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Sessão psicopedagógica passo a passo: da 1ª à 5ª

Equipe iPsy
Atualizado em 13 min de leitura
Psicopedagogia e neuropsicopedagogia

Quem termina a pós em Psicopedagogia sabe a teoria da avaliação, mas a dúvida no primeiro atendimento é muito concreta: o que eu faço em cada sessão? Quanto tempo dura, o que levo, o que anoto, quando chamo a família de volta. Este guia responde sessão por sessão, da entrevista inicial à devolutiva, e mostra o que muda quando a avaliação termina e começa a intervenção.

A sequência abaixo é a mais usada na psicopedagogia clínica brasileira, com base na epistemologia convergente de Jorge Visca e na prática descrita por Maria Lúcia Weiss. Ela não é a única: algumas linhas fazem a anamnese completa só depois da EOCA, para não chegar à criança com o olhar já formado. O importante é que a ordem seja uma decisão sua, explicada à família no contrato.

1. Visão geral: as cinco sessões da avaliação

Trilha com cinco paradas numeradas: entrevista com os pais, criança diante da caixa da EOCA, provas com massinha e copos, testes de leitura e escrita e reunião de devolutiva.
  1. 11ª sessão: entrevista com a família, queixa e contrato
  2. 22ª sessão: EOCA com a criança
  3. 33ª sessão: provas operatórias
  4. 44ª sessão: testes e sondagens de leitura, escrita e matemática
  5. 55ª sessão: devolutiva à família
Ilustração: a sequência mais usada na avaliação psicopedagógica clínica, em cinco encontros.
SessãoCom quemObjetivoMaterial principal
1ªResponsáveisOuvir a queixa, firmar o contrato e colher a históriaRoteiro de anamnese, contrato, termo de consentimento
2ªCriançaObservar como ela se relaciona com o aprenderCaixa da EOCA
3ªCriançaInvestigar o nível de pensamento lógicoProtocolo de provas operatórias
4ªCriançaMedir leitura, escrita e matemáticaSondagens e testes padronizados
5ªResponsáveis (e, em outro momento, escola)Contar o que foi encontrado e combinar os próximos passosRelatório e plano de intervenção

2. 1ª sessão: entrevista com a família e contrato

A primeira sessão é com os responsáveis, sem a criança. Ela tem três objetivos: entender a queixa (quem se preocupa, com o quê, desde quando), firmar o contrato de trabalho e começar a história de vida. Reserve de 50 a 60 minutos.

  1. 1Acolha e escute a queixa. Pergunte quem indicou a avaliação e o que cada um espera dela. Anote as palavras exatas da família: “ele não para”, “ela troca letras”.
  2. 2Explique o processo. Quantas sessões, com quem, o que acontece em cada uma e que no fim haverá devolutiva e relatório.
  3. 3Firme o contrato. Número de sessões, dia, horário, duração, valor, faltas e cancelamentos. O Código de Ética da ABPp pede que os honorários sejam tratados antes (art. 15).
  4. 4Colha o consentimento. Autorização por escrito para o atendimento e, se for o caso, para conversar com a escola. Dados de saúde e desenvolvimento de criança são dados sensíveis, e a LGPD exige consentimento específico de pelo menos um dos responsáveis (art. 14).
  5. 5Comece a anamnese. Gestação, desenvolvimento, saúde, escolaridade, rotina. Se a sua linha deixa a anamnese completa para depois da EOCA, colha aqui só a história escolar e a queixa.

Para o roteiro de perguntas, use o modelo de anamnese psicopedagógica ou monte a sua no gerador de anamnese. O contrato sai no gerador de contrato. Quem quer tudo pronto e editável (anamnese, contrato, termos, recibo) encontra no Kit de Documentos. E se a dúvida é o que falar no primeiro contato, o roteiro da primeira consulta ajuda.

Conheça o Kit EOCA: da caixa ao relatório

3. 2ª sessão: EOCA com a criança

A primeira sessão com a criança costuma ser a Entrevista Operativa Centrada na Aprendizagem (EOCA), proposta por Jorge Visca. Você apresenta uma caixa com materiais escolares (folhas, lápis, borracha, tesoura, cola, revistas) e uma consigna aberta, algo como: “mostre o que você sabe fazer, o que te ensinaram e o que você aprendeu”. Depois, observa sem dirigir.

