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Relatório descritivo do aluno: roteiro e exemplos

Equipe iPsy
Atualizado em 13 min de leitura
Psicopedagogia e neuropsicopedagogia

relatório descritivo em resumo

O que é
O registro em que a professora descreve o percurso de um aluno num período: o que ele aprendeu, como aprende, o que o ajuda e o que ainda precisa. Também é chamado de parecer descritivo ou relatório individual.
Base
A LDB pede avaliação contínua, com prevalência dos aspectos qualitativos sobre os quantitativos (art. 24, V, "a"), e, na educação infantil, acompanhamento e registro do desenvolvimento, sem objetivo de promoção (art. 31, I).
Como escrever
Descreva o que o aluno faz, em que situação e com que apoio. Compare o aluno com ele mesmo, fale do que ele já consegue e deixe de fora rótulos e diagnósticos.
Não é laudo
É um documento pedagógico. Não diagnostica e não traz CID. O relatório psicopedagógico e o laudo são outros documentos, escritos por outros profissionais.

Fim de bimestre ou de semestre, e a escola pede o relatório descritivo de cada aluno — às vezes com o nome de parecer descritivo, relatório individual ou, no AEE, relatório do atendimento. A dúvida é quase sempre a mesma: o que escrever, em que ordem, e como falar de um aluno que tem dificuldade sem rotular a criança nem parecer um laudo.

Este guia é para professoras da sala comum, da educação infantil e do AEE, e para a coordenação que orienta a escrita. Traz um roteiro, uma tabela de "em vez de / escreva", exemplos fictícios para situações diferentes e a diferença entre este documento, o relatório psicopedagógico e o laudo.

1. O que é o relatório descritivo do aluno

É o registro qualitativo do percurso de um aluno num período. Em vez de uma nota, a professora descreve o que o aluno aprendeu, como aprende, como se relaciona com a turma, que apoios funcionaram e o que ainda precisa ser trabalhado. Serve à família, à própria professora, à professora do ano seguinte e à equipe da escola.

A base está na LDB: a verificação do rendimento escolar deve ser contínua e cumulativa, "com prevalência dos aspectos qualitativos sobre os quantitativos" (Lei nº 9.394/1996, art. 24, V, "a"), e a escola tem o dever de informar pais e responsáveis sobre a frequência e o rendimento dos alunos (art. 12, VII). O relatório descritivo é um dos jeitos de cumprir as duas coisas.

2. Relatório descritivo na educação infantil

Na educação infantil, o relatório é o próprio instrumento de avaliação. A LDB determina avaliação "mediante acompanhamento e registro do desenvolvimento das crianças, sem o objetivo de promoção, mesmo para o acesso ao ensino fundamental", e a expedição de documentação que permita atestar os processos de desenvolvimento e aprendizagem (art. 31, I e V).

As Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil detalham o que a escola deve garantir nesse acompanhamento, sem seleção, promoção ou classificação (Resolução CNE/CEB nº 5/2009, art. 10):

  1. observação crítica e criativa das atividades, das brincadeiras e das interações das crianças no cotidiano;
  2. múltiplos registros feitos por adultos e crianças — relatórios, fotografias, desenhos, álbuns;
  3. documentação específica que permita às famílias conhecer o trabalho da instituição e os processos de desenvolvimento e aprendizagem da criança;
  4. a não retenção das crianças na educação infantil.

Na prática: o relatório da educação infantil conta o que a criança faz nas brincadeiras, nas conversas, nos desenhos e nas rotinas, com exemplos do dia a dia, e nunca a compara com os colegas nem conclui que ela "está atrasada para o fundamental".

3. Relatório descritivo no AEE

No Atendimento Educacional Especializado, o relatório registra o acompanhamento do plano. A Resolução CNE/CEB nº 4/2009 atribui à professora do AEE elaborar e executar o plano de AEE, avaliando a funcionalidade e a aplicabilidade dos recursos pedagógicos e de acessibilidade, e acompanhar esses recursos também na sala comum (art. 13, II e IV). A Portaria MEC nº 421/2026 exige que o PEI tenha estratégias de acompanhamento e monitoramento e o registro das devolutivas às famílias (art. 11, III e IV), e que PAEE e PEI sejam revisados anualmente, compatibilizados com a avaliação contínua do estudante (art. 7º, §3º).

