- O que é
- O documento que transforma os achados da avaliação em metas de aprendizagem, estratégias, frequência das sessões e forma de acompanhar a evolução.
- De onde sai
- Da síntese da avaliação psicopedagógica. Sem avaliação, não há como saber de onde a criança parte nem o que é meta realista.
- Metas
- Específicas, mensuráveis, atingíveis, relevantes para a vida escolar e com prazo. De três a cinco metas por ciclo é o que cabe acompanhar de verdade.
- Revisão
- A cada 8 a 12 semanas, com registro sessão a sessão e conversa com a família e, com autorização, com a escola.
A avaliação terminou, a devolutiva foi feita, a família quer começar. É aqui que muita psicopedagoga trava: como transformar o relatório num plano de trabalho que dê para acompanhar e mostrar resultado? A resposta é o plano de intervenção psicopedagógica: poucas metas, bem escritas, com estratégia, frequência e um jeito claro de medir.
Este guia mostra a estrutura do plano, como escrever metas mensuráveis, quatro exemplos fictícios por queixa e como acompanhar e revisar. Os exemplos servem para você ver o raciocínio; o plano do seu paciente sai da avaliação dele.
1. O que é o plano de intervenção e o que ele não é
O plano de intervenção é o documento da psicopedagoga que organiza o atendimento: o que vai ser trabalhado, como, com que frequência e como se sabe se está funcionando. A Lei nº 15.519/2026 lista a intervenção psicopedagógica entre as atribuições da atividade (art. 4º, I e II), e o plano é a forma de torná-la verificável.
| Documento | De quem é | Para quê |
|---|---|---|
| Plano de intervenção psicopedagógica | Da psicopedagoga | Organizar o atendimento clínico ou institucional |
| PEI (Plano Educacional Individualizado) | Da escola | Organizar o ensino e as adaptações em sala |
| Relatório psicopedagógico | Da psicopedagoga | Descrever a avaliação e recomendar |
O plano conversa com o PEI, mas não o substitui: o PEI é da escola, sai do estudo de caso e tem conteúdo mínimo definido pela Portaria MEC nº 421/2026. A psicopedagoga contribui com recomendações. O passo a passo do documento da escola está em como fazer um PEI.
2. A estrutura do plano em 6 blocos

- 1Identificação
- 2Síntese da avaliação: pontos fortes e dificuldades
- 3Metas do ciclo
- 4Estratégias e recursos
- 5Frequência, duração e prazos
- 6Acompanhamento e critérios de revisão
- 1Identificação: nome, idade, escolaridade, responsáveis, data de início e profissionais envolvidos.
- 2Síntese da avaliação: em poucas linhas, a hipótese psicopedagógica, os pontos fortes (que serão usados como ponte) e as dificuldades priorizadas.
- 3Metas do ciclo: de três a cinco, cada uma com o ponto de partida medido na avaliação.
- 4Estratégias e recursos: para cada meta, o que será feito nas sessões (jogos, atividades, materiais) e o que vai para casa e para a escola.
- 5Frequência e prazos: quantas sessões por semana, duração e data da revisão.
- 6Acompanhamento: como cada meta será medida e com que frequência, e quem recebe as notícias.
3. Como escrever metas mensuráveis
Meta vaga é o erro mais comum. “Melhorar a leitura” não diz de onde a criança parte, aonde deve chegar nem quando. O critério conhecido como SMART, proposto por George Doran em 1981 para metas de gestão e hoje usado em educação, ajuda a revisar cada meta:

- 1Específica: uma habilidade, numa situação definida
- 2Mensurável: com número, frequência ou critério observável
- 3Atingível: um passo acima do ponto de partida
- 4Relevante: faz diferença na vida escolar
- 5Com prazo: data de revisão definida
| Em vez de | Escreva |
|---|---|
| Melhorar a leitura | Ler textos do 2º ano com 60 palavras por minuto e até 3 erros, em 12 semanas (hoje: 35 ppm) |
| Trabalhar a atenção | Concluir uma tarefa de 10 minutos com no máximo 1 lembrete, em 4 de 5 sessões, em 10 semanas |
| Desenvolver o raciocínio matemático | Resolver adições com reagrupamento até 100 com material concreto, com 80% de acerto, em 8 semanas |
| Melhorar a escrita | Escrever 5 frases com segmentação correta entre palavras em ditado de 10 frases, em 12 semanas |
Repare que toda meta boa tem ponto de partida. Por isso o plano depende da avaliação: o número de hoje vem do TDE-II, da sondagem de escrita, das provas operatórias ou da sua observação registrada.
4. Exemplos por queixa: TDAH, dislexia, discalculia e TEA
TDAH (diagnóstico médico informado pela família), 9 anos, 4º ano
| Meta (12 semanas) | Estratégias na sessão | Como medir |
|---|---|---|
| Planejar e concluir uma tarefa escolar de 15 minutos com no máximo 1 lembrete | Checklist visual da tarefa, divisão em etapas, temporizador visível | Lembretes por tarefa, registrados em toda sessão |
| Revisar a própria resposta antes de entregar em 4 de 5 atividades | Rotina de “parar e conferir” com cartão de pistas | Contagem de revisões espontâneas |
| Organizar o material da mochila sozinho na sexta-feira | Combinado com a família e lista fixa | Registro da família, semanal |
Planejamento, controle inibitório e memória de trabalho são o centro do trabalho com TDAH. O Kit de funções executivas traz atividades graduadas para essas metas, e o Kit de devolutiva de TDAH ajuda a explicar o plano para a família.
Dislexia (hipótese em investigação com fonoaudióloga), 7 anos, 2º ano
| Meta (12 semanas) | Estratégias na sessão | Como medir |
|---|---|---|
| Segmentar palavras de 3 sílabas em fonemas com 80% de acerto | Jogos de consciência fonológica, letras móveis, apoio articulatório | Lista de 10 palavras a cada 2 semanas |
| Ler palavras regulares dissílabas com 80% de acerto | Leitura com pistas visuais, leitura repetida | Lista de 20 palavras, mensal |
| Ler um texto curto do 1º ano com 40 palavras por minuto | Leitura compartilhada e repetida | Palavras lidas por minuto, mensal |
Na dislexia, a consciência fonológica é a base. O Kit de consciência fonológica organiza as atividades por habilidade, da rima ao fonema.
Discalculia (hipótese), 10 anos, 5º ano
| Meta (10 semanas) | Estratégias na sessão | Como medir |
|---|---|---|
| Comparar e ordenar números até 1.000 com 90% de acerto | Reta numérica, material dourado, jogos de comparação | Ficha de 10 itens, quinzenal |
| Recuperar fatos de adição até 10 em até 3 segundos, em 8 de 10 | Jogos de memória de fatos, cartas | Cronômetro, quinzenal |
| Resolver problemas de uma etapa com desenho de apoio, com 70% de acerto | Representação em desenho e material concreto | Ficha de 5 problemas, mensal |
Para a discalculia, o Combo de Testes Psicopedagógicos reúne atividades de matemática organizadas por habilidade, incluindo senso numérico, contagem e cálculo, além dos protocolos de avaliação de matemática.
5. Exemplo para TEA e o cuidado com metas de comportamento
TEA (diagnóstico médico informado pela família), 6 anos, 1º ano
| Meta (12 semanas) | Estratégias na sessão | Como medir |
|---|---|---|
| Seguir uma rotina visual de 4 etapas na sessão com no máximo 1 ajuda | Agenda visual, antecipação de transições | Ajudas por sessão |
| Escrever o próprio nome com modelo, todas as letras legíveis | Traçado com apoio, letras móveis | Produção datada, quinzenal |
| Esperar a vez num jogo de mesa por 3 rodadas | Jogos curtos com regra visual e reforço do turno | Rodadas esperadas, por sessão |
No autismo, o plano psicopedagógico fica no campo da aprendizagem e da participação escolar. Metas de comunicação, comportamento e aspectos sensoriais costumam ser compartilhadas com outros profissionais da equipe, e o plano deve dizer quem faz o quê. O Código de Ética da ABPp pede trabalhar nos limites da atividade e encaminhar o que é de outro campo (art. 10).
6. Acompanhamento e revisão do plano

- 1Planejar: metas e estratégias do ciclo
- 2Intervir: sessões com as atividades de cada meta
- 3Registrar: a medida de cada meta, sessão a sessão
- 4Revisar: com a família e, com autorização, com a escola
Registre a medida de cada meta toda vez que ela for trabalhada. Na data de revisão, a cada 8 a 12 semanas, olhe a curva de cada meta e decida: manter (está avançando), ajustar a estratégia (parou), subir o critério (atingiu) ou trocar a meta (não faz mais sentido). Leve esse resumo para a família; com autorização por escrito, também para a escola.
No iPsy Tools, o PEI Inteligente ajuda a construir objetivos e estratégias a partir dos achados, e a Central de Progresso acompanha as metas em uma visão contínua, o que torna a revisão uma consulta e não uma garimpagem nos cadernos. Para registrar o caso desde o início, veja também como conduzir a sessão psicopedagógica passo a passo.
Quando o plano chega ao fim
O atendimento pode terminar quando as metas principais foram atingidas e a criança acompanha a escola com os apoios que a própria escola oferece. Faça uma reavaliação com os mesmos instrumentos do início, escreva um relatório de acompanhamento e faça uma devolutiva de alta. Os alunos com dislexia ou TDAH têm direito a acompanhamento específico na escola (Lei nº 14.254/2021, art. 3º), e o relatório final ajuda a escola a manter esse cuidado.
7. Erros comuns no plano de intervenção
- Plano copiado da internet: “plano de intervenção pronto” serve de inspiração; as metas precisam do ponto de partida do seu paciente.
- Metas demais: dez metas não se acompanham. Três a cinco por ciclo.
- Atividade no lugar da meta: “jogar dominó” é estratégia; a meta é o que o dominó desenvolve, medido.
- Sem data de revisão: o plano vira lista de atividades que se repete por meses.
- Metas de saúde: reduzir crises, medicar, tratar ansiedade não são metas psicopedagógicas. Encaminhe e articule.
Fontes
- Lei nº 15.519, de 22 de setembro de 2026 — atribuições da psicopedagogia, art. 4º (Planalto)
- Lei nº 14.254/2021 — acompanhamento integral de estudantes com dislexia, TDAH ou outro transtorno de aprendizagem (Planalto)
- Portaria MEC nº 421, de 15 de maio de 2026 — conteúdo mínimo do PAEE e do PEI (Diário Oficial da União)
- Código de Ética do Psicopedagogo — ABPp, aprovado em 26/10/2019 (PDF)