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Atenção e Funções Executivas

Teste FDT (Cinco Dígitos): o que avalia, quem aplica e como ler o resultado

Equipe iPsy
Atualizado em 9 min de leitura
Psicopedagogia e neuropsicopedagogia
Faixa etária
6–92 anos
Quem aplica
Privativo psicólogo
Categoria
Atenção e Funções Executivas

O FDT — Teste dos Cinco Dígitos — é um dos instrumentos mais usados no Brasil para medir atenção e funções executivas sem depender de leitura fluente. Em vez de palavras, como no Stroop clássico, ele trabalha com algarismos de 1 a 5 e com quantidades. Por isso aparece em laudos de crianças em alfabetização, de adultos com pouca escolaridade e de idosos.

Este guia explica o que o FDT avalia, como ele se organiza, quem pode aplicar e o que o psicopedagogo faz com o resultado quando o laudo chega à sua mesa. Não reproduzimos estímulos, normas nem folhas de resposta: esse material é protegido e fica com quem tem habilitação para usá-lo.

1. O que é o FDT e o que ele avalia

Ilustração do FDT: um adolescente diante de um caderno abstrato, a profissional com cronômetro e ícones de velocidade, inibição e flexibilidade.
  1. 1Velocidade de processamento
  2. 2Controle inibitório
  3. 3Flexibilidade cognitiva
Ilustração: o FDT mede o quanto a resposta fica mais lenta quando a tarefa pede controle.

O Five Digit Test foi criado pelo neuropsicólogo espanhol Manuel A. Sedó como uma variação do paradigma Stroop. No Stroop clássico, a pessoa precisa dizer a cor da tinta e ignorar a palavra escrita. No FDT, o conflito é entre o algarismo que aparece e a quantidade de elementos: ler é automático, contar exige esforço, e o teste mede o custo de passar de um para o outro.

A adaptação brasileira, de Jonas Jardim de Paula e Leandro F. Malloy-Diniz com o autor original, é publicada pela Hogrefe CETEPP. A lista de testes favoráveis do SATEPSI registra a faixa normativa de 6 a 92 anos.

As três funções que o FDT mede

  1. Velocidade de processamento: o tempo das etapas simples mostra o ritmo básico com que a pessoa identifica e responde a estímulos.
  2. Controle inibitório: a capacidade de segurar a resposta automática (ler o número) quando a tarefa pede outra coisa.
  3. Flexibilidade cognitiva: a capacidade de alternar entre duas regras sem se perder, o que também puxa a memória de trabalho.

Como o teste usa só algarismos de 1 a 5, ele exige pouco da linguagem. Estudos brasileiros com idosos de baixa escolaridade encontraram boa confiabilidade e validade para velocidade de processamento e funções executivas, o que explica o uso do FDT em populações em que testes verbais são injustos.

2. As quatro etapas do FDT

Ilustração com quatro cartões em sequência e dificuldade crescente: ler, contar, escolher e alternar, numerados de 1 a 4.
  1. 11. Leitura
  2. 22. Contagem
  3. 33. Escolha
  4. 44. Alternância
Ilustração: duas etapas automáticas e duas que exigem controle executivo.

O FDT tem quatro partes com o mesmo tipo de material e dificuldade crescente. As duas primeiras medem processamento simples; as duas últimas, processamento controlado. A descrição abaixo é a da literatura publicada, sem os estímulos do teste.

EtapaO que a pessoa fazO que mostra
1. LeituraIdentifica algarismos apresentados visualmente.Velocidade de processamento em tarefa automática.
2. ContagemConta quantidades de símbolos simples.Velocidade em tarefa simples, mas menos automática que ler.
3. EscolhaConta quantidades quando o próprio algarismo entra em conflito com a resposta certa.Controle inibitório: segurar o impulso de ler.
4. AlternânciaMuda de regra (ler ou contar) conforme uma pista visual.Flexibilidade cognitiva e memória de trabalho.

Em cada etapa o aplicador registra tempo e erros. O manual também orienta a calcular índices derivados de inibição e de flexibilidade, que comparam as etapas controladas com as automáticas. Esses índices são importantes porque separam lentidão geral de dificuldade executiva: uma criança lenta em tudo tem perfil diferente de uma criança rápida na leitura e muito lenta na escolha.

Conheça o Funções executivas na prática

3. Quem pode aplicar o FDT

Ilustração em duas metades: a psicóloga com a maleta do teste e um selo de uso privativo; a psicopedagoga com jogos e atividades de atenção, ligadas por uma seta de encaminhamento.
  1. 1Psicólogo: aplica, corrige e interpreta o FDT
  2. 2Psicopedagogo: lê o laudo e planeja a intervenção
  3. 3Os dois: trocam informação no encaminhamento
Ilustração: o psicólogo aplica o FDT; o psicopedagogo usa o laudo e trabalha as funções na intervenção.

O FDT tem parecer favorável no SATEPSI, o sistema de avaliação de testes do Conselho Federal de Psicologia, aprovado em 24/04/2015 e com prazo de estudos de validade até 2035 (consulta de 25/09/2026). Teste com parecer favorável é teste psicológico de uso privativo do psicólogo: aplicação, correção, interpretação e laudo ficam com ele.

