- A sequência mais usada
- 1ª sessão: entrevista com a família (queixa e contrato). 2ª: EOCA com a criança. 3ª: provas operatórias. 4ª: testes e sondagens de leitura, escrita e matemática. 5ª: devolutiva.
- Duração
- Em geral, de 45 a 50 minutos por sessão, uma ou duas vezes por semana. Crianças pequenas podem precisar de encontros mais curtos.
- Quantas sessões
- Cinco é o mínimo para uma avaliação enxuta. Muitos casos pedem de seis a dez, com visita à escola e mais instrumentos.
- Avaliação × intervenção
- Na avaliação você investiga como a pessoa aprende. Na intervenção você trabalha metas definidas no plano. São fases diferentes, com objetivos e registros diferentes.
Quem termina a pós em Psicopedagogia sabe a teoria da avaliação, mas a dúvida no primeiro atendimento é muito concreta: o que eu faço em cada sessão? Quanto tempo dura, o que levo, o que anoto, quando chamo a família de volta. Este guia responde sessão por sessão, da entrevista inicial à devolutiva, e mostra o que muda quando a avaliação termina e começa a intervenção.
A sequência abaixo é a mais usada na psicopedagogia clínica brasileira, com base na epistemologia convergente de Jorge Visca e na prática descrita por Maria Lúcia Weiss. Ela não é a única: algumas linhas fazem a anamnese completa só depois da EOCA, para não chegar à criança com o olhar já formado. O importante é que a ordem seja uma decisão sua, explicada à família no contrato.
1. Visão geral: as cinco sessões da avaliação

- 11ª sessão: entrevista com a família, queixa e contrato
- 22ª sessão: EOCA com a criança
- 33ª sessão: provas operatórias
- 44ª sessão: testes e sondagens de leitura, escrita e matemática
- 55ª sessão: devolutiva à família
| Sessão | Com quem | Objetivo | Material principal |
|---|---|---|---|
| 1ª | Responsáveis | Ouvir a queixa, firmar o contrato e colher a história | Roteiro de anamnese, contrato, termo de consentimento |
| 2ª | Criança | Observar como ela se relaciona com o aprender | Caixa da EOCA |
| 3ª | Criança | Investigar o nível de pensamento lógico | Protocolo de provas operatórias |
| 4ª | Criança | Medir leitura, escrita e matemática | Sondagens e testes padronizados |
| 5ª | Responsáveis (e, em outro momento, escola) | Contar o que foi encontrado e combinar os próximos passos | Relatório e plano de intervenção |
2. 1ª sessão: entrevista com a família e contrato
A primeira sessão é com os responsáveis, sem a criança. Ela tem três objetivos: entender a queixa (quem se preocupa, com o quê, desde quando), firmar o contrato de trabalho e começar a história de vida. Reserve de 50 a 60 minutos.
- 1Acolha e escute a queixa. Pergunte quem indicou a avaliação e o que cada um espera dela. Anote as palavras exatas da família: “ele não para”, “ela troca letras”.
- 2Explique o processo. Quantas sessões, com quem, o que acontece em cada uma e que no fim haverá devolutiva e relatório.
- 3Firme o contrato. Número de sessões, dia, horário, duração, valor, faltas e cancelamentos. O Código de Ética da ABPp pede que os honorários sejam tratados antes (art. 15).
- 4Colha o consentimento. Autorização por escrito para o atendimento e, se for o caso, para conversar com a escola. Dados de saúde e desenvolvimento de criança são dados sensíveis, e a LGPD exige consentimento específico de pelo menos um dos responsáveis (art. 14).
- 5Comece a anamnese. Gestação, desenvolvimento, saúde, escolaridade, rotina. Se a sua linha deixa a anamnese completa para depois da EOCA, colha aqui só a história escolar e a queixa.
Para o roteiro de perguntas, use o modelo de anamnese psicopedagógica ou monte a sua no gerador de anamnese. O contrato sai no gerador de contrato. Quem quer tudo pronto e editável (anamnese, contrato, termos, recibo) encontra no Kit de Documentos. E se a dúvida é o que falar no primeiro contato, o roteiro da primeira consulta ajuda.
3. 2ª sessão: EOCA com a criança
A primeira sessão com a criança costuma ser a Entrevista Operativa Centrada na Aprendizagem (EOCA), proposta por Jorge Visca. Você apresenta uma caixa com materiais escolares (folhas, lápis, borracha, tesoura, cola, revistas) e uma consigna aberta, algo como: “mostre o que você sabe fazer, o que te ensinaram e o que você aprendeu”. Depois, observa sem dirigir.
A EOCA não mede acertos. Ela mostra como a criança se relaciona com o aprender: o que escolhe e o que evita, como reage à liberdade, como pede ajuda, o que produz. Visca organiza a análise em três eixos, temática, dinâmica e produto, e é deles que sai o primeiro sistema de hipóteses, que vai orientar a escolha dos instrumentos das sessões seguintes.
- Duração: de 40 a 50 minutos, com tempo combinado no início.
- O que anotar: as falas da criança, a sequência do que ela fez, o tempo de cada atividade e as suas intervenções (que devem ser mínimas).
- O que guardar: a produção (desenhos, escrita, recortes), com data.
O passo a passo completo, com a lista de materiais da caixa e a análise dos três eixos, está no guia da EOCA. Se você quer a folha de registro e o roteiro de análise prontos para imprimir, o Kit da EOCA traz os dois.
4. 3ª sessão: provas operatórias
As provas operatórias de Piaget investigam o nível de pensamento lógico: conservação (de quantidade, massa, líquido, comprimento), classificação e seriação. O material é simples (massinha, fichas, copos de água, palitos), mas a aplicação pede técnica: a mesma pergunta em momentos diferentes, a contra-argumentação e o registro literal das justificativas da criança.
Escolha as provas pela idade e pela hipótese da EOCA. Para uma criança de 7 anos com dificuldade em matemática, por exemplo, conservação de quantidade e seriação dizem muito. Em 45 minutos cabem, em geral, de três a cinco provas sem cansar a criança.
O guia das provas operatórias explica cada prova e os três níveis de resposta. O Protocolo de provas operatórias reúne as consignas, as perguntas de contra-argumentação e a folha de registro por prova.
5. 4ª sessão: testes de leitura, escrita e matemática
A quarta sessão mede o desempenho acadêmico. A escolha depende da idade e da queixa: sondagem de escrita para quem está se alfabetizando, sondagem de leitura e fluência para leitores iniciais, o TDE-II para escrita, aritmética e leitura no ensino fundamental, e instrumentos de atenção ou funções executivas quando a queixa aponta para isso.
Não tente aplicar tudo num dia. Se a criança cansou, pare e continue na próxima sessão: dado de criança exausta é dado ruim. Muitas avaliações usam duas sessões para esta etapa. Quando há escala respondida por pais e professores, como o SNAP-IV, entregue as folhas na 1ª sessão para recolher aqui.
Para saber o que você pode aplicar sem ser psicóloga, veja a lista de testes psicopedagógicos. O Combo de Testes Psicopedagógicos reúne sondagens, provas e protocolos de leitura, escrita e matemática prontos para imprimir.
6. 5ª sessão: devolutiva
Antes da devolutiva, faça a síntese: junte a queixa, a EOCA, as provas e os testes e responda à pergunta inicial da família. Daí saem a hipótese psicopedagógica, as recomendações e, se for o caso, os encaminhamentos. Escreva o relatório antes da sessão, para não improvisar.
A devolutiva é com os responsáveis, de 50 a 60 minutos: o que a criança faz bem, o que ainda é difícil, o que isso significa, o que fazer em casa e na escola e o que vem agora. A criança também tem direito a uma devolutiva, mais curta e na linguagem dela, em outro momento. O roteiro completo está no guia de devolutiva psicopedagógica, com exemplos de fala no modelo de devolutiva.
7. Como organizar cada sessão por dentro

