- O que é
- O FDT (Five Digit Test), criado por Manuel Sedó, é um teste do tipo Stroop com números e quantidades que avalia velocidade de processamento, controle inibitório e flexibilidade cognitiva.
- Para que idade
- A adaptação brasileira do FDT (Hogrefe CETEPP) tem normas de 6 a 92 anos, segundo a lista de testes favoráveis do SATEPSI.
- Quem pode aplicar
- O FDT tem parecer favorável no SATEPSI desde 24/04/2015 (consulta de 25/09/2026): é teste psicológico, de uso privativo do psicólogo. O psicopedagogo lê o laudo e usa o resultado no plano.
- Onde conseguir
- O FDT é vendido pela Hogrefe CETEPP, com manual, caderno de estímulos e folhas de resposta, a profissionais habilitados.
O FDT — Teste dos Cinco Dígitos — é um dos instrumentos mais usados no Brasil para medir atenção e funções executivas sem depender de leitura fluente. Em vez de palavras, como no Stroop clássico, ele trabalha com algarismos de 1 a 5 e com quantidades. Por isso aparece em laudos de crianças em alfabetização, de adultos com pouca escolaridade e de idosos.
Este guia explica o que o FDT avalia, como ele se organiza, quem pode aplicar e o que o psicopedagogo faz com o resultado quando o laudo chega à sua mesa. Não reproduzimos estímulos, normas nem folhas de resposta: esse material é protegido e fica com quem tem habilitação para usá-lo.
1. O que é o FDT e o que ele avalia

- 1Velocidade de processamento
- 2Controle inibitório
- 3Flexibilidade cognitiva
O Five Digit Test foi criado pelo neuropsicólogo espanhol Manuel A. Sedó como uma variação do paradigma Stroop. No Stroop clássico, a pessoa precisa dizer a cor da tinta e ignorar a palavra escrita. No FDT, o conflito é entre o algarismo que aparece e a quantidade de elementos: ler é automático, contar exige esforço, e o teste mede o custo de passar de um para o outro.
A adaptação brasileira, de Jonas Jardim de Paula e Leandro F. Malloy-Diniz com o autor original, é publicada pela Hogrefe CETEPP. A lista de testes favoráveis do SATEPSI registra a faixa normativa de 6 a 92 anos.
As três funções que o FDT mede
- Velocidade de processamento: o tempo das etapas simples mostra o ritmo básico com que a pessoa identifica e responde a estímulos.
- Controle inibitório: a capacidade de segurar a resposta automática (ler o número) quando a tarefa pede outra coisa.
- Flexibilidade cognitiva: a capacidade de alternar entre duas regras sem se perder, o que também puxa a memória de trabalho.
Como o teste usa só algarismos de 1 a 5, ele exige pouco da linguagem. Estudos brasileiros com idosos de baixa escolaridade encontraram boa confiabilidade e validade para velocidade de processamento e funções executivas, o que explica o uso do FDT em populações em que testes verbais são injustos.
2. As quatro etapas do FDT

- 11. Leitura
- 22. Contagem
- 33. Escolha
- 44. Alternância
O FDT tem quatro partes com o mesmo tipo de material e dificuldade crescente. As duas primeiras medem processamento simples; as duas últimas, processamento controlado. A descrição abaixo é a da literatura publicada, sem os estímulos do teste.
| Etapa | O que a pessoa faz | O que mostra |
|---|---|---|
| 1. Leitura | Identifica algarismos apresentados visualmente. | Velocidade de processamento em tarefa automática. |
| 2. Contagem | Conta quantidades de símbolos simples. | Velocidade em tarefa simples, mas menos automática que ler. |
| 3. Escolha | Conta quantidades quando o próprio algarismo entra em conflito com a resposta certa. | Controle inibitório: segurar o impulso de ler. |
| 4. Alternância | Muda de regra (ler ou contar) conforme uma pista visual. | Flexibilidade cognitiva e memória de trabalho. |
Em cada etapa o aplicador registra tempo e erros. O manual também orienta a calcular índices derivados de inibição e de flexibilidade, que comparam as etapas controladas com as automáticas. Esses índices são importantes porque separam lentidão geral de dificuldade executiva: uma criança lenta em tudo tem perfil diferente de uma criança rápida na leitura e muito lenta na escolha.
3. Quem pode aplicar o FDT

