período. Em vez de uma nota, a professora descreve o que o aluno aprendeu, como aprende, como se relaciona com a turma, que apoios funcionaram e o que ainda precisa ser trabalhado. Serve à família, à própria professora, à professora do ano seguinte e à equipe da escola.
A base está na LDB: a verificação do rendimento escolar deve ser contínua e cumulativa, "com prevalência dos aspectos qualitativos sobre os quantitativos" (Lei nº 9.394/1996, art. 24, V, "a"), e a escola tem o dever de informar pais e responsáveis sobre a frequência e o rendimento dos alunos (art. 12, VII). O relatório descritivo é um dos jeitos de cumprir as duas coisas.
2. Relatório descritivo na educação infantil
Na educação infantil, o relatório é o próprio instrumento de avaliação. A LDB determina avaliação "mediante acompanhamento e registro do desenvolvimento das crianças, sem o objetivo de promoção, mesmo para o acesso ao ensino fundamental", e a expedição de documentação que permita atestar os processos de desenvolvimento e aprendizagem (art. 31, I e V).
As Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil detalham o que a escola deve garantir nesse acompanhamento, sem seleção, promoção ou classificação (Resolução CNE/CEB nº 5/2009, art. 10):
- observação crítica e criativa das atividades, das brincadeiras e das interações das crianças no cotidiano;
- múltiplos registros feitos por adultos e crianças — relatórios, fotografias, desenhos, álbuns;
- documentação específica que permita às famílias conhecer o trabalho da instituição e os processos de desenvolvimento e aprendizagem da criança;
- a não retenção das crianças na educação infantil.
Na prática: o relatório da educação infantil conta o que a criança faz nas brincadeiras, nas conversas, nos desenhos e nas rotinas, com exemplos do dia a dia, e nunca a compara com os colegas nem conclui que ela "está atrasada para o fundamental".
3. Relatório descritivo no AEE
No Atendimento Educacional Especializado, o relatório registra o acompanhamento do plano. A Resolução CNE/CEB nº 4/2009 atribui à professora do AEE elaborar e executar o plano de AEE, avaliando a funcionalidade e a aplicabilidade dos recursos pedagógicos e de acessibilidade, e acompanhar esses recursos também na sala comum (art. 13, II e IV). A Portaria MEC nº 421/2026 exige que o PEI tenha estratégias de acompanhamento e monitoramento e o registro das devolutivas às famílias (art. 11, III e IV), e que PAEE e PEI sejam revisados anualmente, compatibilizados com a avaliação contínua do estudante (art. 7º, §3º).
Por isso o relatório do AEE costuma ter, além do roteiro comum:
- Recursos e estratégias usados e como o aluno respondeu a cada um — o que manter, o que trocar.
- Frequência e forma dos atendimentos (individual, em grupo, na sala comum com a professora regente).
- Articulação com a sala comum: o que foi combinado com a professora regente e o que já aparece na aula.
- Devolutivas à família: quando aconteceram e o que foi conversado.
- O que muda no plano para o próximo período, com a razão.
O AEE não depende de diagnóstico, laudo ou relatório de profissional de saúde (Decreto nº 12.686/2025, art. 11, §7º; Portaria MEC nº 421/2026, art. 7º, §4º). O relatório da professora não precisa — nem deve — repetir um laudo para justificar o atendimento: ele descreve o que acontece na escola. As adaptações registradas estão explicadas no guia de adaptação curricular, e o documento que as organiza, em como fazer um PEI.
4. Relatório descritivo, relatório psicopedagógico e laudo
| Relatório descritivo | Relatório psicopedagógico | Laudo | |
|---|---|---|---|
| Quem escreve | a professora (regente, da educação infantil ou do AEE) | a psicopedagoga, depois de uma avaliação | médico ou psicólogo, conforme o caso |
| Para quê | registrar o percurso escolar e informar família e equipe | documentar a avaliação da aprendizagem e propor intervenção | concluir um diagnóstico |
| O que traz | aprendizagens, jeito de aprender, participação, apoios, próximos passos | procedimentos, instrumentos, achados, síntese e recomendações | a conclusão diagnóstica, que pode incluir o código CID |
| Diagnóstico | não | não — pode levantar hipótese e encaminhar | sim |
A estrutura do relatório da psicopedagoga está no modelo de relatório psicopedagógico, e o porquê de a psicopedagoga não emitir laudo, no modelo de laudo psicopedagógico. Quando a escola recebe um desses documentos, ele ajuda a entender o aluno, mas não substitui a observação da professora — e a escola não pode condicionar a matrícula, a escolarização ou o AEE à apresentação de laudo (Portaria MEC nº 421/2026, art. 7º, §4º).