- 1Acolhida: alguns minutos para chegar e combinar o que vão fazer
- 2Atividade principal: a maior parte do tempo
- 3Fechamento: guardar o material e se despedir
- 4Registro: escrever logo depois, enquanto a memória está fresca
Toda sessão, de avaliação ou de intervenção, funciona melhor com três tempos: uma acolhida curta, a atividade principal e um fechamento previsível. Numa sessão de 50 minutos, algo como 5, 40 e 5. A regularidade dá segurança à criança e deixa as mudanças de comportamento mais fáceis de notar.
O registro da sessão
Escreva logo depois da sessão. Um bom registro tem: data e número da sessão, objetivo, o que foi feito (instrumento ou atividade), o que foi observado (com falas literais quando importam), a sua leitura e o que fazer na próxima. Guarde junto as produções da criança. Pelo Código de Ética da ABPp, esses registros são sigilosos e ficam arquivados por 5 anos após o fim do atendimento (art. 9º).
No iPsy Tools, cada sessão fica registrada dentro do caso, com o planejamento da próxima, e a Central de Progresso mostra a evolução das metas ao longo do tempo, o que ajuda muito na hora de escrever o relatório.
8. Sessão de avaliação × sessão de intervenção

- 1Avaliação: investigar, observar e medir
- 2Intervenção: ensinar, mediar e acompanhar metas
- 3A ponte entre as duas é o plano de intervenção
| Avaliação | Intervenção | |
|---|---|---|
| Objetivo | Entender como a pessoa aprende e o que atrapalha | Desenvolver as habilidades definidas no plano |
| Postura da psicopedagoga | Observa e interfere pouco | Media, ensina, ajusta a dificuldade |
| Duração | Algumas sessões, com fim combinado | Meses, com revisões periódicas |
| Registro | Dados e observações para o relatório | Evolução de cada meta, sessão a sessão |
| Termina com | Devolutiva e relatório | Reavaliação e relatório de acompanhamento |
Na intervenção, a sessão segue os mesmos três tempos, mas a atividade principal sai do plano de intervenção: cada encontro trabalha uma ou duas metas, com jogos, atividades e materiais escolhidos para elas. Veja como montar esse plano, com metas mensuráveis e exemplos por queixa, no guia de plano de intervenção psicopedagógica.
9. Erros comuns nas primeiras avaliações
- Aplicar teste na primeira sessão com a criança: sem vínculo, o desempenho cai e o dado não reflete o que ela sabe.
- Escolher instrumentos antes de ouvir a queixa: a bateria sai do que a família e a EOCA mostraram, não de uma lista fixa.
- Ajudar durante a EOCA: elogios e sugestões mudam justamente o que você quer observar.
- Deixar o registro para o fim de semana: você perde as falas literais, que são o melhor dado.
- Contar resultados no corredor: o que a família pergunta na porta responde-se na devolutiva, com tempo e contexto.
- Avaliar sem prazo: combine no contrato quantas sessões e quando será a devolutiva.