Por isso o relatório do AEE costuma ter, além do roteiro comum:

  1. Recursos e estratégias usados e como o aluno respondeu a cada um — o que manter, o que trocar.
  2. Frequência e forma dos atendimentos (individual, em grupo, na sala comum com a professora regente).
  3. Articulação com a sala comum: o que foi combinado com a professora regente e o que já aparece na aula.
  4. Devolutivas à família: quando aconteceram e o que foi conversado.
  5. O que muda no plano para o próximo período, com a razão.

O AEE não depende de diagnóstico, laudo ou relatório de profissional de saúde (Decreto nº 12.686/2025, art. 11, §7º; Portaria MEC nº 421/2026, art. 7º, §4º). O relatório da professora não precisa — nem deve — repetir um laudo para justificar o atendimento: ele descreve o que acontece na escola. As adaptações registradas estão explicadas no guia de adaptação curricular, e o documento que as organiza, em como fazer um PEI.

4. Relatório descritivo, relatório psicopedagógico e laudo

Relatório descritivoRelatório psicopedagógicoLaudo
Quem escrevea professora (regente, da educação infantil ou do AEE)a psicopedagoga, depois de uma avaliaçãomédico ou psicólogo, conforme o caso
Para quêregistrar o percurso escolar e informar família e equipedocumentar a avaliação da aprendizagem e propor intervençãoconcluir um diagnóstico
O que trazaprendizagens, jeito de aprender, participação, apoios, próximos passosprocedimentos, instrumentos, achados, síntese e recomendaçõesa conclusão diagnóstica, que pode incluir o código CID
Diagnósticonãonão — pode levantar hipótese e encaminharsim

A estrutura do relatório da psicopedagoga está no modelo de relatório psicopedagógico, e o porquê de a psicopedagoga não emitir laudo, no modelo de laudo psicopedagógico. Quando a escola recebe um desses documentos, ele ajuda a entender o aluno, mas não substitui a observação da professora — e a escola não pode condicionar a matrícula, a escolarização ou o AEE à apresentação de laudo (Portaria MEC nº 421/2026, art. 7º, §4º).

5. Roteiro do relatório descritivo

Um roteiro para encaixar no modelo da sua escola. Adapte a ordem e os nomes das seções ao formulário da sua escola.

  1. 1Identificação. Nome, idade, turma, período do relatório, nome e função de quem escreve. Só o necessário: dado de saúde é dado pessoal sensível (Lei nº 13.709/2018, art. 5º, II), e o Decreto nº 12.686/2025 manda tratar os dados dos estudantes da educação especial conforme a LGPD, com atenção ao artigo sobre crianças e adolescentes (art. 12, §5º).
  2. 2O período. O que a turma trabalhou e como o aluno chegou ao período — em duas ou três linhas.
  3. 3Participação e relações. Como o aluno participa das atividades, se relaciona com colegas e adultos, lida com regras e com a rotina, e quanto faz com autonomia.
  4. 4Aprendizagens por área. Linguagem oral e escrita, matemática e os demais componentes (na educação infantil, os campos ou eixos da proposta da sua rede). Para cada um: o que ele já faz, o que faz com ajuda, o que ainda não faz.
  5. 5Como o aluno aprende. Em que situações rende mais, o que o ajuda (material concreto, instrução curta, trabalho em dupla), o que o atrapalha.
  6. 6Adaptações e apoios. Quais foram usados no período e como o aluno respondeu a cada um.
  7. 7Avanços. Comparando o aluno com ele mesmo no começo do período, não com a turma.
  8. 8Próximos passos. O que a escola vai trabalhar, o que a família pode fazer em casa e, se for o caso, a sugestão de conversar com outro profissional — sem nomear diagnóstico.
  9. 9Data e assinatura. De quem escreveu e, se a escola pede, da coordenação.

6. Como escrever: descreva o que o aluno faz

A regra que mais muda um relatório: troque o adjetivo pela cena. "Preguiçoso", "agressivo", "hiperativo" dizem o que a professora pensa; a cena diz o que aconteceu, em que situação e o que ajudou — e é isso que a família e a próxima professora conseguem usar. Os pares abaixo são exemplos da iPsy.