A EOCA não mede acertos. Ela mostra como a criança se relaciona com o aprender: o que escolhe e o que evita, como reage à liberdade, como pede ajuda, o que produz. Visca organiza a análise em três eixos, temática, dinâmica e produto, e é deles que sai o primeiro sistema de hipóteses, que vai orientar a escolha dos instrumentos das sessões seguintes.

  1. Duração: de 40 a 50 minutos, com tempo combinado no início.
  2. O que anotar: as falas da criança, a sequência do que ela fez, o tempo de cada atividade e as suas intervenções (que devem ser mínimas).
  3. O que guardar: a produção (desenhos, escrita, recortes), com data.

O passo a passo completo, com a lista de materiais da caixa e a análise dos três eixos, está no guia da EOCA. Se você quer a folha de registro e o roteiro de análise prontos para imprimir, o Kit da EOCA traz os dois.

4. 3ª sessão: provas operatórias

As provas operatórias de Piaget investigam o nível de pensamento lógico: conservação (de quantidade, massa, líquido, comprimento), classificação e seriação. O material é simples (massinha, fichas, copos de água, palitos), mas a aplicação pede técnica: a mesma pergunta em momentos diferentes, a contra-argumentação e o registro literal das justificativas da criança.

Escolha as provas pela idade e pela hipótese da EOCA. Para uma criança de 7 anos com dificuldade em matemática, por exemplo, conservação de quantidade e seriação dizem muito. Em 45 minutos cabem, em geral, de três a cinco provas sem cansar a criança.

O guia das provas operatórias explica cada prova e os três níveis de resposta. O Protocolo de provas operatórias reúne as consignas, as perguntas de contra-argumentação e a folha de registro por prova.

Conheça o iPsy Tools: casos, sessões, documentos e metas num lugar só

5. 4ª sessão: testes de leitura, escrita e matemática

A quarta sessão mede o desempenho acadêmico. A escolha depende da idade e da queixa: sondagem de escrita para quem está se alfabetizando, sondagem de leitura e fluência para leitores iniciais, o TDE-II para escrita, aritmética e leitura no ensino fundamental, e instrumentos de atenção ou funções executivas quando a queixa aponta para isso.

Não tente aplicar tudo num dia. Se a criança cansou, pare e continue na próxima sessão: dado de criança exausta é dado ruim. Muitas avaliações usam duas sessões para esta etapa. Quando há escala respondida por pais e professores, como o SNAP-IV, entregue as folhas na 1ª sessão para recolher aqui.

Para saber o que você pode aplicar sem ser psicóloga, veja a lista de testes psicopedagógicos. O Combo de Testes Psicopedagógicos reúne sondagens, provas e protocolos de leitura, escrita e matemática prontos para imprimir.

6. 5ª sessão: devolutiva

Antes da devolutiva, faça a síntese: junte a queixa, a EOCA, as provas e os testes e responda à pergunta inicial da família. Daí saem a hipótese psicopedagógica, as recomendações e, se for o caso, os encaminhamentos. Escreva o relatório antes da sessão, para não improvisar.

A devolutiva é com os responsáveis, de 50 a 60 minutos: o que a criança faz bem, o que ainda é difícil, o que isso significa, o que fazer em casa e na escola e o que vem agora. A criança também tem direito a uma devolutiva, mais curta e na linguagem dela, em outro momento. O roteiro completo está no guia de devolutiva psicopedagógica, com exemplos de fala no modelo de devolutiva.

7. Como organizar cada sessão por dentro

Relógio ilustrado dividido em três fases da sessão, acolhida, atividade principal e fechamento, ao lado de um caderno de registro ligado ao relógio por uma linha pontilhada.
  1. 1Acolhida: alguns minutos para chegar e combinar o que vão fazer
  2. 2Atividade principal: a maior parte do tempo
  3. 3Fechamento: guardar o material e se despedir
  4. 4Registro: escrever logo depois, enquanto a memória está fresca
Ilustração: acolhida curta, atividade principal e fechamento, com registro logo depois.

Toda sessão, de avaliação ou de intervenção, funciona melhor com três tempos: uma acolhida curta, a atividade principal e um fechamento previsível. Numa sessão de 50 minutos, algo como 5, 40 e 5. A regularidade dá segurança à criança e deixa as mudanças de comportamento mais fáceis de notar.