5. Roteiro do relatório descritivo
Um roteiro para encaixar no modelo da sua escola. Adapte a ordem e os nomes das seções ao formulário da sua escola.
- 1Identificação. Nome, idade, turma, período do relatório, nome e função de quem escreve. Só o necessário: dado de saúde é dado pessoal sensível (Lei nº 13.709/2018, art. 5º, II), e o Decreto nº 12.686/2025 manda tratar os dados dos estudantes da educação especial conforme a LGPD, com atenção ao artigo sobre crianças e adolescentes (art. 12, §5º).
- 2O período. O que a turma trabalhou e como o aluno chegou ao período — em duas ou três linhas.
- 3Participação e relações. Como o aluno participa das atividades, se relaciona com colegas e adultos, lida com regras e com a rotina, e quanto faz com autonomia.
- 4Aprendizagens por área. Linguagem oral e escrita, matemática e os demais componentes (na educação infantil, os campos ou eixos da proposta da sua rede). Para cada um: o que ele já faz, o que faz com ajuda, o que ainda não faz.
- 5Como o aluno aprende. Em que situações rende mais, o que o ajuda (material concreto, instrução curta, trabalho em dupla), o que o atrapalha.
- 6Adaptações e apoios. Quais foram usados no período e como o aluno respondeu a cada um.
- 7Avanços. Comparando o aluno com ele mesmo no começo do período, não com a turma.
- 8Próximos passos. O que a escola vai trabalhar, o que a família pode fazer em casa e, se for o caso, a sugestão de conversar com outro profissional — sem nomear diagnóstico.
- 9Data e assinatura. De quem escreveu e, se a escola pede, da coordenação.
6. Como escrever: descreva o que o aluno faz
A regra que mais muda um relatório: troque o adjetivo pela cena. "Preguiçoso", "agressivo", "hiperativo" dizem o que a professora pensa; a cena diz o que aconteceu, em que situação e o que ajudou — e é isso que a família e a próxima professora conseguem usar. Os pares abaixo são exemplos da iPsy.
| Em vez de | Escreva |
|---|---|
| "É preguiçoso." | "Nas cópias longas, para depois das primeiras linhas. Quando a tarefa vem dividida em partes, termina." |
| "É agressivo." | "Em disputas por brinquedo no parque, empurrou colegas algumas vezes. Quando a troca de brinquedos foi combinada antes, esperou a vez." |
| "É hiperativo." | "Levanta-se várias vezes durante atividades individuais longas. Fica sentado por mais tempo quando a tarefa tem pausa combinada." |
| "Tem um grau severo." | "Comunica-se com poucas palavras e por gestos. Usa o cartão de 'terminei' para avisar que acabou a tarefa." |
| "Não sabe nada de matemática." | "Conta até 20 com material concreto. Ainda não resolve problemas de adição sem o material." |
| "Lê muito mal." | "Lê palavras curtas conhecidas. Em palavras novas, lê sílaba por sílaba e perde o sentido da frase; entende bem quando ouve o texto." |
- Frase com três partes: o que o aluno faz, em que situação, com que apoio.
- Comece pelo que ele consegue. Um relatório que só lista falhas não descreve a criança inteira.
- Separe fato de interpretação. "Chorou nas três primeiras semanas na hora da entrada" é fato; "tem dificuldade de separação" é leitura sua — se escrever, deixe claro que é.
- Nada de diagnóstico. Nem o que a família contou, nem o que você suspeita. A professora não diagnostica; se a observação preocupa, sugira à família conversar com um profissional.
- Escreva para a família ler. Sem siglas soltas, sem jargão, sem tom de sentença.
7. Exemplos de relatório descritivo (fictícios)
Exemplo 1 — educação infantil, criança de 4 anos, 1º semestre
"Neste semestre, Lia passou a entrar na sala sem chorar a partir da terceira semana, quando começou a trazer um objeto de casa para mostrar na roda. Nas brincadeiras de faz de conta, prefere o canto da cozinha e convida um ou dois colegas; já aceita trocar de papel quando o colega pede. Na roda de conversa, conta o que fez no fim de semana em frases curtas e responde quando a professora pergunta diretamente. Reconhece o próprio nome entre os crachás e tenta escrevê-lo com as primeiras letras. Nos desenhos, faz figuras humanas com cabeça, braços e pernas. Segura o pincel com firmeza e ainda pede ajuda para abrir a tampa da cola. Seguiremos com a roda de novidades, que tem ajudado a Lia a falar para o grupo, e com jogos de nome e de letras. Em casa, a família pode ler histórias e pedir que ela reconte o começo."