Em vez deEscreva
"É preguiçoso.""Nas cópias longas, para depois das primeiras linhas. Quando a tarefa vem dividida em partes, termina."
"É agressivo.""Em disputas por brinquedo no parque, empurrou colegas algumas vezes. Quando a troca de brinquedos foi combinada antes, esperou a vez."
"É hiperativo.""Levanta-se várias vezes durante atividades individuais longas. Fica sentado por mais tempo quando a tarefa tem pausa combinada."
"Tem um grau severo.""Comunica-se com poucas palavras e por gestos. Usa o cartão de 'terminei' para avisar que acabou a tarefa."
"Não sabe nada de matemática.""Conta até 20 com material concreto. Ainda não resolve problemas de adição sem o material."
"Lê muito mal.""Lê palavras curtas conhecidas. Em palavras novas, lê sílaba por sílaba e perde o sentido da frase; entende bem quando ouve o texto."
  1. Frase com três partes: o que o aluno faz, em que situação, com que apoio.
  2. Comece pelo que ele consegue. Um relatório que só lista falhas não descreve a criança inteira.
  3. Separe fato de interpretação. "Chorou nas três primeiras semanas na hora da entrada" é fato; "tem dificuldade de separação" é leitura sua — se escrever, deixe claro que é.
  4. Nada de diagnóstico. Nem o que a família contou, nem o que você suspeita. A professora não diagnostica; se a observação preocupa, sugira à família conversar com um profissional.
  5. Escreva para a família ler. Sem siglas soltas, sem jargão, sem tom de sentença.

7. Exemplos de relatório descritivo (fictícios)

Exemplo 1 — educação infantil, criança de 4 anos, 1º semestre

"Neste semestre, Lia passou a entrar na sala sem chorar a partir da terceira semana, quando começou a trazer um objeto de casa para mostrar na roda. Nas brincadeiras de faz de conta, prefere o canto da cozinha e convida um ou dois colegas; já aceita trocar de papel quando o colega pede. Na roda de conversa, conta o que fez no fim de semana em frases curtas e responde quando a professora pergunta diretamente. Reconhece o próprio nome entre os crachás e tenta escrevê-lo com as primeiras letras. Nos desenhos, faz figuras humanas com cabeça, braços e pernas. Segura o pincel com firmeza e ainda pede ajuda para abrir a tampa da cola. Seguiremos com a roda de novidades, que tem ajudado a Lia a falar para o grupo, e com jogos de nome e de letras. Em casa, a família pode ler histórias e pedir que ela reconte o começo."

Exemplo 2 — 2º ano, aluno com dificuldade para manter a atenção nas tarefas

"Davi participa das conversas da turma com ideias e perguntas, principalmente em ciências. Nas atividades individuais longas, levanta-se várias vezes e deixa a folha pela metade; quando a tarefa vem em partes, com uma pausa combinada entre elas, termina a maioria das atividades. Lê textos curtos com fluência e compreende bem. Na escrita, as ideias estão organizadas, mas faltam letras em palavras mais longas quando escreve com pressa; com a lista de conferência no canto da mesa, ele próprio corrige parte dessas faltas. Em matemática, resolve adições e subtrações com dezenas e prefere explicar o raciocínio oralmente. Avançou neste bimestre na organização do material: usa a agenda com lembretes desenhados. Vamos manter as tarefas em partes e a lista de conferência. Sugerimos à família conversar com a coordenação sobre o que observamos em sala."

Exemplo 3 — relatório do AEE, aluno que se comunica com poucas palavras

"Pedro frequentou o AEE duas vezes por semana, em atendimento individual, e uma vez por semana a professora do AEE acompanhou a aula na sala comum. Pedro se comunica com poucas palavras, gestos e apontando. Neste semestre, passou a usar a prancha com figuras para pedir água, banheiro e para escolher entre duas atividades; na sala comum, usa o cartão de 'terminei' e o de 'ajuda'. A rotina visual colada na mesa reduziu as saídas da sala na troca de atividade. Em momentos de muito barulho, tapa os ouvidos e se afasta do grupo; o canto combinado, com retorno depois de alguns minutos, tem funcionado. Em matemática, pareia quantidades até 10 com material concreto. Com a professora regente, combinamos atividades com resposta por apontar e figuras do mesmo tema da turma. A família participou de duas devolutivas (março e junho) e relatou que ele começou a usar as figuras também em casa. Para o próximo semestre, ampliaremos o vocabulário da prancha e as atividades em dupla."