- 1Psicólogo: aplica, corrige e interpreta o FDT
- 2Psicopedagogo: lê o laudo e planeja a intervenção
- 3Os dois: trocam informação no encaminhamento
O FDT tem parecer favorável no SATEPSI, o sistema de avaliação de testes do Conselho Federal de Psicologia, aprovado em 24/04/2015 e com prazo de estudos de validade até 2035 (consulta de 25/09/2026). Teste com parecer favorável é teste psicológico de uso privativo do psicólogo: aplicação, correção, interpretação e laudo ficam com ele.
Para o psicopedagogo, isso significa três coisas práticas:
- Não aplicar nem adaptar o FDT. Montar uma versão caseira com números e quantidades não é o FDT e não pode ser apresentado com o nome do teste nem com as normas dele.
- Saber ler o laudo. Entender o que significam tempo, erros, inibição e flexibilidade ajuda a transformar o resultado em metas de sessão.
- Observar as mesmas funções com recursos próprios. Na avaliação psicopedagógica, atenção e controle aparecem em tarefas escolares, jogos de regra e atividades de sequência, registradas de forma qualitativa.
4. Como ler o resultado do FDT no laudo
O laudo costuma trazer os resultados das quatro etapas e os índices de inibição e flexibilidade, comparados com a norma da idade (e, em adultos, da escolaridade). Alguns padrões aparecem com frequência e ajudam a conversar com o psicólogo:
- Lentidão em todas as etapas: sugere velocidade de processamento rebaixada. Na escola, aparece como cópia lenta, provas inacabadas e necessidade de mais tempo.
- Etapas simples na média, escolha muito lenta ou com muitos erros: aponta para dificuldade de controle inibitório. Na sala, é a criança que responde antes de pensar e troca operações por impulso.
- Alternância muito prejudicada: indica dificuldade em mudar de regra. Aparece em exercícios que misturam operações, em problemas com várias etapas e em mudanças de rotina.
- Muitos erros com tempo rápido: padrão de velocidade à custa da precisão, que merece atenção a impulsividade e a autorregulação.
Leia sempre o FDT junto com o restante da avaliação: história escolar, observação, outros testes de atenção e de funções executivas, e o contexto emocional no dia da aplicação. Ansiedade, sono ruim e baixa familiaridade com tarefas cronometradas também deixam o desempenho mais lento.
5. Onde o FDT entra na avaliação psicopedagógica
O psicopedagogo encontra o FDT em três momentos típicos:
1. No encaminhamento. Quando a queixa é desatenção, lentidão ou impulsividade e a avaliação psicopedagógica sugere componente executivo, o encaminhamento ao psicólogo ou neuropsicólogo pode pedir explicitamente medidas de atenção e funções executivas — o FDT é uma das opções que o colega pode escolher.
2. Na leitura do laudo. O resultado do FDT ajuda a decidir por onde começar: velocidade, inibição ou flexibilidade pedem estratégias diferentes. Uma criança com inibição frágil se beneficia de rotinas de “parar e checar”; uma com flexibilidade frágil, de treino gradual de troca de regras.
3. No acompanhamento. Uma reavaliação pelo psicólogo depois de um período de intervenção mostra se houve mudança. Para não contaminar o reteste, a intervenção nunca deve usar material parecido com os estímulos do FDT — treine as funções em tarefas diferentes do teste.
Para planejar as sessões, a Biblioteca do iPsy tem o Pacote Funções Executivas e a Bateria de Rastreio de Funções Executivas, para baixar com conta gratuita. O guia de atividades de funções executivas reúne ideias por idade.
6. Limitações do FDT
- Não é diagnóstico. O FDT descreve atenção e funções executivas; não define TDAH, TEA nem deficiência intelectual.
- Exige conhecer números e contar. Crianças que ainda não reconhecem algarismos de 1 a 5 ou não contam com segurança não podem ser avaliadas de forma justa.
- Sofre influência do estado do dia. Cansaço, ansiedade, medicação e motivação alteram tempo e erros.
- Efeito de prática. Reaplicações próximas melhoram o desempenho por familiaridade; o intervalo segue o que o manual orienta.
- Mede um recorte. Planejamento, memória de trabalho verbal e organização no dia a dia pedem outros instrumentos e a observação em contexto.
Para comparar com outros instrumentos da mesma família, veja os guias do Stroop, do Trail Making e da Torre de Londres.
Fontes
- Conselho Federal de Psicologia. SATEPSI — Testes Psicológicos Favoráveis: FDT — Teste dos Cinco Dígitos (Paula, Malloy-Diniz, Sedó; Hogrefe CETEPP), consulta em 25/09/2026.
- de Paula JJ, Oliveira TD, Querino EHG, Malloy-Diniz LF. (2017). The Five Digits Test in the assessment of older adults with low formal education: construct validity and reliability in a Brazilian clinical sample. Trends in Psychiatry and Psychotherapy, 39(3).
- Cecato JF. (2024). Five Digit Test in neuropsychological assessment of working memory in aged individuals: normative data. Dementia & Neuropsychologia, 18.