Exemplo 2 — 2º ano, aluno com dificuldade para manter a atenção nas tarefas
"Davi participa das conversas da turma com ideias e perguntas, principalmente em ciências. Nas atividades individuais longas, levanta-se várias vezes e deixa a folha pela metade; quando a tarefa vem em partes, com uma pausa combinada entre elas, termina a maioria das atividades. Lê textos curtos com fluência e compreende bem. Na escrita, as ideias estão organizadas, mas faltam letras em palavras mais longas quando escreve com pressa; com a lista de conferência no canto da mesa, ele próprio corrige parte dessas faltas. Em matemática, resolve adições e subtrações com dezenas e prefere explicar o raciocínio oralmente. Avançou neste bimestre na organização do material: usa a agenda com lembretes desenhados. Vamos manter as tarefas em partes e a lista de conferência. Sugerimos à família conversar com a coordenação sobre o que observamos em sala."
Exemplo 3 — relatório do AEE, aluno que se comunica com poucas palavras
"Pedro frequentou o AEE duas vezes por semana, em atendimento individual, e uma vez por semana a professora do AEE acompanhou a aula na sala comum. Pedro se comunica com poucas palavras, gestos e apontando. Neste semestre, passou a usar a prancha com figuras para pedir água, banheiro e para escolher entre duas atividades; na sala comum, usa o cartão de 'terminei' e o de 'ajuda'. A rotina visual colada na mesa reduziu as saídas da sala na troca de atividade. Em momentos de muito barulho, tapa os ouvidos e se afasta do grupo; o canto combinado, com retorno depois de alguns minutos, tem funcionado. Em matemática, pareia quantidades até 10 com material concreto. Com a professora regente, combinamos atividades com resposta por apontar e figuras do mesmo tema da turma. A família participou de duas devolutivas (março e junho) e relatou que ele começou a usar as figuras também em casa. Para o próximo semestre, ampliaremos o vocabulário da prancha e as atividades em dupla."
Exemplo 4 — 5º ano, aluna com adaptação curricular em matemática
"Ana participa das atividades em grupo e é procurada pelos colegas nas tarefas de artes. Em língua portuguesa, lê textos curtos com apoio de imagens e escreve frases simples sobre o tema estudado; com o banco de palavras, produziu um bilhete com começo, meio e fim. Em matemática, conforme o PEI, trabalha os mesmos temas da turma com material concreto e com objetivos adaptados: neste bimestre, passou a reconhecer cédulas e moedas, a somar valores até 20 reais com apoio e a conferir o troco em situações de compra simuladas em sala. Frações ainda não fazem parte dos objetivos dela. Ela se organiza melhor com a sequência da tarefa escrita no quadro. Próximos passos: problemas com dinheiro em duas etapas e leitura de relógio. A família pode incluir Ana em pequenas compras do dia a dia."
Repare no que os quatro exemplos têm em comum: nenhum nomeia diagnóstico, nenhum usa adjetivo sobre a criança, todos dizem o que ajudou e todos terminam com o que vem a seguir.
8. Onde a psicopedagoga entra
A psicopedagoga institucional pode orientar as professoras na escrita — o roteiro e a tabela acima servem para isso. A psicopedagoga clínica costuma estar do outro lado: recebe o relatório descritivo como uma das fontes da avaliação. Para ouvir a professora de forma organizada, a Biblioteca do iPsy tem a Anamnese Versão Escola, questionário para professor e coordenação.
Quando é a psicopedagoga quem escreve para a escola, o documento é outro: o relatório psicopedagógico, cuja estrutura completa, com exemplos, está no Modelo de Relatório Psicopedagógico Completo, gratuito com conta. Para quem acompanha o aluno ao longo do ano, o Kit de Documentos Psicopedagógicos tem modelos editáveis de relatório à escola e de relatório semestral à escola.
Para alunos com dislexia ou TDAH, a Lei nº 14.254/2021 assegura acompanhamento específico direcionado à dificuldade, pelos educadores da escola (art. 3º). O relatório descritivo é um bom lugar para registrar esse acompanhamento — descrevendo o que foi feito e como o aluno respondeu, sem que a professora precise, ou deva, afirmar o diagnóstico.
Fontes
- Lei nº 9.394/1996 — Lei de Diretrizes e Bases da Educação (arts. 12, 24 e 31)
- Resolução CNE/CEB nº 5/2009 — Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (art. 10)
- Decreto nº 12.686, de 20 de outubro de 2025 (texto compilado, com a redação do Decreto nº 12.773/2025)
- Portaria MEC nº 421, de 15 de maio de 2026 (Diário Oficial da União, 18/05/2026)
- Resolução CNE/CEB nº 4/2009 — Diretrizes Operacionais para o AEE (art. 13)
- Lei nº 13.709/2018 — Lei Geral de Proteção de Dados (arts. 5º e 14)
- Lei nº 14.254/2021 — acompanhamento integral de educandos com dislexia, TDAH ou outro transtorno de aprendizagem