Exemplo 4 — 5º ano, aluna com adaptação curricular em matemática

"Ana participa das atividades em grupo e é procurada pelos colegas nas tarefas de artes. Em língua portuguesa, lê textos curtos com apoio de imagens e escreve frases simples sobre o tema estudado; com o banco de palavras, produziu um bilhete com começo, meio e fim. Em matemática, conforme o PEI, trabalha os mesmos temas da turma com material concreto e com objetivos adaptados: neste bimestre, passou a reconhecer cédulas e moedas, a somar valores até 20 reais com apoio e a conferir o troco em situações de compra simuladas em sala. Frações ainda não fazem parte dos objetivos dela. Ela se organiza melhor com a sequência da tarefa escrita no quadro. Próximos passos: problemas com dinheiro em duas etapas e leitura de relógio. A família pode incluir Ana em pequenas compras do dia a dia."

Repare no que os quatro exemplos têm em comum: nenhum nomeia diagnóstico, nenhum usa adjetivo sobre a criança, todos dizem o que ajudou e todos terminam com o que vem a seguir.

8. Onde a psicopedagoga entra

A psicopedagoga institucional pode orientar as professoras na escrita — o roteiro e a tabela acima servem para isso. A psicopedagoga clínica costuma estar do outro lado: recebe o relatório descritivo como uma das fontes da avaliação. Para ouvir a professora de forma organizada, a Biblioteca do iPsy tem a Anamnese Versão Escola, questionário para professor e coordenação.

Quando é a psicopedagoga quem escreve para a escola, o documento é outro: o relatório psicopedagógico, cuja estrutura completa, com exemplos, está no Modelo de Relatório Psicopedagógico Completo, gratuito com conta. Para quem acompanha o aluno ao longo do ano, o Kit de Documentos Psicopedagógicos tem modelos editáveis de relatório à escola e de relatório semestral à escola.

Para alunos com dislexia ou TDAH, a Lei nº 14.254/2021 assegura acompanhamento específico direcionado à dificuldade, pelos educadores da escola (art. 3º). O relatório descritivo é um bom lugar para registrar esse acompanhamento — descrevendo o que foi feito e como o aluno respondeu, sem que a professora precise, ou deva, afirmar o diagnóstico.

Fontes

Dúvidas comuns sobre relatório descritivo

O que é relatório descritivo do aluno?
É o registro em que a professora descreve o percurso de um aluno num período: o que aprendeu, como aprende, como participa, que apoios funcionaram e o que ainda precisa. Pode vir no lugar da nota ou junto com ela, conforme a rede, e segue a regra da LDB de dar mais peso aos aspectos qualitativos da avaliação.
Relatório descritivo e parecer descritivo são a mesma coisa?
As normas federais de avaliação e de educação especial não usam nenhum dos dois nomes nem fixam um formato; ambos designam um registro qualitativo do percurso do aluno. Use o nome, o modelo e a periodicidade que a sua rede adota.
Como fazer relatório descritivo na educação infantil?
Descreva o que a criança faz nas brincadeiras, nas conversas, nos desenhos e nas rotinas, com exemplos do dia a dia e sem comparar com os colegas. Na educação infantil a avaliação é por acompanhamento e registro, sem objetivo de promoção, e as diretrizes pedem múltiplos registros, como relatórios, fotos e desenhos.
O que escrever no relatório descritivo de aluno com autismo?
O mesmo que para qualquer aluno: como ele se comunica, participa, aprende e o que o ajuda, com cenas concretas. O relatório não classifica gravidade nem repete o laudo; descreve, por exemplo, que o aluno se comunica com poucas palavras e usa figuras para pedir e escolher.
A professora pode colocar diagnóstico no relatório descritivo?
Não. O relatório descritivo é pedagógico e a professora não diagnostica. Se algo preocupa, descreva o que observou e sugira à família conversar com um profissional. Diagnóstico é de médico ou psicólogo, conforme o caso.
Qual a diferença entre relatório descritivo e relatório psicopedagógico?
O relatório descritivo é escrito pela professora e registra o percurso escolar. O relatório psicopedagógico é escrito pela psicopedagoga depois de uma avaliação: descreve procedimentos, achados e recomendações. Nenhum dos dois diagnostica.
O que colocar no relatório do AEE?
Além do roteiro comum, os recursos e estratégias usados e como o aluno respondeu, a frequência e a forma dos atendimentos, o que foi combinado com a professora regente, as devolutivas à família e o que muda no plano. A Portaria MEC nº 421/2026 exige que o PEI registre o acompanhamento e as devolutivas às famílias.
De quanto em quanto tempo se faz o relatório descritivo?
A periodicidade é definida pela rede ou pela escola; a norma federal não a fixa. O que ela fixa é a revisão anual do PAEE e do PEI, compatibilizada com a avaliação contínua do estudante.