O registro da sessão

Escreva logo depois da sessão. Um bom registro tem: data e número da sessão, objetivo, o que foi feito (instrumento ou atividade), o que foi observado (com falas literais quando importam), a sua leitura e o que fazer na próxima. Guarde junto as produções da criança. Pelo Código de Ética da ABPp, esses registros são sigilosos e ficam arquivados por 5 anos após o fim do atendimento (art. 9º).

No iPsy Tools, cada sessão fica registrada dentro do caso, com o planejamento da próxima, e a Central de Progresso mostra a evolução das metas ao longo do tempo, o que ajuda muito na hora de escrever o relatório.

8. Sessão de avaliação × sessão de intervenção

Ilustração em duas cenas unidas por uma ponte: na avaliação a psicopedagoga observa a criança com uma lupa e prancheta; na intervenção as duas jogam juntas um jogo de tabuleiro.
  1. 1Avaliação: investigar, observar e medir
  2. 2Intervenção: ensinar, mediar e acompanhar metas
  3. 3A ponte entre as duas é o plano de intervenção
Ilustração: a avaliação investiga como a criança aprende; a intervenção trabalha as metas do plano.
AvaliaçãoIntervenção
ObjetivoEntender como a pessoa aprende e o que atrapalhaDesenvolver as habilidades definidas no plano
Postura da psicopedagogaObserva e interfere poucoMedia, ensina, ajusta a dificuldade
DuraçãoAlgumas sessões, com fim combinadoMeses, com revisões periódicas
RegistroDados e observações para o relatórioEvolução de cada meta, sessão a sessão
Termina comDevolutiva e relatórioReavaliação e relatório de acompanhamento

Na intervenção, a sessão segue os mesmos três tempos, mas a atividade principal sai do plano de intervenção: cada encontro trabalha uma ou duas metas, com jogos, atividades e materiais escolhidos para elas. Veja como montar esse plano, com metas mensuráveis e exemplos por queixa, no guia de plano de intervenção psicopedagógica.

9. Erros comuns nas primeiras avaliações

  1. Aplicar teste na primeira sessão com a criança: sem vínculo, o desempenho cai e o dado não reflete o que ela sabe.
  2. Escolher instrumentos antes de ouvir a queixa: a bateria sai do que a família e a EOCA mostraram, não de uma lista fixa.
  3. Ajudar durante a EOCA: elogios e sugestões mudam justamente o que você quer observar.
  4. Deixar o registro para o fim de semana: você perde as falas literais, que são o melhor dado.
  5. Contar resultados no corredor: o que a família pergunta na porta responde-se na devolutiva, com tempo e contexto.
  6. Avaliar sem prazo: combine no contrato quantas sessões e quando será a devolutiva.

Fontes

Dúvidas comuns sobre sessão psicopedagógica

Quanto tempo dura uma sessão psicopedagógica?
Em geral, de 45 a 50 minutos. Entrevistas e devolutivas com a família costumam levar de 50 a 60 minutos. Para crianças pequenas, sessões de 30 a 40 minutos podem render mais.
Quantas sessões tem uma avaliação psicopedagógica?
Cinco é o mínimo de uma avaliação enxuta: entrevista, EOCA, provas, testes e devolutiva. Muitos casos pedem de seis a dez, com mais instrumentos e uma conversa com a escola. Combine o número no contrato.
O que fazer na primeira sessão psicopedagógica?
Receber os responsáveis sem a criança, ouvir a queixa, explicar o processo, firmar o contrato, colher o consentimento por escrito e começar a anamnese.
A anamnese vem antes ou depois da EOCA?
Depende da linha. Muitas profissionais fazem a anamnese na primeira sessão. Na proposta de Jorge Visca, a anamnese completa vem depois da EOCA e das provas, para que a história contada não direcione o olhar sobre a criança.
O que fazer na 4ª sessão psicopedagógica?
Na sequência mais usada, a 4ª sessão é a de testes e sondagens de leitura, escrita e matemática, escolhidos pela idade e pelas hipóteses levantadas na EOCA e nas provas operatórias.
Qual a diferença entre sessão de avaliação e de intervenção?
A avaliação investiga como a pessoa aprende e termina com devolutiva e relatório. A intervenção trabalha metas definidas no plano, por meses, com registro da evolução de cada meta.
Preciso registrar cada sessão?
Sim. O registro sustenta o relatório e protege você. Pelo Código de Ética da ABPp, os registros são sigilosos e ficam arquivados por 5 anos após o fim do atendimento.