Para o psicopedagogo, isso significa três coisas práticas:

  1. Não aplicar nem adaptar o FDT. Montar uma versão caseira com números e quantidades não é o FDT e não pode ser apresentado com o nome do teste nem com as normas dele.
  2. Saber ler o laudo. Entender o que significam tempo, erros, inibição e flexibilidade ajuda a transformar o resultado em metas de sessão.
  3. Observar as mesmas funções com recursos próprios. Na avaliação psicopedagógica, atenção e controle aparecem em tarefas escolares, jogos de regra e atividades de sequência, registradas de forma qualitativa.

4. Como ler o resultado do FDT no laudo

O laudo costuma trazer os resultados das quatro etapas e os índices de inibição e flexibilidade, comparados com a norma da idade (e, em adultos, da escolaridade). Alguns padrões aparecem com frequência e ajudam a conversar com o psicólogo:

  1. Lentidão em todas as etapas: sugere velocidade de processamento rebaixada. Na escola, aparece como cópia lenta, provas inacabadas e necessidade de mais tempo.
  2. Etapas simples na média, escolha muito lenta ou com muitos erros: aponta para dificuldade de controle inibitório. Na sala, é a criança que responde antes de pensar e troca operações por impulso.
  3. Alternância muito prejudicada: indica dificuldade em mudar de regra. Aparece em exercícios que misturam operações, em problemas com várias etapas e em mudanças de rotina.
  4. Muitos erros com tempo rápido: padrão de velocidade à custa da precisão, que merece atenção a impulsividade e a autorregulação.

Leia sempre o FDT junto com o restante da avaliação: história escolar, observação, outros testes de atenção e de funções executivas, e o contexto emocional no dia da aplicação. Ansiedade, sono ruim e baixa familiaridade com tarefas cronometradas também deixam o desempenho mais lento.

5. Onde o FDT entra na avaliação psicopedagógica

O psicopedagogo encontra o FDT em três momentos típicos:

1. No encaminhamento. Quando a queixa é desatenção, lentidão ou impulsividade e a avaliação psicopedagógica sugere componente executivo, o encaminhamento ao psicólogo ou neuropsicólogo pode pedir explicitamente medidas de atenção e funções executivas — o FDT é uma das opções que o colega pode escolher.

2. Na leitura do laudo. O resultado do FDT ajuda a decidir por onde começar: velocidade, inibição ou flexibilidade pedem estratégias diferentes. Uma criança com inibição frágil se beneficia de rotinas de “parar e checar”; uma com flexibilidade frágil, de treino gradual de troca de regras.

3. No acompanhamento. Uma reavaliação pelo psicólogo depois de um período de intervenção mostra se houve mudança. Para não contaminar o reteste, a intervenção nunca deve usar material parecido com os estímulos do FDT — treine as funções em tarefas diferentes do teste.

Para planejar as sessões, a Biblioteca do iPsy tem o Pacote Funções Executivas e a Bateria de Rastreio de Funções Executivas, para baixar com conta gratuita. O guia de atividades de funções executivas reúne ideias por idade.

6. Limitações do FDT

  1. Não é diagnóstico. O FDT descreve atenção e funções executivas; não define TDAH, TEA nem deficiência intelectual.
  2. Exige conhecer números e contar. Crianças que ainda não reconhecem algarismos de 1 a 5 ou não contam com segurança não podem ser avaliadas de forma justa.
  3. Sofre influência do estado do dia. Cansaço, ansiedade, medicação e motivação alteram tempo e erros.
  4. Efeito de prática. Reaplicações próximas melhoram o desempenho por familiaridade; o intervalo segue o que o manual orienta.
  5. Mede um recorte. Planejamento, memória de trabalho verbal e organização no dia a dia pedem outros instrumentos e a observação em contexto.

Para comparar com outros instrumentos da mesma família, veja os guias do Stroop, do Trail Making e da Torre de Londres.

Fontes

Dúvidas comuns sobre o FDT (Cinco Dígitos)

O que significa FDT?
FDT é a sigla de Five Digit Test, Teste dos Cinco Dígitos em português. O nome vem dos algarismos de 1 a 5, que são o material de todas as etapas do teste.
O psicopedagogo pode aplicar o FDT?
Não. O FDT tem parecer favorável no SATEPSI (consulta de 25/09/2026) e é teste psicológico de uso privativo do psicólogo. O psicopedagogo pode ler o laudo, conversar com o psicólogo sobre o resultado e trabalhar velocidade, inibição e flexibilidade na intervenção, com material próprio.
A partir de que idade o FDT pode ser usado?
A adaptação brasileira tem normas de 6 a 92 anos, segundo a lista de testes favoráveis do SATEPSI. A criança precisa reconhecer os algarismos de 1 a 5 e contar pequenas quantidades.
Qual a diferença entre o FDT e o Stroop?
Os dois medem interferência: a dificuldade de segurar uma resposta automática. O Stroop usa cores e palavras e depende de leitura fluente; o FDT usa algarismos e quantidades, o que reduz a exigência de linguagem e escolaridade.
O FDT diagnostica TDAH?
Não. Desempenho rebaixado no FDT é compatível com dificuldades executivas presentes em vários quadros, inclusive TDAH, mas também pode refletir ansiedade, cansaço ou pouca familiaridade com tarefas cronometradas. O diagnóstico depende de avaliação clínica ampla.